Nenhum Natal para Mim: Três Dias ao Lado de Ana
— Dona Ana, a senhora está me ouvindo? — perguntou a enfermeira, enquanto eu segurava a mão da minha esposa, sentindo o suor frio escorrer pela minha testa. O monitor cardíaco apitava baixo, quase como se sussurrasse uma prece. Eu não sabia mais se rezava para Deus ou para qualquer força que pudesse me ouvir naquele quarto abafado do Hospital Municipal de Campinas.
Três dias. Três dias sem sair do lado dela, sem sentir o cheiro do café passado na hora, sem ouvir o barulho dos meninos jogando bola na rua. O Natal chegou e passou como um vento frio, sem cheiro de rabanada, sem risada de neto, sem música nenhuma. Só o som do respirador e o eco dos meus próprios pensamentos.
Uma semana antes, Ana estava bem. Caminhava devagar pela casa, limpando cada canto, ajeitando as cortinas, separando as louças bonitas que só usávamos no Natal. — Graciliano, você acha que esse ano a gente consegue comprar um tender? — perguntou ela, com aquele sorriso cansado, mas cheio de esperança. Eu só balancei a cabeça, pensando nas contas, no dinheiro curto das duas aposentadorias. — Talvez um frango caipira, Ana. Mas vai ter gosto de festa do mesmo jeito.
Agora, olhando para ela ali, tão frágil, eu me perguntava se algum dia voltaríamos a discutir sobre o cardápio da ceia. O médico entrou no quarto, com aquele olhar que já dizia tudo antes mesmo de abrir a boca.
— Seu Graciliano, a situação da dona Ana é delicada. Estamos fazendo tudo o que podemos, mas o quadro é grave.
Eu queria gritar, queria chorar, mas só consegui apertar mais forte a mão dela. Lembrei do nosso primeiro Natal juntos, em 1972, quando morávamos num barraco de madeira na periferia de São Paulo. Não tínhamos nada além de um arroz com ovo e uma garrafa de guaraná dividida entre nós dois. Mas Ana ria, ria como se o mundo fosse nosso.
— Não precisa de presente caro, Graciliano. Só quero você aqui comigo — ela dizia.
Agora, era eu quem pedia para ela ficar. — Fica comigo, Ana. Não me deixa sozinho nesse mundo tão vazio.
Os filhos ligaram, claro. Ligaram para saber notícias, para dizer que estavam presos no trânsito, que não podiam largar o trabalho, que o chefe não entende essas coisas de família. — Pai, qualquer coisa me liga — disse o Marcelo, o mais velho. Mas eu sabia que ele não viria. Nem ele, nem a Luciana, nem os netos que Ana tanto queria ver correndo pela casa.
Na segunda noite, uma senhora do leito ao lado começou a chorar baixinho. — Meu filho não veio me ver — soluçava ela. Olhei para Ana e pensei em quantas mães e pais estavam ali, esquecidos, enquanto o resto do mundo celebrava com fartura e alegria.
O cheiro de desinfetante me enjoava. A comida do hospital era insossa, mas eu nem sentia fome. Só queria ouvir a voz da Ana mais uma vez. Queria que ela me chamasse de velho teimoso, que reclamasse do meu café forte demais.
Na madrugada do terceiro dia, Ana abriu os olhos. Fracos, mas vivos. — Graciliano… — sussurrou ela. Me aproximei, quase tropeçando na cadeira. — Tô aqui, meu amor. Tô aqui.
Ela sorriu de leve. — Você lembra do nosso Natal em Santos? Quando a chuva alagou tudo e a gente ficou preso em casa?
— Lembro sim, Ana. Você fez sopa de feijão e a gente dançou na sala, lembra?
Ela fechou os olhos de novo, mas o sorriso ficou ali, preso no canto da boca. Fiquei ali, contando histórias baixinho, como se as palavras pudessem segurar a vida dela por mais um tempo.
Na manhã seguinte, o médico entrou com uma expressão diferente. — Ela está reagindo melhor do que esperávamos. Vamos continuar observando.
Senti um alívio tão grande que chorei ali mesmo, sem vergonha de quem visse. Liguei para os filhos, mas eles só disseram: — Que bom, pai! Depois a gente passa aí.
O Natal passou sem árvore, sem ceia, sem presentes. Mas naquele quarto gelado, eu entendi que o verdadeiro sentido dessas festas não está na mesa farta ou nas luzes piscando na janela. Está no amor que a gente constrói dia após dia, mesmo quando tudo parece perdido.
Hoje, Ana está em casa, ainda se recuperando. A casa está silenciosa, mas cheia de esperança. Às vezes me pego pensando: quantos outros Gracilianos e Anas passaram o Natal sozinhos, esquecidos pela família e pelo mundo?
Será que a gente precisa perder quase tudo para entender o valor do que realmente importa? E você, já parou pra pensar no que faria se tivesse que escolher entre o Natal perfeito e o amor da sua vida?