E o Amor Ainda Vive: Entre Caminhos e Escolhas
— Marcos, você errou o caminho! Era pra seguir reto! — gritei, sentindo minhas unhas cravarem na palma da mão, enquanto o carro balançava nas pedras da estradinha de terra.
Ele nem olhou pra mim. Só apertou mais o volante, os olhos fixos no matagal que se fechava à nossa frente. — Eu sei o que estou fazendo, Ana. Confia em mim — disse, mas sua voz não tinha a firmeza de sempre.
O cheiro de mato molhado invadia o carro, misturado ao cheiro do nosso medo. Eu olhava pela janela, procurando algum sinal de civilização, mas só via árvores e mais árvores. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar dentro do carro.
— Marcos, por favor, volta pra estrada principal. Não quero me perder aqui — insisti, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. Ele continuou em silêncio.
Foi então que tudo desabou dentro de mim. Não era só sobre aquela estrada. Era sobre tudo que estava acontecendo entre nós. Sobre a gravidez inesperada, sobre a pressão da minha mãe pra eu voltar pra casa dela em Belo Horizonte, sobre o pai dele que nunca me aceitou porque eu sou filha de empregada doméstica.
— Você não entende! — explodi, batendo com força no painel. — Eu tô cansada de fingir que tá tudo bem! Que a gente vai dar conta! Você não vê que eu tô com medo?
Ele freou bruscamente. O carro derrapou na lama e parou de lado, quase batendo numa árvore. O silêncio foi tão pesado que eu quase não consegui respirar.
— Ana… — ele começou, mas a voz falhou. — Eu também tô com medo. Só não sei como te mostrar isso.
Ficamos ali, parados, ouvindo a chuva começar a cair devagar no teto do carro. Eu olhei pra ele e vi um homem diferente daquele que conheci na faculdade, quando tudo parecia fácil e bonito. Agora ele era só um garoto assustado, igual a mim.
— Por que você me trouxe pra cá? — perguntei baixinho.
Ele respirou fundo, olhando pro nada. — Porque aqui foi onde meu avô pediu minha avó em casamento. Achei que se a gente viesse aqui… talvez desse sorte pra gente também.
Eu ri, mas foi um riso triste. — Sorte? A gente precisa de mais do que sorte, Marcos.
Ele pegou minha mão, com cuidado, como se tivesse medo de eu quebrar. — Eu sei. Mas eu quero tentar. Mesmo com tudo contra a gente.
A chuva engrossou lá fora. O barulho das gotas era quase uma música triste acompanhando nosso silêncio.
— Minha mãe vai me matar quando souber que eu tô grávida — sussurrei, sentindo o peso do mundo nas costas.
— Meu pai já disse que se eu ficar com você, ele me deserdar — respondeu ele, com um sorriso amargo.
— E aí? O que a gente faz?
Ele me olhou nos olhos pela primeira vez desde que entramos naquela estrada. — A gente faz o que sempre fez: luta junto.
Eu queria acreditar nisso. Queria mesmo. Mas era difícil ignorar as vozes na minha cabeça dizendo que eu não era suficiente, que eu nunca ia ser aceita naquela família rica da Zona Sul de Belo Horizonte.
De repente, meu celular vibrou. Era uma mensagem da minha mãe:
“Filha, volta pra casa. Aqui você tem apoio. Não precisa passar por isso sozinha.”
Eu mostrei a mensagem pro Marcos. Ele leu e ficou em silêncio por um tempo.
— Se você quiser ir embora… eu entendo — disse ele, baixinho.
— E você? Vai comigo?
Ele hesitou. — Não sei se consigo abandonar tudo aqui… minha mãe tá doente, Ana. Eu sou filho único.
A raiva subiu de novo dentro de mim. — Então pronto! É sempre assim! Eu tenho que abrir mão de tudo por você, mas você nunca abre mão de nada!
Ele virou o rosto pro vidro embaçado pela nossa respiração pesada.
— Não é isso… Eu só tô perdido — murmurou.
O silêncio voltou a reinar entre nós, só interrompido pelo som da chuva e do meu choro contido.
Lembrei da primeira vez que vi Marcos na faculdade federal: ele todo certinho, camisa polo e tênis caro; eu com meu jeans surrado e mochila remendada. Ele me olhou como se eu fosse diferente de todas as meninas dali — e talvez eu fosse mesmo. Ele dizia que amava meu jeito simples, minha coragem de enfrentar tudo sozinha.
Mas agora… agora parecia que o amor não era suficiente.
— Sabe o que mais dói? — falei, limpando as lágrimas com as costas da mão. — É saber que se fosse ao contrário, se fosse você grávido e eu rica, ninguém ia te julgar assim.
Ele suspirou fundo e encostou a cabeça no volante.
— Eu queria poder mudar tudo isso pra você…
Ficamos ali por horas, sem saber o que fazer. A chuva foi diminuindo até virar só um chuvisco leve. O céu clareou um pouco e consegui ver uma clareira adiante.
— Ali! Acho que é a tal da clareira do seu avô — falei, tentando sorrir apesar da dor.
Marcos ligou o carro e seguimos até lá. Descemos e ficamos em silêncio no meio do mato molhado, olhando pro céu cinza.
— Ana… você quer mesmo tentar? Mesmo com tudo contra?
Olhei pra ele e pensei em tudo: na minha mãe sozinha em casa, no pai dele me olhando torto no almoço de domingo, no bebê crescendo dentro de mim sem pedir licença pra nada disso.
— Quero tentar — respondi baixinho. — Mas quero tentar do meu jeito também. Não vou abrir mão de mim mesma pra caber na sua vida.
Ele sorriu pela primeira vez naquele dia e me abraçou forte.
Voltamos pro carro e seguimos devagar até encontrar a estrada principal de novo. No caminho, não falamos muito. Mas pela primeira vez em semanas eu senti uma pontinha de esperança.
Quando chegamos perto da cidade, vi as luzes dos postes iluminando a rua molhada e pensei em tudo que ainda tínhamos pela frente: as conversas difíceis com nossas famílias, os olhares tortos dos vizinhos, as noites sem dormir pensando no futuro.
Mas ali, naquele momento, eu sabia que não estava mais sozinha.
E você? Já sentiu que precisava escolher entre o amor e sua própria felicidade? Até onde vale a pena lutar por alguém quando o mundo parece inteiro contra vocês?