O Silêncio da Casa de Regina

— Mais um dia igual a todos os outros — pensei, enquanto a água fervia na chaleira. O relógio da parede marcava 8h15, e o silêncio da casa era tão denso que parecia pesar sobre meus ombros. Lavei a xícara de chá do café da manhã, como fazia todas as manhãs desde que João se foi. O cheiro do café fresco subiu, misturando-se ao perfume das flores murchas na mesa. Olhei pela janela: a rua estava vazia, só o vento brincava com as folhas secas.

— Dona Regina, a senhora não vai sair hoje? — gritou Dona Cida, minha vizinha, do outro lado do muro.

— Não hoje, Cida. O joelho tá reclamando — respondi, forçando um sorriso que ela não podia ver.

A verdade é que meu joelho doía menos que meu peito. Desde que João partiu, há quase dez anos, a casa ficou grande demais para mim. Meus filhos, André e Luciana, moram longe — um em Belo Horizonte, outro em Curitiba — e as visitas se tornaram cada vez mais raras. No começo, ligavam todo domingo. Agora, às vezes esqueço até o som da voz deles.

Sentei na poltrona ao lado da janela, onde João costumava ler o jornal. O livro dele ainda estava aberto no parapeito, marcando uma página que nunca mais seria lida. Passei os dedos pela capa, sentindo a poeira fina.

— João, por que você me deixou tão cedo? — sussurrei para o vazio.

O telefone tocou, me arrancando dos pensamentos. Era Luciana.

— Mãe! Tudo bem por aí?

— Tudo sim, filha. E você?

— Correndo como sempre. O Pedro tá com febre, mas nada grave. Queria tanto poder ir aí esse mês, mas tá difícil…

— Eu entendo, filha. Cuida dele por mim.

Desliguei com um nó na garganta. Não queria que ela sentisse culpa. Mas a verdade é que cada ligação era uma mistura de alegria e dor: alegria por ouvir minha filha; dor por saber que ela está longe demais para um abraço.

À tarde, tentei me distrair limpando a casa. Passei pano nos móveis, reguei as plantas e organizei as fotos antigas no álbum. Em cada foto, um pedaço da minha vida: eu e João sorrindo na praia de Ubatuba; André pequeno, com os joelhos ralados; Luciana vestida de noiva. Senti uma pontada de saudade tão forte que precisei sentar.

No fim do dia, Dona Cida bateu à porta com um pedaço de bolo de fubá.

— Trouxe pra senhora. Fiz demais de novo — disse ela, entrando sem esperar convite.

— Obrigada, Cida. Senta um pouco.

Ela se acomodou na cadeira da cozinha e começou a falar dos netos, das novelas e dos problemas do bairro. Fingi interesse, mas minha cabeça estava longe. Queria falar sobre João, sobre como sinto falta dele até nas pequenas coisas: o barulho do chinelo arrastando no corredor, o jeito como ele assobiava enquanto lavava o carro.

— A senhora devia sair mais — disse Cida de repente. — Vai lá no centro comunitário comigo amanhã. Tem bingo e dança de salão.

— Não sei se tenho ânimo pra isso…

— Tem que tentar! Ficar sozinha só faz a gente pensar besteira.

Ela tinha razão. Mas como explicar esse cansaço que não é do corpo? Esse vazio que não se preenche nem com bolo de fubá nem com conversa fiada?

Naquela noite, sentei na cama e olhei para o teto escuro. O ventilador fazia um barulho monótono. Peguei o terço na gaveta e comecei a rezar:

— Deus, me dá força pra continuar. Me mostra um motivo pra levantar amanhã.

O sono veio devagar, misturado com lembranças e sonhos confusos.

No dia seguinte, acordei cedo com o som dos passarinhos na janela. Lembrei do convite de Dona Cida e decidi aceitar. Vesti meu melhor vestido — aquele azul que João gostava — e passei um batom discreto. Olhei no espelho: os cabelos brancos aumentaram, mas ainda havia um brilho nos olhos.

No centro comunitário, fui recebida com abraços calorosos e sorrisos sinceros. No bingo, ganhei uma toalha bordada e ri como não fazia há tempos. Na dança de salão, um senhor chamado Seu Antônio me tirou para dançar.

— A senhora dança muito bem!

— Faz tempo que não danço… desde que meu marido se foi.

Ele sorriu compreensivo:

— Eu também perdi minha esposa faz uns anos. A gente aprende a viver com a saudade.

Voltando pra casa naquele fim de tarde, senti algo diferente: uma leveza no peito. Talvez eu pudesse encontrar alegria nas pequenas coisas novamente — mesmo sem João ao meu lado.

Mas à noite, quando tudo ficou em silêncio outra vez, a solidão voltou como uma onda fria. Sentei na varanda e olhei para o céu estrelado.

— Será que algum dia vou me sentir completa de novo? Ou será que a saudade é tudo o que me resta?

E você? Já sentiu esse vazio? Como encontrou forças para seguir em frente?