Luz Além do Horizonte: 6h48 em São Paulo

6h48. O despertador nem precisou tocar. Eu já estava acordada, olhos abertos, encarando o teto manchado de umidade do nosso apartamento no Brás. O silêncio só era quebrado pelo ronco distante dos ônibus e pelo som abafado da respiração da minha mãe no quarto ao lado.

Levantei devagar, sentindo o frio do chão de cerâmica rachada sob meus pés. Caminhei até a cozinha, puxei a cortina encardida e deixei que a luz tímida da manhã invadisse o cômodo. Ela se espalhou pelo linóleo gasto, iluminando a xícara de chá que eu havia deixado ali na noite anterior. Era sempre assim: a luz chegava primeiro, como se quisesse me lembrar que um novo dia começava, mesmo quando tudo parecia igual.

— Maria Eduarda, você já acordou? — a voz rouca da minha mãe ecoou, fraca, do quarto.

— Já sim, mãe. Vou preparar seu café — respondi, tentando soar animada.

Enquanto esquentava a água, olhei para o calendário pendurado na parede. Mais um dia sem trabalho, mais um dia de incerteza. Desde que perdi meu emprego na loja de roupas do centro, tudo ficou mais difícil. O aluguel atrasado, as contas empilhadas na gaveta da pia, e a doença da minha mãe piorando a cada semana.

Ela apareceu na porta da cozinha, apoiada na bengala. O rosto magro, os olhos fundos. Sentei-a à mesa e coloquei o pão amanhecido e o café ralo à sua frente.

— Você precisa comer melhor, filha — ela murmurou, empurrando o prato para mim.

— Não se preocupa comigo, mãe. Você é quem precisa se alimentar — insisti, mas ela apenas suspirou.

O telefone tocou. Meu coração disparou. Talvez fosse uma resposta de algum currículo enviado. Corri para atender.

— Alô?

— Maria Eduarda? Aqui é o seu pai… — a voz do outro lado era seca, distante.

Senti um nó na garganta. Fazia meses que ele não ligava desde que saiu de casa para morar com outra mulher em Guarulhos.

— O que você quer? — perguntei, tentando conter as lágrimas.

— Só queria saber como estão as coisas aí… — ele hesitou.

— Estamos sobrevivendo. Como sempre — respondi fria.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de desligar sem dizer mais nada. Olhei para minha mãe, que fingia não ouvir, mas eu sabia que cada palavra pesava nela como uma pedra.

Depois do café, ajudei minha mãe a tomar banho e trocar de roupa. O cheiro dos remédios misturava-se ao cheiro de mofo do apartamento. Enquanto ela descansava na poltrona da sala, sentei no sofá e abri o celular para procurar vagas de emprego. Cada “não” era como um soco no estômago.

No grupo da família no WhatsApp, só mensagens vazias: piadas, correntes religiosas, ninguém perguntava de verdade como estávamos. Minha tia Lúcia mandou um áudio reclamando do trânsito na Marginal Tietê. Quis responder dizendo que trânsito era o menor dos meus problemas, mas apaguei antes de enviar.

À tarde, fui ao posto de saúde buscar os remédios da minha mãe. Na fila, ouvi conversas sobre desemprego, violência, preços subindo no mercado. Era como se todos ali carregassem o mesmo peso invisível.

Quando voltei para casa, encontrei minha mãe chorando baixinho.

— O que foi, mãe?

— Sinto falta do seu pai… Sinto falta de quando éramos uma família — ela soluçou.

Sentei ao lado dela e segurei sua mão.

— Eu também sinto falta, mãe. Mas agora somos só nós duas. E eu prometo que vou cuidar da senhora.

Ela sorriu fraco e me abraçou.

Naquela noite, sentei na janela do quarto e olhei para as luzes da cidade. Pensei em tudo o que já tinha perdido: meu emprego, meu pai, minha juventude presa entre remédios e contas atrasadas. Mas também pensei na força que eu encontrava todos os dias naquela luz das 6h48 — um lembrete silencioso de que ainda havia esperança além do horizonte.

No dia seguinte, acordei antes do sol. Preparei o café com o pouco que restava e sentei ao lado da minha mãe para assistir ao nascer do dia pela janela.

— Sabe, mãe… Às vezes eu penso se algum dia tudo isso vai passar. Se a gente vai conseguir ser feliz de novo…

Ela apertou minha mão e respondeu:

— Enquanto houver luz entrando por essa janela, filha, ainda existe esperança.

E eu fiquei ali pensando: quantas Marias Eduardas existem espalhadas pelo Brasil? Quantas filhas cuidam sozinhas das mães doentes enquanto tentam sobreviver? Será que um dia a gente vai ser vista? Será que alguém vai ouvir nossa história?