O Príncipe Que Não Era Meu Conto de Fadas

— Você acha que eu sou idiota, Zosia? — a voz do Piotrão ecoou pela cozinha apertada, enquanto ele largava a mochila no chão com força. O cheiro de feijão queimado subia da panela, mas eu mal sentia o aroma. Meu coração batia tão alto que abafava qualquer outro som.

Eu nunca imaginei que aquela noite terminaria assim. Quando conheci Piotrão — Pedro Henrique, mas ninguém chamava ele assim — ele tinha acabado de voltar do quartel. Era o centro das atenções na pracinha do bairro: alto, forte, cabelo preto caindo nos olhos verdes, sorriso de quem sabe que pode tudo. Eu, Zosia, era só mais uma menina de cabelos claros e sorriso tímido, sempre achando que não era suficiente.

Na primeira vez que ele me olhou, senti um frio na barriga. Ele me escolheu no meio da galera, ignorando as meninas mais bonitas e descoladas. Me levou pra dançar forró na festa junina da igreja, e eu achei que estava vivendo um sonho. Minha mãe dizia: “Cuidado com homem bonito demais, filha.” Mas como resistir?

No começo, tudo era perfeito. Ele me buscava no trabalho — eu era caixa no mercadinho do Seu Osvaldo — e me enchia de presentes simples: uma rosa roubada do jardim da vizinha, um bombom Sonho de Valsa. Me fazia rir das piadas bobas e prometia mundos e fundos. “Você é minha princesa”, ele dizia.

Mas logo vieram as cobranças. “Por que você demora tanto pra responder no WhatsApp?” “Quem é esse tal de Rafael curtindo suas fotos?” Eu tentava explicar, mas ele sempre achava um motivo pra desconfiar. Uma noite, depois de uma discussão boba, ele sumiu. Fiquei horas olhando pro celular, esperando uma mensagem. Quando finalmente chegou, era só um “Boa noite”.

Minha mãe percebeu rápido que algo estava errado. “Esse menino não tem jeito, Zosia. Olha como você anda triste.” Mas eu insistia: “Mãe, ele me ama do jeito dele.”

Os meses passaram e Piotrão foi ficando cada vez mais possessivo. Não gostava que eu saísse com minhas amigas, implicava com minhas roupas, até com meu batom rosa claro. Um dia, cheguei em casa chorando porque ele tinha gritado comigo na frente dos outros na lanchonete do bairro.

— Você não vê que ele tá te fazendo mal? — minha irmã mais velha, Camila, me abraçou forte. — Amor não é isso.

Mas eu estava presa naquela ilusão de conto de fadas. Achava que podia mudar ele, que era só uma fase difícil.

Até que veio o golpe final. Descobri que Piotrão estava conversando com outra menina do bairro pelo Instagram. Quando confrontei ele, ouvi o pior:

— Você tá louca? Vai acreditar em fofoca? Se continuar assim, vou embora de vez!

Naquela noite, chorei até dormir. No dia seguinte, acordei decidida a terminar tudo. Mas quando fui falar com ele, Piotrão ajoelhou no chão da minha sala e chorou como criança:

— Não me deixa, Zosia! Eu sou assim porque te amo demais…

Minha mãe entrou na sala e ficou olhando aquela cena em silêncio. Depois que ele foi embora, ela sentou ao meu lado:

— Filha, amor não é prisão. Você merece alguém que te faça sorrir sem medo.

Aos poucos fui entendendo o quanto tinha me perdido tentando agradar alguém que nunca ia mudar. Voltei a sair com minhas amigas, cortei o cabelo curto como sempre quis e comecei a estudar à noite pra tentar uma vaga melhor.

Piotrão tentou voltar algumas vezes. Mandava mensagem dizendo que estava mudado, que sentia minha falta. Mas eu já não era mais a mesma Zosia.

Hoje olho pra trás e vejo como foi difícil sair desse ciclo. Ainda dói lembrar dos sonhos que tive e das promessas vazias. Mas aprendi a me amar primeiro.

Será que a gente realmente conhece quem deixa entrar no nosso coração? Ou será que nos apaixonamos pela ideia de um príncipe que só existe nos nossos sonhos?