Amor ou Ilusão?
— Você não entende, mãe! Eu amo o Caio! — gritei, sentindo minha voz tremer, enquanto as lágrimas ameaçavam cair. Minha mãe, Dona Lúcia, me olhava com aquele misto de pena e preocupação que só as mães conseguem ter.
— Amar, filha? Ou será que você só está apaixonada pela ideia dele? — ela rebateu, cruzando os braços.
Naquele momento, tudo dentro de mim era confusão. O cheiro do café recém-passado na cozinha da nossa casa simples em Osasco misturava-se ao perfume barato que eu passava antes de sair para a faculdade. Eu me olhava no espelho, ajeitava o cabelo, passava batom vermelho e abria mais um botão da blusa, tentando parecer mais interessante, mais mulher, mais tudo o que Caio pudesse querer.
Caio era colega de turma na faculdade de Letras. Moreno, sorriso fácil, sempre rodeado de amigos. Eu me sentia invisível perto dele, mas não desistia. Inventava desculpas para puxar assunto:
— Caio, você entendeu a explicação da professora sobre Clarice Lispector? — perguntava, mesmo sabendo que tinha entendido perfeitamente.
Ele sorria educado:
— Entendi sim, Ana. Mas se quiser conversar sobre o livro depois, a gente pode marcar um grupo de estudos.
Grupo de estudos. Nunca só nós dois. Sempre mais gente. Sempre aquela distância educada, como se houvesse uma linha invisível entre nós que ele jamais atravessaria.
Meus amigos diziam:
— Ana, larga mão desse cara! Ele nem te olha desse jeito!
Mas eu insistia. Mandava mensagens tarde da noite:
“Oi, Caio! Tudo bem? Vi um filme ontem que lembrou você.”
Ele respondia horas depois:
“Oi, Ana! Que filme?”
E a conversa morria ali. Eu ficava olhando para o celular, esperando algo mais. Um convite, um elogio, qualquer coisa. Mas nada vinha.
Em casa, minha irmã mais nova, Camila, zombava:
— Você parece aquelas personagens de novela das seis, toda dramática por causa de homem!
Eu fingia não ligar, mas cada palavra dela era um espinho. Meu pai nem falava nada — só bufava e mudava de canal quando eu começava a reclamar da vida amorosa.
O tempo foi passando e minha obsessão por Caio só aumentava. Comecei a faltar aulas só para evitar vê-lo com outras meninas. Um dia, vi ele conversando animado com a Júlia na cantina. Ela riu alto e tocou no braço dele. Senti uma pontada no peito tão forte que precisei sair correndo dali.
No banheiro da faculdade, encostei na porta e chorei baixinho. Por que ele não me via? O que faltava em mim? Eu fazia tudo: mudava o cabelo, usava roupas diferentes, tentava ser engraçada… Nada adiantava.
Numa noite chuvosa de sexta-feira, decidi tomar coragem. Mandei uma mensagem direta:
“Caio, posso te falar uma coisa? Acho você incrível. Gosto muito de você.”
O coração disparou enquanto eu via o “digitando…” aparecer na tela.
“Ana, você é uma pessoa muito legal. Mas não sinto por você o mesmo. Espero que a gente possa continuar amigos.”
O mundo desabou. Fiquei olhando para aquelas palavras como se fossem uma sentença de morte. Senti vergonha, raiva de mim mesma por ter me exposto tanto. Passei dias trancada no quarto, ignorando as mensagens das amigas e os chamados da minha mãe para jantar.
Quando finalmente saí do quarto, minha mãe me esperava na sala.
— Filha… — ela começou devagar — Eu sei que dói agora. Mas você precisa aprender a se amar primeiro. Não adianta correr atrás de quem não te quer.
— Mas eu fiz tudo certo! — rebati — Fui carinhosa, atenciosa…
Ela sorriu triste:
— Às vezes a gente faz tudo certo e mesmo assim não dá certo. O amor não é uma troca justa.
Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça por semanas. Voltei para a faculdade com o rosto inchado de tanto chorar e a alma pesada. Caio continuava sendo gentil comigo nos corredores, mas agora havia um muro entre nós — construído por mim mesma.
Comecei a reparar nas outras meninas da turma: cada uma com seus próprios dramas e inseguranças. Percebi que eu não era a única tentando ser vista, tentando ser amada. Vi também quantas vezes ignorei quem gostava de mim porque estava cega por alguém que nunca me quis.
Numa tarde qualquer, sentei no banco da praça perto de casa e vi um casal discutindo. A menina chorava e o rapaz parecia perdido. Me vi ali naquela cena: sempre esperando algo do outro que talvez nunca venha.
Voltei para casa e decidi conversar com minha mãe.
— Mãe… Você acha que algum dia vou ser amada de verdade?
Ela me abraçou forte:
— Claro que vai, filha. Mas primeiro precisa aprender a se amar do jeito que é. Sem precisar mudar pra agradar ninguém.
Foi difícil aceitar isso. Passei anos tentando ser outra pessoa para caber no sonho de alguém. Agora precisava aprender a caber em mim mesma.
Aos poucos fui retomando minha rotina: voltei a sair com as amigas, ri das piadas da Camila (mesmo quando eram sobre mim), ajudei meu pai a consertar o portão da garagem num sábado qualquer. Comecei a escrever sobre meus sentimentos num caderno velho — páginas cheias de perguntas sem resposta e desabafos sinceros.
Um dia Caio veio falar comigo na biblioteca:
— Ana… Espero que esteja tudo bem entre a gente.
Olhei nos olhos dele e sorri:
— Tá sim, Caio. Obrigada por ser sincero comigo.
Ele sorriu aliviado e voltou para o grupo dele. Senti um peso saindo das minhas costas.
Hoje olho para trás e vejo quanto tempo perdi tentando ser amada por alguém que nunca me enxergou de verdade. Aprendi que amor não é insistência nem sacrifício cego; é respeito próprio antes de tudo.
Às vezes ainda sinto falta daquela emoção do começo — o frio na barriga ao ver Caio chegando na sala — mas agora sei que posso sentir isso por mim mesma também: orgulho de quem estou me tornando.
E você? Já se apaixonou tanto por alguém a ponto de esquecer quem realmente é? Até onde vale a pena insistir em um amor não correspondido?