Atrás da Parede — O Grito Silencioso de um Lar

— Abaixa essa porcaria de som, seu irresponsável! — gritou minha mãe, Dona Lúcia, batendo com força na parede fina do nosso apartamento. O relógio marcava quase duas da manhã e o funk do vizinho parecia vibrar dentro do meu peito, misturando-se ao latejar da minha enxaqueca. Eu estava sentada na beirada da cama, tentando terminar um trabalho da faculdade, mas cada batida da música parecia zombar da minha concentração.

— Mãe, deixa pra lá… — murmurei, sem forças para discutir. Mas ela já estava de pé, os cabelos desgrenhados e a camisola manchada de café. — Não vou deixar! Todo santo dia é isso! A gente trabalha feito condenada e não tem direito nem ao silêncio?

Ouvimos uma risada alta do outro lado da parede. Era o Júnior, o vizinho do 304. Desde que ele voltou a morar com a mãe depois de perder o emprego, parecia que o apartamento dele tinha virado balada. Minha mãe bufou e pegou o chinelo.

— Se ele não abaixar, eu vou lá!

— Mãe, por favor… — tentei segurar seu braço. — Não adianta brigar. Eles não ligam.

Ela me olhou com olhos vermelhos de raiva e cansaço. — E você acha certo? Acha que a gente tem que aceitar tudo calada?

Eu não sabia responder. Na verdade, eu só queria dormir. Mas sabia que pra ela era mais do que barulho: era sobre respeito, sobre não ser invisível.

De repente, ouvimos um estrondo na parede. Alguém do outro lado bateu de volta. Minha mãe perdeu a paciência e saiu pelo corredor do prédio, batendo a porta atrás de si. Fiquei parada no escuro, ouvindo os passos dela ecoando pelo prédio velho.

Lembrei de quando éramos felizes aqui. Antes do papai ir embora com outra mulher e deixar a gente com dívidas até o pescoço. Antes de eu ter que trabalhar no caixa do supermercado à noite pra ajudar em casa. Antes da mamãe perder o emprego de costureira porque a fábrica fechou.

O prédio era antigo, paredes finas como papel. Cada briga, cada choro, cada risada dos outros entrava na nossa casa sem pedir licença. Às vezes eu sentia que morávamos todos juntos, dividindo dores e alegrias sem nunca nos olharmos nos olhos.

A porta bateu forte. Mamãe voltou com o rosto vermelho e os olhos marejados.

— Ele riu da minha cara! Disse que se eu quisesse silêncio era pra me mudar pro cemitério!

Senti uma raiva quente subindo pelo corpo. — Que absurdo! A gente paga aluguel igual todo mundo!

Ela se jogou no sofá e começou a chorar baixinho. Sentei ao lado dela e segurei sua mão.

— Mãe… não chora. Amanhã a gente tenta falar com a síndica de novo.

Ela balançou a cabeça. — A síndica é amiga da mãe dele. Vai dizer que é implicância nossa…

Ficamos em silêncio por um tempo, ouvindo o som abafado do funk e as vozes alegres do outro lado da parede. Senti uma inveja amarga daquela alegria barulhenta. Por que pra eles tudo parecia tão fácil?

Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café forte e pão queimado. Mamãe já estava de pé, olhos inchados mas determinada.

— Hoje eu vou no RH ver se consigo aquele emprego de faxineira no hospital — disse ela.

— Vai dar certo, mãe — tentei sorrir.

Antes de sair pro trabalho, passei pelo corredor e cruzei com Júnior fumando na porta do apartamento dele.

— E aí, princesa? Dormiu bem? — ele debochou.

Senti vontade de gritar, mas só baixei a cabeça e passei rápido.

No supermercado, contei pra minha amiga Patrícia o que tinha acontecido.

— Camila, isso é assédio! Você devia gravar tudo e denunciar!

— E adianta? Aqui ninguém faz nada… — respondi desanimada.

No fim do dia, voltei pra casa exausta. Encontrei mamãe sentada à mesa com uma carta na mão.

— Não consegui a vaga… Disseram que preferem gente mais nova.

Ela tentou sorrir mas os olhos entregavam a tristeza.

— Mãe… a gente vai dar um jeito. Eu posso pegar mais horas no mercado…

Ela segurou minha mão com força.

— Não quero que você pare de estudar por minha causa!

Ouvimos um barulho alto vindo do corredor: Júnior discutia com a mãe dele aos berros. Ela gritava que ele era um inútil, que só trazia vergonha pra família. Por um segundo senti pena dele — talvez cada um tivesse sua própria guerra atrás das paredes finas.

Naquela noite, mamãe fez sopa rala e dividimos o último pão. O barulho continuava, mas dessa vez ela não reclamou. Ficamos sentadas em silêncio, ouvindo a vida dos outros invadir nosso pequeno mundo.

Antes de dormir, olhei pro teto mofado e pensei em tudo que tínhamos perdido — e no pouco que ainda tínhamos: uma à outra.

No escuro do quarto, ouvi mamãe sussurrar:

— Será que um dia vão nos ouvir? Ou vamos continuar gritando atrás dessas paredes?

E você aí… já se sentiu invisível dentro da própria casa? Até quando vamos aceitar viver calados diante da falta de respeito?