Amor Perdido – O que será de mim agora?

— E agora, o que vai ser de mim? — sussurrei para o espelho, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos. O som abafado da televisão na sala não conseguia esconder o silêncio pesado que pairava sobre a casa. Minha mãe, Dona Lourdes, estava na cozinha, batendo panelas com mais força do que o necessário. Eu sabia que ela desconfiava de alguma coisa. Desde que comecei a sair com Breno, tudo mudou aqui dentro.

Naquela noite, voltei do encontro com um sorriso forçado. Minhas irmãs, Cássia e Jade, estavam no quarto, esperando ansiosas por novidades. Elas sempre quiseram saber de tudo, mas dessa vez eu não sabia por onde começar. Sentei na cama e tentei parecer tranquila.

— E aí, Ola? — perguntou Jade, os olhos brilhando de curiosidade. — Como foi com o Breno?

Cássia se aproximou, segurando minha mão. — Você tá diferente… Conta logo!

Respirei fundo e deixei escapar um riso nervoso. — Ele disse que vai falar com a mãe dele… Que vai pedir pra ela conversar com a nossa família.

As duas se entreolharam, surpresas. Jade foi a primeira a reagir:

— Sério? Ele quer mesmo namorar sério?

Assenti, mas por dentro sentia um frio na barriga. Breno era tudo pra mim desde o primeiro dia em que nos vimos na feira da cidade. Mas ele era filho do Seu Ademar, dono da mercearia onde minha mãe devia dinheiro há meses. E isso era só o começo dos nossos problemas.

No dia seguinte, acordei com o som do rádio da cozinha e o cheiro de café forte. Minha mãe me olhou de cima a baixo quando entrei.

— Você chegou tarde ontem — disse ela, sem tirar os olhos da pia.

— Tava com as meninas… — menti, desviando o olhar.

Ela bufou e virou-se para mim.

— Não quero você andando com esse povo rico aí. Eles não são pra gente como nós.

Engoli em seco. Como explicar pra ela que meu coração não escolheu? Que Breno era diferente dos outros? Mas eu sabia que ela nunca entenderia.

Na escola, as coisas também não estavam fáceis. As pessoas cochichavam quando eu passava pelos corredores. Uma vez ouvi a Vanessa dizendo pra turma:

— Ela só tá com ele por interesse. Quer ver se consegue alguma coisa pra família dela…

Fingi não ouvir, mas aquilo me machucava mais do que eu queria admitir.

Naquela tarde, Breno me esperou na saída da escola. Ele estava nervoso, mexendo no celular sem parar.

— Ola, preciso falar com você — disse ele, puxando-me para um canto.

— O que foi?

— Minha mãe não quer saber de conversa… Disse que você não é do nosso nível. Que seu pai largou vocês e que sua mãe vive pedindo fiado…

Senti o chão sumir sob meus pés. As palavras dele eram facas cortando minha esperança.

— E você? O que você quer?

Ele segurou minhas mãos com força.

— Eu quero você. Mas não sei como vai ser… Tô perdido.

Voltei pra casa arrasada. Minhas irmãs perceberam na hora.

— O que aconteceu? — perguntou Cássia.

— Nada… Só tô cansada — menti de novo.

Mas naquela noite chorei baixinho no travesseiro, tentando entender por que o amor tinha que ser tão difícil pra gente pobre. Por que tudo era mais complicado quando não se tinha dinheiro nem sobrenome importante?

Os dias passaram e as coisas só pioraram. Dona Lourdes descobriu sobre Breno através de uma vizinha fofoqueira e fez um escândalo em casa.

— Você quer acabar igual eu? Grávida e abandonada? Esses meninos ricos só querem se divertir! — gritou ela, os olhos cheios de lágrimas e raiva.

Tentei argumentar:

— Mãe, ele não é assim! Ele me ama!

Mas ela não quis ouvir.

A partir daquele dia, passei a sair escondida pra ver Breno. Nos encontrávamos no campo de futebol atrás da escola ou na pracinha à noite. Cada encontro era uma mistura de alegria e medo.

Um dia, Jade me entregou um bilhete:

“Ola,
Preciso falar com você urgente. Me encontra hoje às 19h no nosso lugar.
Breno”

Fui correndo, coração disparado. Quando cheguei lá, ele estava sentado no banco, olhando pro chão.

— O que aconteceu? — perguntei, sentando ao lado dele.

Ele demorou pra responder.

— Meu pai quer me mandar pra São Paulo estudar. Disse que aqui eu só vou me meter em confusão…

Senti uma dor aguda no peito.

— E você vai?

Ele olhou nos meus olhos, lágrimas brilhando nos dele.

— Não sei… Não quero te deixar. Mas se eu ficar, vou perder tudo aqui em casa…

Ficamos em silêncio por um tempo. O vento frio da noite fazia meus ossos tremerem.

— Eu te amo — sussurrei, segurando sua mão.

Ele me abraçou forte e choramos juntos ali mesmo, sem saber o que fazer.

Naquela semana, tudo desmoronou de vez. Dona Lourdes me pegou voltando do encontro com Breno e me trancou em casa por três dias. Disse que era pro meu bem, mas eu só sentia raiva e tristeza.

Cássia tentou me ajudar:

— Mãe só quer te proteger… Ela tem medo de te perder também.

Mas eu não queria proteção. Queria liberdade pra amar quem eu quisesse.

Quando finalmente consegui sair de casa, fui direto procurar Breno. Mas ele já tinha ido embora pra São Paulo. Nem se despediu direito. Só deixou uma carta:

“Ola,
Eu te amo mais do que tudo nesse mundo. Mas preciso ir atrás dos meus sonhos agora. Não esquece de mim nunca.
Breno”

Li aquela carta mil vezes nos dias seguintes. Chorei até não ter mais lágrimas. Senti raiva dele, da minha mãe, do mundo inteiro.

O tempo passou devagar depois disso. As pessoas pararam de falar da minha vida porque logo apareceu outro escândalo na cidade pequena. Mas dentro de mim ficou um vazio enorme.

Hoje olho pra trás e me pergunto: será que fiz certo em lutar contra tudo por esse amor? Ou será que devia ter ouvido minha mãe desde o começo?

Às vezes penso: quantas meninas como eu existem por aí, presas entre o desejo de viver um grande amor e o medo das consequências? Será que vale a pena arriscar tudo por alguém?