Entre a Estrada e o Berço: O Preço de uma Escolha

— Lesinho, por favor, não vai nessa viagem hoje. Eu tô sentindo um aperto no peito, uma coisa ruim… — sussurrou a Kátia, com os olhos marejados, segurando minha mão com tanta força que parecia querer me prender ali pra sempre.

Olhei pra ela, pro barrigão já de oito meses, e senti o peso do mundo nas costas. O relógio marcava quase meia-noite e o telefone do patrão já tinha tocado duas vezes. Era uma carga urgente pra São Paulo, dinheiro bom, e eu sabia que cada centavo fazia diferença agora. Mas ver minha mulher daquele jeito me desmontou.

— Kátia, meu amor, eu prometo que volto logo. É só uma entrega, rapidinho. A gente precisa desse dinheiro pro enxoval do bebê. — tentei sorrir, mas minha voz falhou.

Ela chorou baixinho, encostando a cabeça no meu peito. — E se acontecer alguma coisa? E se você não voltar?

Abracei ela forte, tentando afastar o medo. — Eu volto. Sempre volto. Você sabe disso.

Saí de casa com o coração apertado, o cheiro do café dela ainda grudado na camisa. O bairro estava silencioso, só o latido distante de um cachorro e o ronco do meu caminhão quebravam o silêncio da madrugada. Antes de entrar na boleia, olhei pra janela do nosso apartamento: ela estava lá, acenando com a mão trêmula.

A estrada era minha velha conhecida. Já tinha rodado aquele trecho entre Belo Horizonte e São Paulo tantas vezes que podia fazer de olhos fechados. Mas naquela noite tudo parecia diferente. O rádio só tocava música triste e cada farol alto vindo na contramão me fazia pensar nas palavras da Kátia.

No meio do caminho, parei num posto pra tomar um café. Encontrei o Zé Carlos, outro caminhoneiro da firma.

— E aí, Lesinho! Tá com cara de quem viu fantasma…

— Ah, Zé… Deixei a Kátia chorando em casa. Ela tá com um pressentimento ruim dessa viagem.

Ele riu, tentando aliviar. — Mulher grávida sente cada coisa… Relaxa! Faz tua entrega e volta logo pro colo dela.

Dei um sorriso amarelo e segui viagem. Mas o medo não me largava.

Já era quase amanhecendo quando peguei um trecho da Fernão Dias cheio de neblina. Diminuí a velocidade, mas um carro pequeno apareceu do nada na contramão. Tentei desviar, mas tudo aconteceu rápido demais: um estrondo, vidro estilhaçado, dor.

Acordei no hospital dias depois. O cheiro forte de remédio me enjoava. Minha mãe estava sentada ao lado da cama, segurando minha mão igual a Kátia fez naquela noite.

— Mãe… cadê a Kátia? Cadê meu filho?

Ela chorou antes de responder:

— Teu filho nasceu prematuro, Lesinho… Tá na incubadora. A Kátia tá lá com ele agora. Você ficou em coma três dias.

Senti uma mistura de alívio e culpa esmagadora. Eu devia ter ouvido minha mulher. Devia ter ficado em casa.

Quando finalmente pude ver meu filho, ele era tão pequeno que cabia na palma da minha mão. Kátia estava ao lado dele, olheiras fundas e um sorriso triste.

— Ele vai ficar bem — disse ela, tentando acreditar nas próprias palavras.

Passei semanas no hospital me recuperando das fraturas e pensando em tudo que podia ter sido diferente. O seguro do caminhão não cobriu tudo e as contas só aumentavam. Tive que vender nosso carro velho pra pagar parte dos remédios do bebê.

A família começou a se intrometer:

— Lesinho devia arrumar outro emprego! Caminhoneiro só se lasca! — dizia meu sogro toda vez que aparecia lá em casa.

Minha mãe defendia:

— Ele faz o que pode! Quem vai dar emprego pra ele agora todo quebrado?

As brigas aumentaram. Kátia ficou mais distante, cansada de tanto sofrimento. Eu tentava ajudar em casa como podia, mas sentia que era um peso pra todo mundo.

Uma noite, ouvi Kátia chorando no banheiro. Bati na porta:

— Amor, abre pra mim…

Ela saiu com os olhos vermelhos:

— Eu tô cansada, Lesinho… Cansada de ter medo toda vez que você sai pra trabalhar. Cansada de ver nosso filho lutando pra sobreviver porque você precisava daquele dinheiro!

Senti uma raiva de mim mesmo tão grande que quis sumir dali.

— Eu só queria dar o melhor pra vocês…

Ela me abraçou forte:

— Eu sei… Mas será que vale a pena esse preço?

O tempo passou devagar. Nosso filho foi melhorando aos poucos e finalmente pôde ir pra casa. Mas eu nunca mais fui o mesmo depois daquele acidente. Fiquei com sequelas na perna e não consegui mais voltar pra estrada.

Tentei arrumar emprego como porteiro num prédio do bairro, mas o salário mal dava pras despesas básicas. Kátia começou a fazer bolos pra vender na vizinhança e assim fomos levando.

Às vezes olho pro meu filho brincando no tapete da sala e penso em tudo que perdi e ganhei naquela noite fatídica. Será que fiz a escolha certa? Será que algum dia vou conseguir perdoar a mim mesmo por tudo que aconteceu?

E você aí do outro lado: até onde iria pra garantir o futuro da sua família? Vale mesmo qualquer sacrifício?