Quando o Amor se Vai: O Diário de Lena

— Lena, a gente prometeu sempre ser sincero um com o outro, lembra? — A voz do Caio tremia, mas os olhos brilhavam como se ele tivesse acabado de ganhar na loteria. — Eu preciso te contar uma coisa. Me apaixonei. Por outra pessoa. Me perdoa, mas eu vou embora. Ela é a mulher da minha vida. É diferente… é como se eu tivesse encontrado o meu universo.

Por um segundo, achei que fosse uma brincadeira de mau gosto. O Caio, meu marido há sete anos, meu companheiro desde a faculdade, estava ali na nossa sala, com as malas prontas, dizendo que ia embora porque tinha encontrado o “amor da vida dele”. Senti o chão sumir sob meus pés. O barulho do ventilador de teto parecia um zumbido distante, e tudo ao redor ficou embaçado.

— Você tá falando sério? — minha voz saiu baixa, quase um sussurro.

Ele não respondeu. Só abaixou a cabeça e pegou a mochila. Antes de sair, olhou pra mim com um olhar de pena que me feriu mais do que qualquer palavra.

Quando a porta bateu, o silêncio foi ensurdecedor. Sentei no sofá e chorei até não ter mais forças. Lembrei das promessas, dos planos de ter filhos, da casa que compramos juntos no bairro do Ipiranga, dos domingos preguiçosos assistindo futebol e das brigas bobas por causa do arroz queimado. Tudo parecia tão distante agora.

Nos dias seguintes, virei um fantasma dentro de casa. Minha mãe ligava todo dia:

— Filha, você precisa reagir! Vem pra cá passar uns dias.

Mas eu não queria sair do meu casulo. Tinha vergonha de encarar o mundo, de ouvir as perguntas dos vizinhos fofoqueiros:

— Ué, cadê o Caio? Brigaram?

Até minha irmã, a Juliana, tentou me animar:

— Lena, homem nenhum vale suas lágrimas! Vamos sair pra dançar!

Mas eu não queria dançar. Queria sumir.

O pior era encarar o espelho. Me sentia feia, insuficiente, descartável. Comecei a me perguntar onde foi que eu errei. Será que devia ter emagrecido? Ter sido menos ciumenta? Ter trabalhado menos pra ficar mais em casa?

As semanas passaram arrastadas. No trabalho, fingia normalidade, mas bastava alguém perguntar “tá tudo bem?” pra minha voz embargar. Até que um dia, no meio do expediente, recebi uma mensagem da mãe do Caio:

— Lena, queria te agradecer por tudo que fez pelo meu filho. Sei que ele errou feio com você. Se precisar conversar, tô aqui.

Chorei de novo. Mas dessa vez foi diferente. Senti uma pontinha de alívio por saber que não era só eu que achava aquilo tudo absurdo.

Comecei a escrever num caderno velho que achei na gaveta:

“Hoje faz 47 dias desde que Caio foi embora. Ainda dói muito. Mas percebi que sobrevivi a todos esses dias sem ele. Talvez eu consiga sobreviver aos próximos também.”

A escrita virou meu refúgio. Escrevia sobre tudo: a saudade do cheiro dele no travesseiro, o medo de nunca mais ser amada, a raiva de ter sido trocada como se fosse um móvel velho.

Um sábado à tarde, resolvi aceitar o convite da Juliana e fui almoçar na casa dela. Lá estavam meus pais, meus sobrinhos correndo pela sala e minha avó Dona Cida com seu bolo de fubá.

— Minha filha — disse ela segurando minha mão — homem é igual ônibus: perde um, daqui a pouco passa outro.

Todos riram e eu também. Pela primeira vez em meses, senti vontade de sorrir de verdade.

Aos poucos fui voltando à vida. Voltei a correr no parque da Aclimação, retomei as aulas de inglês e aceitei sair com amigas do trabalho para um barzinho na Vila Madalena. Descobri que ainda sabia rir alto e contar piadas ruins.

Um dia, encontrei o Caio por acaso no supermercado. Ele estava sozinho, com cara de quem não dormia direito há dias.

— Oi Lena… — disse ele sem jeito.

— Oi Caio.

Ficamos em silêncio por alguns segundos constrangedores.

— Como você tá? — ele perguntou.

— Melhor do que imaginei que estaria — respondi olhando nos olhos dele pela primeira vez sem sentir dor.

Ele sorriu triste e abaixou a cabeça.

Naquele momento percebi: eu não precisava mais dele pra ser feliz.

O tempo passou e nunca mais ouvi falar da tal “mulher da vida dele”. Ouvi boatos de que ela também o deixou pouco tempo depois. Mas já não importava mais.

Hoje olho pra trás e vejo quanto cresci. Aprendi a gostar da minha própria companhia, a valorizar quem realmente está ao meu lado nos piores momentos: minha família, meus amigos e principalmente eu mesma.

Às vezes ainda dói lembrar do passado. Mas agora sei que felicidade não depende de ninguém além de mim mesma.

E você? Já teve que se reconstruir depois de perder alguém? Será que precisamos mesmo de outra pessoa pra sermos completos ou já temos tudo dentro da gente?