Consumido pelo Ciúme: Será que Estou Perdendo Minha Esposa?
— Você vai sair de novo hoje, Mariana? — minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia, mas não consegui evitar. Ela nem olhou pra mim enquanto pegava a bolsa em cima da mesa.
— André, é só um happy hour com o pessoal do trabalho. Já te falei — respondeu, ajeitando o cabelo diante do espelho da sala. O cheiro do perfume dela, aquele mesmo que usava no nosso primeiro encontro, invadiu o ambiente e me trouxe uma mistura de nostalgia e angústia.
Fiquei parado na porta, observando cada movimento dela. Mariana sempre foi linda, mas ultimamente parecia ainda mais radiante. Nova maquiagem, roupas diferentes, um brilho estranho no olhar. E eu? Eu era só o André, marido de sempre, cansado do trabalho na oficina mecânica, com as mãos sujas de graxa e o coração pesado.
— Vai voltar tarde? — insisti, tentando soar casual.
Ela suspirou, impaciente:
— Não sei. Depende de como for lá. Não fica me esperando acordado.
A porta bateu. O silêncio que ficou era ensurdecedor. Sentei no sofá e encarei a parede descascada da sala. O ventilador fazia um barulho irritante, mas não abafava o zunido dos meus pensamentos. Será que ela estava me traindo? Ou será que era só coisa da minha cabeça?
Lembro do começo do nosso casamento. Morávamos num quitinete apertado em Osasco, mas éramos felizes. Ríamos juntos das contas atrasadas, sonhávamos com uma casa maior, filhos correndo pelo quintal. Mariana sempre foi meu porto seguro. Mas agora… agora parecia que ela era uma ilha distante.
O celular vibrou na mesa. Mensagem do meu irmão, Paulo:
“E aí, sumido! Bora tomar uma hoje?”
Respondi rápido:
“Não posso. Mariana saiu de novo.”
Ele mandou um emoji de risada e escreveu:
“Relaxa, mano. Mulher precisa de espaço também.”
Mas como relaxar? Como confiar quando tudo dentro de mim gritava que algo estava errado?
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei rolando na cama, ouvindo cada carro que passava na rua, esperando ouvir a chave girar na porta. Quando finalmente ouvi, já eram quase três da manhã.
Mariana entrou devagar, tirou os sapatos e foi direto pro banho. Fingi estar dormindo, mas meu coração batia tão forte que parecia querer saltar do peito.
No dia seguinte, tentei agir normalmente. Preparei café pra nós dois e deixei na mesa.
— Dormiu bem? — perguntei.
Ela apenas assentiu, mexendo no celular sem me olhar nos olhos.
— Mariana… — comecei, mas ela me interrompeu:
— André, por favor. Não começa.
Fiquei calado. O medo de ouvir uma verdade dolorosa era maior do que a vontade de brigar.
Os dias foram passando assim: ela cada vez mais distante, eu cada vez mais desconfiado. Comecei a reparar em tudo: nas mensagens que ela recebia e apagava rápido demais; nas ligações que atendia sussurrando no quarto; nos sorrisos que dava para o celular.
Um sábado à tarde, enquanto ela tomava banho, não aguentei e peguei o celular dela. Mãos trêmulas, coração disparado. Procurei por algo — qualquer coisa — que confirmasse minhas suspeitas.
Encontrei conversas com um tal de Rafael. Mensagens cheias de risadinhas e emojis de coração. “Adorei ontem”, “Você é incrível”, “Quero te ver de novo”.
O chão sumiu sob meus pés. Senti vontade de gritar, de quebrar tudo ao meu redor. Mas fiquei ali parado, olhando para aquelas palavras como se fossem facas cravadas no peito.
Quando Mariana saiu do banho e me viu com o celular na mão, ficou pálida.
— O que você está fazendo?
— Quem é Rafael? — minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos eternos. Depois sentou na cama e começou a chorar.
— André… Eu ia te contar. Eu juro que ia… Mas não sabia como.
Senti uma raiva misturada com tristeza tão grande que precisei sair dali antes de fazer uma besteira. Saí andando sem rumo pelas ruas do bairro, sentindo o peso do mundo nas costas.
Lembrei das nossas promessas no altar: “na alegria e na tristeza”. Mas ninguém me avisou que a tristeza podia ser tão profunda assim.
Voltei pra casa já de noite. Mariana estava sentada no sofá, olhos vermelhos de tanto chorar.
— Me perdoa — ela disse baixinho — Eu me perdi de mim mesma… Não queria te machucar.
Sentei ao lado dela. Ficamos em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade.
— Por quê? — perguntei finalmente — O que eu fiz de errado?
Ela balançou a cabeça:
— Não foi você… Sou eu. Eu precisava sentir algo novo… Me sentir viva de novo. Mas agora vejo o quanto te machuquei.
As palavras dela ecoaram dentro de mim como um trovão. Como seguir em frente depois disso? Como confiar novamente?
Nos dias seguintes, tentei entender onde erramos. Será que foi a rotina? O cansaço? Ou será que simplesmente deixamos de nos enxergar?
Minha mãe sempre dizia: “Casamento é igual cuidar de planta: se não regar todo dia, morre”. Talvez eu tenha esquecido de regar nosso amor.
Mariana pediu um tempo pra pensar. Foi pra casa da mãe dela em Santo André. A casa ficou vazia sem ela — até o cheiro do perfume sumiu dos travesseiros.
Paulo veio me visitar:
— Mano… Você vai conseguir passar por isso. Mas precisa decidir se quer perdoar ou seguir sozinho.
Chorei pela primeira vez em anos. Chorei tudo o que estava preso dentro de mim: mágoa, raiva, saudade.
Hoje escrevo essas palavras sem saber qual será o final dessa história. Só sei que o ciúme pode destruir tudo se a gente deixar. E que às vezes amar também é saber soltar…
Será que vale a pena lutar por alguém que já não quer ficar? Ou é melhor aprender a se amar primeiro? O que vocês fariam no meu lugar?