O Peso do Casaco

— Mãe, você viu meu tênis? — gritou o Antônio lá do quarto, enquanto eu tentava me concentrar na tela do computador. Mas meus olhos insistiam em fugir para a janela, onde o sol de setembro parecia zombar da minha inquietação.

A verdade é que eu não conseguia pensar em mais nada além daquela bendita premiação inesperada. R$ 1.200 a mais na conta, um milagre para quem vive equilibrando boletos e sonhos adiados. Mas junto com a alegria veio a dúvida: o que fazer com esse dinheiro? O Antô precisava de tênis novos — o pé dele cresce numa velocidade que só vendo. A Jaqueta dele já estava curta nas mangas, e o inverno paulistano ainda prometia uns dias frios. Mas, pela primeira vez em anos, pensei em mim. Vi aquele casaco vermelho na vitrine do shopping, justo aquele que namorei por meses, mas nunca tive coragem de comprar.

— Catarina, você tá me ouvindo? — A voz do meu marido, Paulo, me trouxe de volta. Ele entrou na sala com aquela cara cansada de quem já desistiu de esperar por milagres.

— Tô sim, Paulo. Só tava pensando aqui nas contas…

Ele bufou, pegou o celular e saiu. O silêncio ficou pesado. Eu sabia que ele esperava que eu usasse o dinheiro para as necessidades da casa. Sempre foi assim: primeiro os filhos, depois a casa, depois ele… e eu? Sempre por último.

Naquela noite, enquanto lavava a louça, ouvi minha mãe falando baixinho com minha irmã no telefone:

— A Catarina sempre foi sonhadora demais. Tem que pôr os pés no chão. Com dois filhos pequenos e marido desempregado, ainda pensa em casaco caro…

Senti o rosto arder. Não era só sobre o casaco. Era sobre tudo que eu deixei de ser desde que virei mãe. Sobre cada vez que engoli o choro pra não preocupar ninguém. Sobre cada vez que quis gritar e fiquei calada.

No dia seguinte, levei o Antô pra escola. No caminho, ele olhou pra mim com aqueles olhos grandes:

— Mãe, você tá triste?

— Não, filho… Só cansada.

Ele sorriu e me abraçou forte antes de descer do carro. Fiquei ali parada, vendo ele sumir pelo portão da escola. Lembrei do casaco vermelho de novo. Lembrei de quem eu era antes de tudo isso.

No trabalho, a conversa era sempre a mesma: crise, inflação, medo do futuro. Minha chefe, Dona Sônia, apareceu na minha mesa:

— Catarina, parabéns pela premiação! Você merece. Vai fazer o quê com o dinheiro?

Sorri amarelo:

— Acho que vou comprar umas coisas pras crianças…

Ela me olhou fundo:

— Não esquece de você também, viu? Mulher precisa se cuidar.

Aquelas palavras ficaram martelando na minha cabeça o dia inteiro.

Na volta pra casa, passei em frente à loja do casaco. Entrei sem pensar muito. Experimentei o casaco vermelho — ficou perfeito. Olhei no espelho e vi uma mulher diferente: mais viva, mais bonita. Mas quando fui passar o cartão, minha mão tremeu.

— Vai levar? — perguntou a vendedora.

Pensei no Antô, na Jaqueta curta dele. Pensei no Paulo reclamando das contas. Pensei na minha mãe dizendo que eu era sonhadora demais.

— Vou sim — respondi baixinho.

Saí da loja com o coração disparado e o casaco embalado num saco bonito. No caminho pra casa, cada passo parecia mais pesado.

Quando cheguei em casa, Paulo estava sentado no sofá vendo TV. Coloquei o casaco no armário sem dizer nada.

Na hora do jantar, ele perguntou:

— E aí, resolveu o que vai fazer com o dinheiro?

Engoli seco:

— Comprei umas coisas pras crianças… e um casaco pra mim.

Ele me olhou como se eu tivesse cometido um crime.

— Casaco? Agora? Com tanta coisa pra pagar?

Minha filha pequena começou a chorar na mesa. O Antô ficou quieto olhando pro prato.

— Eu trabalho também, Paulo! — explodi sem querer — Não posso comprar uma coisa pra mim?

Ele ficou em silêncio. Minha mãe apareceu na porta da cozinha:

— Catarina, você sabe como as coisas estão difíceis…

Levantei da mesa e fui pro quarto chorando. Me senti egoísta e ao mesmo tempo injustiçada. Por que toda vez que penso em mim é errado?

Naquela noite não dormi direito. Fiquei pensando em todas as mulheres que conheço: minha mãe que nunca teve nada só dela; minha irmã que largou tudo pra cuidar dos filhos; minhas colegas de trabalho sempre cansadas e preocupadas.

No dia seguinte, vesti o casaco vermelho pra ir trabalhar. No ônibus lotado, senti olhares curiosos e alguns julgadores. Mas também senti uma força diferente dentro de mim.

No trabalho, Dona Sônia sorriu quando me viu:

— Agora sim! Tá linda! — disse ela.

Sorri de volta pela primeira vez em muito tempo.

Quando voltei pra casa à noite, Paulo estava mais calmo.

— Desculpa pelo jeito de ontem — disse ele baixinho — Eu só fico nervoso com as contas…

Sentei ao lado dele:

— Eu entendo… Mas eu também preciso existir.

Ele segurou minha mão e ficou tudo em silêncio por um tempo.

No fim daquela semana, comprei os tênis pro Antô numa promoção e ajeitei a Jaqueta dele com uns remendos bem feitos. Não era perfeito, mas era real.

O casaco vermelho virou meu símbolo secreto: toda vez que visto ele lembro que eu também mereço sonhar.

Às vezes me pergunto: será que é tão errado assim querer um pouco pra mim? Quantas mulheres aí fora vivem esse mesmo dilema todos os dias?