Mar de Lembranças: Uma Jornada de Luto e Redescoberta
— Pai, por favor, não fica sozinho aqui. Vem morar comigo, pelo menos por um tempo. — A voz da Mariana ecoava pelo corredor vazio da casa, carregada de preocupação e ternura. Eu olhava para as malas dela, ainda abertas no quarto da mãe, e sentia o peso do silêncio que se instalou desde o enterro da Ana.
Respirei fundo, tentando não deixar a voz embargar. — Filha, eu agradeço, mas preciso ficar. Essa casa… é tudo que me resta dela. Não quero ser um fardo pra você.
Ela se aproximou, segurou minhas mãos com força. — Não fala assim. Você nunca vai ser um fardo. Mas eu me preocupo. O senhor não sabe cozinhar direito, esquece de tomar os remédios… E essa tristeza toda? — Os olhos dela brilhavam de lágrimas contidas.
Eu desviei o olhar, encarando a janela. O céu estava nublado, como se até ele sentisse a ausência da Ana. — Mariana, eu preciso desse tempo. Preciso aprender a viver sem ela. Se eu fugir agora, nunca vou conseguir.
Ela suspirou, derrotada. — Então promete que vai me ligar todo dia? — Prometo.
Depois que ela foi embora, a casa pareceu ainda maior. O cheiro do café que a Ana fazia de manhã já não existia. As plantas dela começaram a murchar. Eu passava horas sentado na poltrona dela, ouvindo o tic-tac do relógio e esperando alguma coisa acontecer.
Uma semana depois, acordei com uma ideia fixa: precisava sair dali. Peguei uma mochila velha, coloquei algumas roupas e decidi ir para o litoral de ônibus, como fazíamos quando éramos jovens. Queria sentir o cheiro do mar, ouvir as ondas e tentar encontrar algum sentido para tudo aquilo.
A viagem foi longa e cansativa. No ônibus, sentei ao lado de uma senhora chamada Dona Cida, que puxou conversa assim que percebeu minha inquietação.
— Vai visitar família no litoral? — perguntou ela, sorrindo.
— Não… Vou tentar me encontrar, acho. Perdi minha esposa faz pouco tempo.
Ela fez um sinal da cruz e segurou minha mão por um instante. — Deus sabe o que faz, meu filho. Mas a saudade é uma dor danada mesmo.
Cheguei em Ubatuba no fim da tarde. O cheiro de maresia me trouxe uma onda de lembranças: as férias com a Ana e a Mariana pequena, as brigas por causa do protetor solar, os passeios de bicicleta na orla. Senti um nó na garganta.
Fiquei numa pousada simples. O dono, Seu Jorge, era um senhor falante que logo percebeu meu estado de espírito.
— Tá tudo bem com o senhor? — perguntou ele enquanto me entregava a chave do quarto.
— Mais ou menos… Perdi minha esposa recentemente.
Ele assentiu com compreensão. — O mar ajuda a curar certas dores. Mas também faz a gente lembrar do que perdeu.
No primeiro dia, caminhei pela praia deserta. Sentei na areia e chorei como não chorava desde o velório. Senti raiva por ter ficado sozinho, por não ter dito tudo o que queria pra Ana, por ter sido tão teimoso em pequenas coisas.
No segundo dia, tentei ligar pra Mariana, mas ela não atendeu. Mandei mensagem: “Filha, tô bem. O mar tá bonito.” Ela respondeu horas depois: “Pai, te amo. Qualquer coisa me liga.” Senti falta dela ali comigo, mas sabia que precisava desse tempo só.
Na pousada conheci Dona Lourdes, uma senhora viúva que morava ali há anos. Ela me convidou pra tomar café com ela e outros hóspedes.
— A solidão é uma praga — disse ela enquanto passava manteiga no pão. — Mas a gente aprende a conviver com ela. Eu perdi meu marido faz dez anos. No começo achei que ia morrer também. Mas tô aqui.
Contei um pouco da minha história e ouvi as deles: Dona Lourdes perdeu o filho pra violência no Rio; Seu Jorge foi abandonado pela esposa; uma moça chamada Camila fugiu de um casamento abusivo em São Paulo. Cada um carregava sua dor.
Na terceira noite, sonhei com a Ana. Ela estava sentada na varanda da nossa casa, sorrindo pra mim. Acordei chorando e com uma vontade imensa de voltar pra casa — mas também com medo de encarar o vazio de novo.
No café da manhã, Seu Jorge puxou conversa:
— Sabe o que eu faço quando sinto saudade? Escrevo cartas pra quem já foi. Não mando pra lugar nenhum, mas parece que alivia.
Passei o resto do dia escrevendo uma carta pra Ana. Contei tudo: das saudades, dos arrependimentos, dos planos que ficaram pela metade. Pedi desculpas pelas vezes em que fui duro demais ou ausente demais.
No fim da tarde, fui até a beira do mar e li a carta em voz alta. As ondas pareciam levar minhas palavras embora.
Na volta pra pousada, encontrei Mariana sentada na recepção.
— Filha? O que você tá fazendo aqui?
Ela sorriu tímida, os olhos vermelhos de choro.
— Eu fiquei preocupada… Peguei um ônibus ontem à noite. Não conseguia parar de pensar no senhor sozinho aqui.
Nos abraçamos forte ali mesmo. Ela chorou no meu ombro como quando era criança.
— Pai… Eu também tô sofrendo muito sem a mãe. Achei que precisava ser forte por você, mas eu tô desmoronando.
Sentei com ela na praia naquela noite. Falamos sobre a Ana até o sol nascer: das manias dela, das brigas bobas, das risadas altas na cozinha.
— A gente vai conseguir seguir em frente? — perguntou Mariana baixinho.
— Não sei… Mas acho que juntos é menos difícil.
Voltamos pra casa alguns dias depois. A dor ainda estava lá, mas agora havia espaço para lembranças boas também.
Hoje olho pra trás e penso: será que algum dia a saudade vira só lembrança boa? Ou ela sempre dói um pouco? E você aí do outro lado: já sentiu essa dor? Como encontrou forças pra seguir?