Sombras na Cozinha

— De novo esse bolo aqui? — murmurei, olhando para o pedaço de bolo de fubá em cima da mesa da cozinha. O cheiro era doce, familiar, mas eu sabia que não tinha feito bolo nenhum. Nem ontem, nem anteontem. E ninguém mais morava comigo desde que minha mãe se foi, há quase dois anos.

Não era medo o que eu sentia. Era um cansaço que grudava nos ossos, como aquela friagem úmida de São Paulo em julho. Cansaço das noites mal dormidas, do ônibus lotado, das conversas vazias no escritório. Cansaço de voltar para casa e encontrar só o eco dos meus próprios passos.

Peguei o prato e olhei em volta. A cozinha era pequena, azulejos antigos, a geladeira com ímãs de propaganda de pizzaria e um calendário do Corinthians de 2017. Tudo igual, tudo parado no tempo desde que minha mãe adoeceu. Sentei na cadeira e fiquei encarando o bolo, como se ele fosse me dar alguma resposta.

— Tá ficando doido, Rafael? — falei sozinho, rindo sem graça.

Mas não era loucura. Era outra coisa. Uma sensação de que alguma coisa estava fora do lugar, mas eu não sabia dizer o quê.

Naquela noite, sonhei com minha mãe. Ela estava na cozinha, mexendo uma panela no fogão, cantando baixinho uma música da Marisa Monte. Eu tentava falar com ela, mas minha voz não saía. Acordei suando frio, com o coração disparado.

No dia seguinte, quando cheguei do trabalho, lá estava outro pedaço de bolo. O mesmo cheiro, a mesma textura. Sentei na mesa e chorei baixinho, sem saber direito por quê.

Minha irmã, Camila, ligou naquela noite.

— Rafa, você tá bem? — perguntou ela, com aquela voz preocupada de sempre.

— Tô… mais ou menos. Sinto falta da mãe — respondi, tentando disfarçar.

— Eu também sinto. Mas você precisa sair desse apartamento. Vem passar uns dias aqui em casa, com as crianças. Vai te fazer bem.

— Não sei… — hesitei. — Aqui é tudo que me resta dela.

Camila ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você precisa seguir em frente, Rafa. A mãe não ia querer te ver assim.

Desliguei o telefone e fiquei olhando para o teto. Seguir em frente? Como? Quando tudo ao meu redor parecia impregnado dela?

No sábado, fui ao mercado comprar pão e café. Na fila do caixa, encontrei dona Lurdes, a vizinha do 502.

— Rafael! Quanto tempo! — disse ela, sorrindo com aquele jeito maternal.

— Oi, dona Lurdes. Tudo bem?

— Você tá muito abatido, meu filho. Precisa se cuidar. Sua mãe sempre dizia que você era forte, mas eu sei que esse negócio de força às vezes é só fachada…

Sorri sem graça e me despedi rápido. Não queria conversa.

Quando cheguei em casa, senti um cheiro forte de café passado na hora. Entrei na cozinha e vi a cafeteira ligada e outro pedaço de bolo na mesa. Meu coração gelou.

— Quem tá aí? — gritei.

Silêncio.

Abri todas as portas do apartamento. Nada. Só eu e as lembranças.

Naquela noite, sentei no sofá com uma caixa de fotos antigas. Vi minha mãe jovem, sorrindo ao lado do meu pai — que nos deixou cedo demais — e depois nós dois pequenos, brincando no quintal da casa da vó Nair em Campinas. Senti uma saudade tão grande que parecia me sufocar.

No domingo, Camila apareceu sem avisar.

— Não aguento mais te ver assim — disse ela, entrando com as crianças correndo pelo corredor.

— Camila, eu tô bem…

— Não tá não! Olha pra você! Esse apartamento tá te matando aos poucos!

As crianças correram para a cozinha e gritaram:

— Tio Rafa! Tem bolo!

Corri até lá e vi os dois sentados à mesa, comendo o bolo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Quem fez esse bolo? — perguntei, tentando manter a calma.

Camila me olhou surpresa:

— Ué… não foi você?

Neguei com a cabeça.

Ela ficou pálida por um instante e depois riu nervosa:

— Deve ter sido algum vizinho… ou você esqueceu que fez…

Mas eu sabia que não tinha esquecido. E também sabia que ninguém tinha a chave daquele apartamento além de mim e Camila.

Naquela noite, depois que eles foram embora, sentei na cozinha escura e fiquei olhando para o prato vazio. Senti uma presença ali comigo — não era medo, era uma tristeza funda misturada com um carinho antigo.

Falei em voz alta:

— Mãe… se é você… eu tô tentando seguir em frente. Mas tá difícil demais sem você aqui.

O silêncio respondeu por alguns segundos antes de um vento leve balançar a cortina da janela.

Na segunda-feira acordei decidido: precisava mudar alguma coisa. Liguei para Camila e disse que ia passar uns dias na casa dela. Arrumei uma mala pequena e antes de sair olhei para a cozinha uma última vez.

No caminho para a casa da minha irmã, pensei em tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Será que era só minha cabeça pregando peças? Ou será que as lembranças realmente têm força pra se materializar quando a saudade aperta?

Na casa da Camila, rodeado pelas crianças e pelo barulho da família dela, comecei a sentir um pouco menos de peso nos ombros. Aos poucos fui entendendo que guardar as coisas da minha mãe não era o mesmo que guardar ela dentro de mim. Que talvez fosse hora de deixar as sombras irem embora e abrir espaço pra luz entrar de novo.

Hoje voltei ao apartamento só pra buscar algumas roupas e encontrei a cozinha vazia — sem cheiro de bolo, sem café passado na hora. Só silêncio e um pouco de poeira no chão.

Sentei à mesa e fechei os olhos por um instante. Senti uma paz estranha, como se finalmente tivesse me despedido direito.

Será que todos nós carregamos essas sombras dentro da gente? Será que um dia conseguimos mesmo deixar pra trás aquilo que mais amamos?