A Mulher Invisível: A Dor de Ser Esquecida

— Dona Lúcia, a senhora vai descer? — perguntou o motorista do ônibus, já impaciente, olhando pelo retrovisor.

Eu estava ali, parada na porta, com a sacola de compras apertada contra o peito. Ele não olhava para mim, falava como se falasse para o vento. Eu desci, tropeçando no degrau, sentindo o olhar vazio dos outros passageiros atravessando meu corpo como se eu fosse feita de vidro. Ninguém me ofereceu ajuda. Ninguém nunca oferece.

No caminho para casa, passei pela farmácia. Entrei, esperei na fila, mas a atendente chamou a moça atrás de mim. — Próximo! — ela disse, sem nem olhar para o meu rosto. — Eu… eu estou aqui — tentei dizer, mas minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Ela não ouviu. Ninguém ouve.

Subi as escadas do prédio devagar, sentindo cada osso doer. O elevador estava quebrado de novo. Faz vinte e três anos que moro aqui, mas ninguém sabe meu nome. Nem a síndica, dona Marlene, que sempre me pede para assinar papéis que não entendo direito. — Assina aqui, dona… — ela hesita, procurando lembrar. — Lúcia — respondo, mas ela já virou as costas.

Em casa, o silêncio é pesado. Meu filho, Rafael, ligou faz duas semanas. — Mãe, tô corrido no trabalho, depois te ligo com calma. — Não ligou mais. Minha neta, Sofia, tem quinze anos e só me manda mensagem quando precisa de dinheiro para o lanche da escola. Meu marido morreu faz dez anos. Desde então, a casa ficou grande demais para mim.

Sento na poltrona da sala e olho para as fotos antigas na estante. Eu e Rafael na praia de Santos, Sofia pequena no meu colo. Sorríamos tanto. Agora pareço uma sombra nessas fotos. Será que eles lembram de mim como eu era? Ou já me veem como uma velha cansada e esquecida?

O telefone toca. Meu coração dispara. Talvez seja Rafael! Atendo rápido:
— Alô?
— Boa tarde, senhora! Aqui é da operadora Vivo. Gostaria de oferecer um plano…
Desligo antes que ela termine.

No dia seguinte, vou ao mercado. A moça do caixa nem olha para mim quando passo as compras. — Débito ou crédito? — pergunta sem levantar os olhos do visor.
— Débito — respondo.
Ela passa o cartão e empurra a sacola na minha direção.

Na volta para casa, vejo dona Cida conversando animada com a vizinha do 402. Elas riem alto. Quando passo por elas, o riso diminui. Sinto que sou um incômodo, uma presença que atrapalha a alegria alheia.

À noite, tento ligar para Rafael.
— Oi mãe, agora não posso falar. Depois te ligo.
— Só queria saber se está tudo bem…
— Tá sim. Depois eu ligo.
Desliga antes que eu possa dizer que sinto saudade.

Choro baixinho no escuro da sala. Lembro da minha mãe dizendo: “Filha, quando envelhecer, vai ver como é difícil ser notada.” Eu achava exagero dela. Agora entendo cada palavra.

No domingo, resolvo fazer um bolo de fubá como antigamente. Talvez Sofia venha me visitar se eu chamar pelo WhatsApp:
“Oi filha, fiz bolo de fubá! Vem comer comigo?”
Ela responde só à noite:
“Hoje não dá vó, tô estudando pro Enem :/”

Guardo metade do bolo no pote e deixo na geladeira. No dia seguinte levo um pedaço para dona Cida no corredor.
— Trouxe um bolinho pra senhora.
Ela sorri sem graça:
— Ah… obrigada… mas estou de dieta.
Fico parada ali alguns segundos até perceber que ela não vai me convidar pra entrar.

Volto para casa sentindo o peso da rejeição nas costas. Sento na varanda e olho o movimento da rua lá embaixo. Os carros passam apressados, as pessoas conversam nos portões das casas vizinhas. Ninguém olha pra cima.

Uma tarde, escuto barulho no corredor: Sofia! Ela entra sem bater.
— Oi vó! Tem dinheiro pra eu recarregar o celular?
Meu coração se enche de esperança.
— Tem sim, filha… quer um pedaço de bolo?
— Não posso comer doce agora, tô de dieta também.
Ela pega o dinheiro e sai apressada.

Fico olhando a porta fechada por alguns minutos. Sinto vontade de gritar: “Eu existo! Eu estou aqui!” Mas só consigo chorar baixinho mais uma vez.

Na semana seguinte, Rafael aparece de surpresa no domingo à tarde.
— Mãe, vim te ver rapidinho porque vou viajar a trabalho amanhã.
Ele olha o relógio o tempo todo enquanto fala comigo.
— Você tá bem? Precisa de alguma coisa?
Quero dizer que preciso dele aqui comigo, que sinto falta das nossas conversas na cozinha enquanto ele era criança. Mas só consigo dizer:
— Não filho… tá tudo bem…
Ele me abraça rápido e vai embora antes do café esfriar.

Na segunda-feira acordo com dor no peito. Fico tonta ao levantar da cama. Tento ligar para Rafael mas ele não atende. Penso em pedir ajuda para dona Cida mas lembro do sorriso sem graça dela e desisto.

Passo o dia inteiro sozinha em casa com medo de desmaiar e ninguém perceber por dias. Penso em quantas pessoas morrem sozinhas nos apartamentos dessa cidade enorme e ninguém nota até sentir o cheiro estranho no corredor.

À noite olho pela janela e vejo as luzes dos apartamentos acesas. Quantas outras mulheres como eu estão ali dentro? Invisíveis para os filhos, para os vizinhos, para o mundo?

Pego papel e caneta e escrevo uma carta para Rafael:
“Filho,
Se algum dia você sentir minha falta, lembre-se que estive aqui todos os dias esperando por você. Não quero ser só uma lembrança triste nas fotos antigas da estante. Quero ser lembrada pelo amor que sempre tive por você e pela Sofia.
Com carinho,
Mamãe”

Deixo a carta na mesa da sala e vou dormir cedo naquela noite.

No dia seguinte acordo melhor fisicamente mas ainda com o coração apertado pela solidão. Decido sair para caminhar na praça do bairro. Sento num banco ao lado de uma senhora que também está sozinha.
— Bom dia — digo com um sorriso tímido.
Ela sorri de volta:
— Bom dia! Que sol bonito hoje, né?
Conversamos sobre flores e receitas antigas por quase uma hora. Pela primeira vez em muito tempo sinto que alguém me vê de verdade.

Volto pra casa pensando: quantas pessoas invisíveis existem ao nosso redor? Quantas mães e avós esperam por um telefonema ou um abraço?

Será que um dia vamos aprender a enxergar quem está ao nosso lado antes que seja tarde demais?

E você? Já notou quem pode estar desaparecendo diante dos seus olhos?