Amor de Cima, Dor de Baixo: Entre Andares e Destinos

— Vitor! Pelo amor de Deus, me ajuda! — O grito da minha irmã, Vanessa, ecoou pelo corredor do nosso prédio velho, abafando até o barulho do portão batendo lá embaixo. Eu já estava com a mochila nas costas, passagem comprada pra Ubatuba, pronto pra finalmente tirar uns dias com a Lúcia. Mas a vida, como sempre, tinha outros planos.

Desci correndo os três lances de escada, tropeçando nos chinelos. Vanessa estava na porta do 302, olhos vermelhos, termômetro na mão e duas crianças chorando atrás dela.

— O que foi agora? — perguntei, tentando esconder a irritação.

— Febre. O Pedro tá com quase 39ºC e eu preciso ir pro hospital. Você pode ficar com a Sofia? Só umas horas, juro…

Olhei pro relógio. Eram sete e meia da manhã. O ônibus pra rodoviária saía em quarenta minutos. Lúcia já devia estar esperando no WhatsApp. Suspirei fundo.

— Tá bom, deixa comigo — respondi, sentindo o peso do mundo nas costas.

Vanessa me abraçou rápido, agradeceu e saiu arrastando Pedro no colo. Fiquei ali, parado na porta, com Sofia me olhando desconfiada.

— Tio Vitor, você vai brincar comigo? — ela perguntou, fungando.

— Vou sim, princesa — menti. Eu só queria sumir dali.

Levei Sofia pro meu apartamento no 304. Liguei a TV no desenho animado e tentei avisar Lúcia. “Deu ruim aqui. Minha irmã precisou de mim. Não vou conseguir viajar hoje.” A resposta veio seca: “De novo isso? Você sempre escolhe eles”.

Joguei o celular no sofá. O cheiro de café queimado subia do apartamento de baixo. Dona Marlene devia estar acordada. Ela sempre reclamava do barulho das crianças correndo. E hoje não seria diferente.

De repente, ouvi batidas fortes na porta.

— Ô Vitor! — era ela mesma, voz rouca de cigarro. — Dá pra controlar essa meninada aí? Tem gente que trabalha à noite!

Abri a porta com Sofia agarrada na minha perna.

— Desculpa, Dona Marlene. Minha irmã precisou sair às pressas…

Ela me olhou de cima a baixo, olhos duros amolecendo só um pouco ao ver Sofia.

— Você é bom moço demais pra essa família bagunçada — murmurou. — Se precisar de ajuda, tô aqui embaixo.

Fechei a porta devagar. Sentei no chão ao lado da minha sobrinha e fiquei olhando pro teto descascado do apartamento. Era sempre assim: eu tentando ser o herói da família enquanto minha própria vida escorria pelos dedos.

O dia passou arrastado. Sofia pediu pão de queijo, depois quis brincar de casinha, depois chorou porque sentia falta da mãe. Eu tentava distrair ela, mas minha cabeça estava longe — em Lúcia, na praia que não ia conhecer, nos sonhos adiados mais uma vez.

À tarde, Vanessa voltou exausta, Pedro dormindo no colo.

— Obrigada, mano… Não sei o que faria sem você — ela disse baixinho.

Assenti sem responder. Quando ela saiu do meu apartamento com as crianças, sentei no sofá e encarei o celular. Nenhuma mensagem da Lúcia. Resolvi descer pra tomar um ar.

No hall do prédio, cruzei com Dona Marlene fumando na porta do elevador quebrado.

— Tá tudo bem aí em cima? — ela perguntou sem olhar pra mim.

— Tá sim… Só cansado — respondi.

Ela soltou uma risada seca.

— Cansado de ser bom demais pros outros? Isso passa não, viu? Eu era assim também… até cansar de vez.

Ficamos em silêncio por um tempo. O cheiro do cigarro misturava com o perfume barato dela. De repente, ela me encarou:

— Você devia pensar mais em você, Vitor. A vida passa rápido demais pra gente viver só pros outros.

Subi as escadas devagar, pensando nas palavras dela. No corredor do terceiro andar, ouvi risadas vindas do 301 — o apartamento novo da Camila, vizinha recém-chegada que todo mundo comentava por ser “diferente”. Diziam que ela era separada e morava sozinha com a filha pequena.

Naquela noite, não consegui dormir direito. Fiquei rolando na cama até ouvir passos no corredor. Levantei pra beber água e vi Camila sentada no chão da porta dela, chorando baixinho enquanto a filha dormia no colo.

Me aproximei devagar:

— Tá tudo bem?

Ela enxugou as lágrimas rápido e tentou sorrir.

— Desculpa… É que às vezes pesa demais segurar tudo sozinha.

Sentei ao lado dela sem dizer nada. Ficamos ali em silêncio por um tempo.

— Sabe… — ela começou — quando me separei e vim pra cá, achei que ia ser mais fácil recomeçar. Mas parece que todo mundo aqui já tem sua própria dor pra carregar.

Assenti devagar.

— Acho que é isso mesmo… Cada um carrega seu fardo nesse prédio velho — respondi.

Ela riu baixinho.

— E você? Qual é o seu?

Olhei pro chão antes de responder:

— Acho que é nunca conseguir dizer não pra minha família… E acabar sempre sozinho por causa disso.

Camila me olhou nos olhos por um instante longo demais pra ser só amizade.

Naquela madrugada, voltei pro meu apartamento sentindo algo diferente dentro do peito — uma mistura de tristeza e esperança.

Os dias seguintes passaram como sempre: trabalho remoto apertado entre as paredes finas do 304, pedidos de ajuda da Vanessa aumentando cada vez mais, Lúcia sumida das mensagens e Camila cruzando meu caminho no corredor com um sorriso tímido e olheiras profundas.

Até que numa sexta-feira à noite, quando tudo parecia igual, ouvi uma gritaria vinda do 301. Corri até lá e encontrei Camila discutindo com o ex-marido na porta. Ele gritava ameaças enquanto a filha chorava assustada atrás dela.

— Chega! Vai embora daqui! — gritei sem pensar duas vezes.

O homem me olhou feio mas acabou indo embora resmungando. Camila caiu no chão chorando de alívio.

Ajudei ela a levantar e levei mãe e filha pro meu apartamento até as coisas acalmarem. Ficamos conversando até tarde sobre tudo: família, solidão, sonhos perdidos e recomeços improváveis.

Naquela noite percebi que talvez eu não estivesse tão sozinho quanto pensava. Que talvez existisse espaço pra algo novo crescer ali entre as rachaduras daquele prédio antigo — mesmo que fosse só amizade ou algo mais.

No domingo seguinte, Dona Marlene apareceu com bolo de fubá e café forte pra todos nós no corredor. Pela primeira vez em anos senti uma espécie de lar ali naquele caos compartilhado entre vizinhos tão diferentes e tão parecidos nas dores e esperanças.

Hoje escrevo essas linhas olhando pela janela do terceiro andar enquanto escuto as risadas das crianças brincando lá embaixo e Camila cantando baixinho pra filha dormir no apartamento ao lado.

Será que algum dia vou conseguir equilibrar o amor pela minha família com meus próprios desejos? Ou será que viver pra si mesmo é egoísmo demais quando se é brasileiro? E você aí… já teve que escolher entre seus sonhos e quem você ama?