Entre a Traição e o Perdão: O Diário de Bozena

— Você está me ouvindo, Paulo? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto eu encarava a xícara de café frio sobre a mesa da nossa cozinha. O relógio marcava 6h17 da manhã, mas eu já estava acordada há horas, rolando na cama, tentando entender em que momento minha vida tinha virado de cabeça para baixo.

Ele não respondeu. Apenas desviou o olhar, como se o azulejo branco atrás de mim fosse mais interessante do que a mulher com quem dividiu vinte e dois anos de vida. Vinte e dois anos. Eu repeti esse número na cabeça como um mantra, tentando encontrar nele algum sentido, alguma justificativa para o que estava acontecendo.

— Bozena, eu… — ele começou, mas a voz falhou. — Não foi assim que eu quis. Não foi planejado.

Eu ri, um riso amargo, quase histérico. — Ninguém planeja destruir uma família, Paulo. Mas você conseguiu.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que quase pude ouvir o tique-taque do relógio ecoando no azulejo. Lá fora, a cidade já começava a acordar. O barulho dos ônibus, o apito do porteiro chamando alguém no interfone, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina. Tudo tão normal, tão cotidiano. E eu ali, despedaçada.

Peguei o diário que estava sobre a mesa e escrevi: “15 de maio de 2023. Hoje descobri que minha vida era uma mentira.”

Meus pensamentos voltaram para a noite anterior. O celular dele vibrando sem parar, as mensagens de “Carla” aparecendo na tela. Eu nunca fui dessas mulheres ciumentas, nunca precisei bisbilhotar nada. Mas algo naquela noite me fez pegar o aparelho enquanto ele tomava banho. Bastou ler três mensagens para sentir o chão sumir sob meus pés.

“Sinto sua falta. Ontem foi maravilhoso. Quando vamos repetir?”

Fechei os olhos e respirei fundo. Não queria chorar na frente dele. Não queria dar esse gostinho. Mas as lágrimas vieram mesmo assim, quentes e silenciosas.

— Você ama ela? — perguntei, sem encará-lo.

Ele demorou a responder. — Não sei. Foi só uma confusão. Eu… me senti sozinho. Você anda tão distante, Bozena.

Quase ri de novo. Distante? Eu? Depois de anos cuidando da casa, dos filhos, da mãe dele quando ficou doente. Depois de abrir mão do meu emprego na Caixa para cuidar da família. Depois de tantas noites esperando ele chegar do trabalho, janta pronta, filhos já dormindo. E eu era a distante?

— Você sabe o que é abrir mão de tudo por alguém? — minha voz saiu mais forte dessa vez. — Você sabe o que é olhar no espelho e não se reconhecer mais?

Ele ficou em silêncio. E eu soube, naquele instante, que estava sozinha.

A notícia correu rápido pelo grupo da família no WhatsApp. Minha irmã, Luciana, foi a primeira a ligar.

— Bozena, pelo amor de Deus, não faz besteira. Pensa nos meninos. O Paulo sempre foi meio fraco…

— Fraco? — interrompi, sentindo a raiva crescer. — Isso não é fraqueza, Luciana. É covardia.

Minha mãe também ligou, mas só chorou do outro lado da linha. Meu pai morreu cedo, e ela sempre dizia que eu tinha sorte de ter um marido presente. Presente? Presente para quem?

Os meninos — Rafael e Gabriel — estavam na escola quando tudo aconteceu. Quando voltaram, tentei agir normalmente. Preparei o almoço favorito deles: arroz, feijão, bife acebolado e batata frita. Mas Rafael percebeu algo.

— Mãe, você tá chorando?

Neguei com a cabeça e sorri. — Só cortei cebola demais, filho.

Naquela noite, Paulo dormiu no sofá. Eu fiquei no nosso quarto, abraçada ao travesseiro dele, sentindo o cheiro que agora me enojava.

Passei os dias seguintes em piloto automático. Ia ao mercado, pagava as contas, buscava os meninos na escola. Mas por dentro eu estava morta. As amigas do prédio começaram a cochichar quando eu passava. Dona Cida, do 502, me olhava com pena. Eu odiava aquele olhar.

Uma semana depois, Carla apareceu na portaria. Simples assim. Pediu para falar comigo.

— Bozena, eu não queria te magoar — ela disse, com uma voz doce que me irritou profundamente. — Eu juro que não sabia que ele ainda te amava.

— Ele não ama ninguém — respondi seca. — Nem a mim, nem a você. Só ama a si mesmo.

Ela chorou. Eu não.

Naquela noite, sentei na varanda do apartamento e olhei para as luzes da cidade. Pensei em tudo o que construímos juntos: o apartamento financiado em vinte anos, as viagens para o litoral paulista nas férias, as festas de aniversário dos meninos no salão do prédio. Pensei em como era fácil julgar as mulheres que perdoavam traições até acontecer comigo.

No dia seguinte, Paulo fez as malas.

— Eu vou pra casa da minha mãe por uns dias — disse baixo.

— Vai com Deus — respondi.

Os meninos choraram. Rafael me perguntou se era culpa dele.

— Não é culpa de ninguém, meu amor — abracei forte. — Às vezes os adultos erram feio.

As semanas passaram devagar. Recebi conselhos de todos os lados: “Perdoa, Bozena!” “Pensa nos meninos!” “Homem é assim mesmo…” “Você vai ficar sozinha?” “E o apartamento? Vai dividir?”

Eu queria gritar. Queria sumir. Mas continuei ali, firme, porque alguém precisava ser forte.

Um dia, Gabriel chegou da escola com um bilhete da professora: “Gabriel está muito calado ultimamente. Se precisar conversar, estou à disposição.” Meu coração apertou. Eu estava tão focada na minha dor que esqueci da dor deles.

Naquela noite, sentei com os dois na cama.

— Eu sei que tá difícil pra vocês. Pra mim também tá. Mas a gente vai ficar bem. Eu prometo.

Eles me abraçaram forte. Pela primeira vez em semanas, chorei sem vergonha.

Paulo tentou voltar depois de dois meses. Trouxe flores, pediu desculpas, disse que não sabia viver sem a família.

— Eu posso tentar te perdoar — disse olhando nos olhos dele — mas nunca vou esquecer. E não sei se quero viver com essa sombra pra sempre.

Ele chorou. Eu não.

Hoje faz um ano desde aquele dia. Ainda moro no mesmo apartamento, agora só com os meninos. Voltei a trabalhar na Caixa, fiz novas amigas, comecei terapia. Às vezes sinto falta do que tínhamos, mas sei que era uma ilusão.

Às vezes me pergunto: quantas mulheres vivem assim, caladas, engolindo traições por medo de recomeçar? Quantas Bozenas existem por aí?

E você? O que faria no meu lugar?