Adeus, Trovão: O Dia em Que Perdi Meu Melhor Amigo
— Trovão, volta aqui agora! — gritei, sentindo minha voz tremer mais do que nunca. O barulho do motor do carro ainda ecoava na estrada de terra, mas o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Saltei do carro, tropeçando nos próprios pés, e corri até o corpo estirado do meu cachorro. Ele não se mexia. Não abanava o rabo. Não levantava as orelhas como sempre fazia quando me via chegar.
Me ajoelhei ao lado dele, sentindo o cheiro de terra molhada misturado ao pelo sujo de Trovão. As lágrimas vieram antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo. Meu peito apertou como se alguém tivesse colocado um peso enorme sobre ele. — Não, não, não… — sussurrei, passando a mão pelo focinho dele, esperando qualquer sinal de vida. Mas ele estava frio.
O mundo pareceu girar ao meu redor. Eu só conseguia pensar em uma coisa: “O que eu vou dizer pra minha mãe?” Ela sempre dizia que Trovão era responsabilidade minha. “Se vai ter cachorro, tem que cuidar!” Quantas vezes ouvi isso? E agora, ali estava eu, com meu melhor amigo morto na beira da estrada.
A lembrança da última discussão com minha mãe me atravessou como uma faca. Ela tinha reclamado porque eu deixei o portão aberto. “Você é muito distraído, Rafael! Um dia vai acontecer uma tragédia!” Eu revirei os olhos na hora, achando exagero. Agora, tudo fazia sentido.
O sol começava a nascer por trás das árvores do sítio, mas nada parecia bonito naquele momento. Peguei Trovão no colo — ele era pesado, mas eu não queria deixá-lo ali sozinho. Caminhei de volta para casa, sentindo cada passo como se fosse um castigo.
Minha mãe estava na cozinha, preparando café. Quando me viu entrar com Trovão nos braços, seus olhos se arregalaram.
— O que aconteceu? — perguntou, largando a xícara na pia.
Eu não consegui responder. Só consegui chorar. Ela veio até mim e colocou a mão no meu ombro. Ficamos ali em silêncio por alguns segundos eternos.
— Ele… ele foi atropelado — consegui dizer por fim, a voz falhando.
Ela fechou os olhos e respirou fundo. — Eu avisei, Rafael… Eu avisei tanto…
A culpa me esmagou ainda mais. Queria gritar que não era minha culpa, que foi um acidente, mas sabia que no fundo ela estava certa. Se eu tivesse fechado o portão…
Passamos o resto da manhã em silêncio. Minha mãe me ajudou a cavar um buraco debaixo da mangueira onde Trovão gostava de dormir nas tardes quentes. Cada pá de terra parecia enterrar um pedaço do meu coração junto com ele.
Depois do enterro improvisado, sentei na varanda olhando para o horizonte. O sítio parecia vazio sem Trovão correndo atrás das galinhas ou latindo para os carros que passavam.
Meu irmão mais novo, Lucas, chegou da escola e logo percebeu o clima estranho.
— Cadê o Trovão? — perguntou.
Olhei para minha mãe, esperando que ela respondesse por mim. Mas ela só balançou a cabeça.
— O Trovão foi pro céu dos cachorros — disse ela, tentando sorrir para Lucas.
Ele ficou em silêncio por um tempo e depois começou a chorar baixinho. Fui até ele e o abracei forte.
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei pensando em tudo o que poderia ter feito diferente. Se tivesse ouvido minha mãe… Se tivesse prestado mais atenção…
No dia seguinte, precisei ir à cidade comprar ração para as galinhas. No caminho, encontrei Dona Cida, nossa vizinha fofoqueira.
— Ué, cadê seu cachorro? Não vi ele latindo hoje cedo! — perguntou ela.
Senti um nó na garganta. — Ele morreu ontem… foi atropelado.
Dona Cida fez cara de pena e começou a contar histórias de outros cachorros que morreram na estrada. Fiquei ouvindo sem prestar muita atenção. Só queria voltar pra casa e ficar sozinho.
Os dias foram passando e a dor foi dando lugar a uma saudade silenciosa. Mas a culpa continuava ali, me acompanhando como uma sombra.
Minha mãe também mudou depois daquele dia. Ficou mais calada, menos paciente comigo e com Lucas. Às vezes eu a pegava olhando para o quintal vazio com os olhos cheios de lágrimas.
Uma noite, enquanto lavava a louça, ela finalmente falou:
— Sabe, Rafael… Eu também já perdi um cachorro quando era criança. Era uma cadelinha chamada Estrela. Fiquei semanas sem conseguir dormir direito.
Olhei para ela surpreso. Nunca tinha ouvido essa história antes.
— Eu sei que você está sofrendo — continuou ela — mas não pode carregar essa culpa pra sempre. A vida no sítio é assim mesmo… A gente perde uns bichos pelo caminho.
Fiquei pensando nisso por dias. Será que algum dia eu ia conseguir perdoar a mim mesmo?
Um mês depois do acidente, Lucas apareceu com um filhote magrelo que achou perto do rio.
— Posso ficar com ele? — perguntou, os olhos brilhando de esperança.
Minha mãe olhou pra mim antes de responder.
— E aí, Rafael? O que você acha?
Olhei para o filhote tremendo nos braços do meu irmão e senti uma pontada no peito. Não queria substituir Trovão… Mas talvez fosse hora de tentar de novo.
— Pode sim — respondi baixinho — mas dessa vez vamos cuidar juntos.
Lucas sorriu e correu para mostrar o novo amigo para as galinhas.
Naquela noite, sentei na varanda olhando as estrelas e pensei em Trovão. Senti saudade, mas também gratidão por tudo o que vivemos juntos.
A vida segue, mesmo quando parece impossível seguir em frente.
Será que algum dia a gente aprende a lidar com as perdas? Ou será que só aprendemos a conviver com elas?