Amor Sem Direito à Proximidade
— Doutora Ana Paula, tem alguém querendo falar com você na recepção. — A voz da enfermeira Marli me arrancou do transe em que eu estava, encarando o prontuário do senhor José, recém-diagnosticado com Alzheimer. Olhei para o relógio: faltavam quatro horas para o fim do plantão, mas meu corpo já pedia descanso. O hospital público de Belo Horizonte nunca dorme, e eu também não.
Desci os corredores apressada, desviando de macas e familiares ansiosos. Na recepção, encontrei minha mãe, Dona Lourdes, com o rosto marcado de preocupação. — Ana, seu pai piorou. Ele não lembra mais do meu nome. — O peso da notícia me atingiu como uma onda gelada. Meu pai, que sempre foi meu herói, agora era refém de uma doença que eu mesma estudava todos os dias.
— Mãe, eu vou passar lá depois do plantão, prometo. — Tentei soar firme, mas minha voz falhou. Ela assentiu, enxugando uma lágrima, e se despediu com um abraço apertado.
Voltei para o setor de neurologia, onde a rotina era sempre a mesma: exames, diagnósticos, conversas difíceis com famílias desesperadas. Mas naquela tarde, tudo mudou quando conheci Rafael.
Ele chegou desacordado, vítima de um acidente de moto. Jovem, bonito, com um sorriso que parecia querer surgir mesmo em meio à dor. Passei a acompanhá-lo de perto, monitorando sua recuperação. Aos poucos, Rafael foi despertando, e nossos olhares se cruzaram mais vezes do que o protocolo permitiria.
— Doutora Ana, você acredita que vou voltar a andar? — perguntou ele, com a voz embargada, numa noite silenciosa.
— Rafael, a medicina não é exata, mas eu vou fazer tudo o que puder por você. — Respondi, sentindo meu coração acelerar. Era errado, eu sabia. Mas como controlar o que se sente?
Os dias se arrastaram. Rafael melhorava, e nossas conversas se aprofundavam. Falávamos sobre tudo: futebol, política, sonhos, medos. Ele me contava sobre a infância difícil no bairro Lagoinha, sobre a mãe que criou ele e os irmãos sozinha, sobre o desejo de ser professor de educação física. Eu, por minha vez, falava pouco de mim. O medo de misturar as coisas era maior do que a vontade de me abrir.
Certa noite, depois de uma cirurgia delicada, sentei ao lado dele. — Você não devia se apegar a mim, Rafael. Eu sou sua médica. — Ele sorriu, triste.
— E se eu não conseguir evitar? — sussurrou.
Fui para casa com o coração em pedaços. No apartamento pequeno, encontrei minha irmã mais nova, Camila, preparando café.
— Você tá estranha, Ana. — Ela me olhou de soslaio. — É o papai?
— É tudo, Camila. O hospital, o papai, a solidão… — Desabei. Ela me abraçou, e chorei como há muito tempo não fazia.
Os dias seguintes foram de tensão. Rafael teve uma piora, precisou ser entubado. Passei noites em claro, rezando, torcendo, me culpando por sentir tanto por ele. No hospital, os boatos começaram. Enfermeiras cochichavam, colegas médicos me olhavam torto.
— Ana, cuidado. — advertiu o Dr. Sérgio, meu chefe. — Você é uma excelente profissional, mas não pode se envolver com paciente. Isso pode acabar com sua carreira.
Eu sabia. Mas como desligar o coração?
Quando Rafael acordou, mais fraco, mas lúcido, me olhou nos olhos e disse:
— Eu sonhei com você. A gente estava na praia, rindo, sem medo de nada.
Senti as lágrimas queimarem. — Rafael, a gente não pode… — tentei dizer, mas ele me interrompeu:
— Eu sei. Mas sonhar não é proibido, né?
A partir daquele dia, mantive distância. Evitava entrar no quarto dele, delegava tarefas a outros médicos. Mas cada vez que passava pelo corredor, sentia o peso do que poderia ter sido.
Em casa, minha mãe ligava todos os dias. — Seu pai sente sua falta. Ele pergunta de você, mesmo sem lembrar direito quem você é. — A culpa me corroía. Eu estava perdendo meu pai para o Alzheimer, e perdendo a mim mesma para um amor impossível.
No Natal, levei Rafael para a fisioterapia. Ele já conseguia dar alguns passos com ajuda. — Obrigado, doutora. Você me devolveu a esperança. — disse, segurando minha mão por um segundo a mais do que o necessário.
Naquela noite, escrevi uma carta para ele. Não entreguei. Guardei na gaveta, junto com todos os sentimentos que nunca poderiam ser vividos.
Meses se passaram. Rafael teve alta. No último dia, me entregou um bilhete:
“Se um dia a vida permitir, me procure. Até lá, vou sonhar com a praia.”
Voltei para casa, sentei na cama e chorei. Meu pai já não me reconhecia mais. Minha mãe estava exausta. Camila tentava segurar as pontas. E eu? Eu era uma médica respeitada, mas uma mulher partida.
Às vezes me pergunto: quantos de nós vivem amores impossíveis, sufocados por regras, medos e responsabilidades? Vale a pena abrir mão de tudo por um sentimento? Ou é melhor guardar o amor na memória, como quem guarda uma carta nunca enviada?
E você, já viveu um amor impossível? O que faria no meu lugar?