Purê, Frango e o Divórcio que Nunca Aconteceu: A História de Camila do Conjunto Habitacional do Capão Redondo

— Você não vai mesmo comer, Rafael? — perguntei, segurando o prato de purê de batata e frango grelhado, o cheiro se misturando ao aroma de chuva que entrava pela janela quebrada da cozinha. Meu marido olhou para mim com aqueles olhos cansados, desviando o olhar para a televisão velha que chiava no canto da sala. — Não tô com fome, Camila. Deixa aí.

Era sempre assim. Desde que ele perdeu o emprego na oficina, há três meses, a casa parecia mais apertada, o ar mais pesado. Eu trabalhava dobrado no mercadinho do seu Zé, pegando turno extra para pagar as contas do nosso apartamento no bloco 7 do conjunto habitacional do Capão Redondo. O barulho dos vizinhos discutindo no corredor era trilha sonora constante das nossas noites.

Naquela noite, eu estava exausta. O purê era instantâneo, o frango estava seco demais, mas era o que dava pra fazer com o pouco dinheiro que sobrou depois de pagar a luz e comprar o remédio da minha mãe. Ela morava conosco desde que teve um AVC, e eu era a única filha que sobrara por perto. Meu irmão, Leandro, sumiu no mundo depois de uma briga feia com meu pai anos atrás.

— Mãe, come mais um pouco — insisti, tentando alimentar dona Lourdes na boca. Ela resmungou algo incompreensível, os olhos perdidos na parede descascada. Senti um aperto no peito. Às vezes eu me perguntava se ela ainda sabia quem eu era.

Rafael levantou do sofá de repente, pegou a chave do carro velho e murmurou:
— Vou dar uma volta.

— Agora? Tá chovendo! — reclamei, mas ele já tinha batido a porta. Fiquei ali parada, ouvindo o som dos pneus passando na poça da entrada do prédio.

Sentei à mesa com minha mãe e meu filho pequeno, Lucas, que brincava com um carrinho quebrado. O silêncio era tão pesado quanto a chuva lá fora.

De repente, meu celular vibrou. Era uma mensagem da minha irmã mais nova, Juliana:

“Camila, preciso falar com você urgente. Sobre o Rafael. Me liga quando puder.”

Meu coração disparou. O que ela queria dizer com aquilo? Rafael e Juliana nunca se deram bem — desde aquela vez em que ele gritou com ela por causa de um prato sujo na pia.

Peguei o telefone e liguei para ela no banheiro, tentando não acordar Lucas.

— Ju? O que foi?

Ela hesitou antes de responder:
— Camila… você sabe onde o Rafael tá agora?

— Saiu pra dar uma volta. Por quê?

— Eu vi ele hoje à tarde no shopping Campo Limpo… com uma mulher.

Senti o chão sumir sob meus pés.

— Tem certeza?

— Tenho. Eles estavam de mãos dadas. Achei melhor te contar.

Desliguei sem saber o que pensar. O barulho da chuva parecia zombar de mim. Sentei no chão frio do banheiro e chorei baixinho para ninguém ouvir.

Quando Rafael voltou, já era quase meia-noite. Ele entrou sem olhar pra mim, foi direto pro quarto e se jogou na cama. Fui atrás dele.

— Onde você tava?

Ele virou de costas.

— Só dei uma volta.

— No shopping Campo Limpo?

Ele ficou em silêncio. Senti uma raiva subir pelo corpo todo.

— Você tá me traindo?

Ele se virou devagar, os olhos vermelhos.

— Não começa, Camila. Já não basta tudo que a gente tá passando?

— Eu mereço saber a verdade!

Ele levantou da cama num pulo:

— Verdade? Quer saber a verdade? Eu não aguento mais essa vida! Não aguento mais essa casa apertada, sua mãe doente, as contas atrasadas! Eu só queria respirar um pouco!

Fiquei paralisada. Ele saiu do quarto batendo a porta com força.

Na manhã seguinte, acordei com Lucas me chamando:

— Mãe, papai foi embora?

Olhei para o lado: a cama estava vazia. Rafael tinha sumido.

Passei os dias seguintes como um zumbi: trabalhando no mercadinho, cuidando da minha mãe, tentando explicar para Lucas por que o pai dele não estava em casa. Juliana veio me ajudar algumas noites, trazendo pão e café.

Uma semana depois, Rafael voltou. Entrou em casa como se nada tivesse acontecido.

— Vim buscar umas roupas — disse seco.

— Você vai embora mesmo? — perguntei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair de novo.

Ele olhou para mim por um segundo longo demais.

— Não sei. Só preciso pensar.

Ficamos naquele limbo por meses: ele indo e vindo, dormindo fora alguns dias, voltando outros. Nunca conversávamos direito sobre o que estava acontecendo. Minha mãe piorava a cada semana; Lucas perguntava pelo pai todos os dias; eu sentia meu coração se despedaçar aos poucos.

Até que um dia recebi uma carta do fórum: pedido de divórcio. Mas Rafael nunca apareceu na audiência. O processo foi arquivado por falta de interesse das partes.

Hoje olho para trás e vejo como aquela noite chuvosa mudou tudo — ou talvez não tenha mudado nada. Continuamos juntos por inércia, presos pelos laços invisíveis da rotina e do medo do desconhecido.

Às vezes me pergunto: teria sido melhor enfrentar a dor do fim ou continuar vivendo esse quase-casamento feito de silêncios e purê instantâneo? Quantas famílias aqui no nosso bairro vivem assim — esperando uma resposta que nunca chega?