Demasiadas Preocupações
— Sério que a senhora vai fritar cebola às seis da manhã? — murmurei, tentando não soar agressiva, mas já sentindo a garganta arder de irritação. O cheiro invadia cada canto do pequeno apartamento em Osasco, e eu sabia que, dali pra frente, não teria mais um minuto de paz até a noite cair. Dona Marlene, minha sogra, nem se virou. Continuou mexendo os bifes na panela, o avental vermelho com letras douradas — “Rainha da Cozinha” — reluzindo sob a luz amarelada.
— Tem gente que trabalha, Edna. Não pode ficar dormindo até tarde — respondeu ela, com aquele tom passivo-agressivo que só quem já morou com sogra conhece.
Eu respirei fundo. Olhei para o relógio: 6h07. Meu marido, Paulo, ainda dormia no quarto. E eu sabia que, se tentasse voltar pra cama, não conseguiria pregar o olho. A cada manhã, era como se eu acordasse para uma batalha silenciosa. Dona Marlene tinha vindo morar conosco depois que ficou viúva, há dois anos. No começo, achei que seria temporário. Mas o tempo foi passando e ela foi criando raízes — raízes profundas, que sufocavam as minhas.
— Quer café? — ela perguntou, sem olhar pra mim.
— Não, obrigada. Vou tomar depois — respondi, tentando soar educada.
Ela bufou. — Depois o café esfria e reclama.
Fui para o banheiro lavar o rosto. Olhei meu reflexo: olheiras fundas, cabelo desgrenhado. Senti vontade de chorar. Lembrei do tempo em que eu e Paulo tínhamos a casa só pra nós. Ríamos alto na sala vendo novela, fazíamos brigadeiro de panela às três da manhã. Agora, até o barulho da colher no prato parecia motivo pra discussão.
No trabalho, eu era outra pessoa. No escritório de contabilidade onde atuava como assistente, todos me chamavam de “Edna Solução”. Sabia resolver pepino de cliente, acalmar chefe nervoso, dar conta dos prazos apertados. Mas em casa… em casa eu era só a nora da Dona Marlene.
Naquela manhã, Paulo acordou atrasado. Saiu do quarto coçando os olhos.
— Bom dia — disse ele, bocejando.
— Bom dia — respondi.
Dona Marlene já estava servindo o café na mesa.
— Paulo, sente-se logo que vai esfriar — disse ela, puxando a cadeira pra ele.
Ele sentou e me olhou de lado, como quem pede desculpas sem palavras. Eu sabia que ele se sentia dividido. Era filho único, criado só pela mãe depois que o pai morreu cedo. Sempre foi grato por tudo que ela fez por ele. Mas agora… agora éramos três adultos tentando caber num apartamento de dois quartos.
Naquela noite, depois do jantar (arroz empapado e carne dura — Dona Marlene não aceitava ajuda na cozinha), sentei na varanda minúscula pra respirar um pouco de ar fresco. Paulo veio atrás de mim.
— Edna… você tá bem?
— Não sei mais quem eu sou aqui dentro, Paulo. Sinto que tô desaparecendo — confessei, baixinho.
Ele passou a mão nos meus cabelos.
— Eu sei que tá difícil… mas é só uma fase. Ela não tem pra onde ir agora.
— E eu? Eu tenho pra onde ir? — perguntei, sentindo a voz embargar.
Ele ficou em silêncio. O barulho da televisão alta vazava pela janela — Dona Marlene assistia novela das nove como se fosse missa.
Os dias foram passando e as coisas só pioraram. Dona Marlene começou a implicar com tudo: a roupa que eu usava pra trabalhar (“muito justa”), o jeito que eu arrumava a cama (“lençol torto”), até o shampoo que eu comprava (“cheiro muito forte”). Um dia cheguei em casa e ela estava mexendo nas minhas gavetas.
— O que a senhora tá fazendo?
— Só tava organizando essa bagunça — respondeu ela, como se fosse normal invadir minha privacidade.
Paulo tentou intervir algumas vezes, mas sempre acabava cedendo ao choro da mãe.
— Eu só quero ajudar! — ela dizia, enxugando lágrimas falsas com o pano de prato.
Comecei a evitar chegar cedo em casa. Ficava no ponto de ônibus olhando os carros passarem, inventava desculpas pra sair com colegas do trabalho. Uma noite cheguei quase dez horas e encontrei Paulo sentado à mesa com cara de poucos amigos.
— Minha mãe ficou preocupada! Você nem avisou onde tava!
— Eu sou adulta, Paulo! Não preciso pedir permissão pra sair!
— Mas custa avisar? Ela ficou chorando aqui!
Senti um nó na garganta. Fui pro quarto e chorei baixinho até dormir.
No domingo seguinte, minha mãe ligou dizendo que ia fazer feijoada lá em casa. Convidei Paulo e Dona Marlene sem pensar muito. Queria ver se um pouco da minha família equilibrava as coisas.
Quando minha mãe chegou com a panela fumegante e meu irmão caçula trazendo refrigerante, Dona Marlene fez cara feia desde o começo.
— Feijoada? Isso pesa no estômago… — resmungou ela.
Minha mãe sorriu amarelo e tentou puxar assunto:
— Dona Marlene, a senhora gosta de samba?
— Não tenho tempo pra essas coisas — respondeu seca.
O almoço foi um desastre. Paulo tentava agradar as duas famílias ao mesmo tempo; meu irmão ficou no celular o tempo todo; eu quase não comi nada. Quando todos foram embora, Dona Marlene veio atrás de mim na cozinha:
— Sua família é muito barulhenta. Aqui em casa não precisa disso tudo.
Senti vontade de gritar: “Aqui em casa?” Era minha casa também!
Naquela noite decidi conversar sério com Paulo.
— Ou a gente acha uma solução ou eu vou embora por um tempo. Não aguento mais viver assim.
Ele ficou pálido.
— Você tá me dando um ultimato?
— Tô pedindo socorro! — respondi chorando.
Na semana seguinte começamos terapia de casal. Foi difícil convencer Dona Marlene a aceitar uma cuidadora durante o dia para ela não ficar sozinha enquanto trabalhávamos. Mas aos poucos as coisas começaram a mudar. Eu voltei a sentir um pouco do meu espaço renascendo dentro daquele apartamento apertado.
Hoje ainda acordo às vezes com cheiro de cebola frita e panela batendo cedo demais. Mas aprendi a impor limites — mesmo que doa. Aprendi também que amor não é sinônimo de anulação.
Às vezes me pergunto: quantas mulheres brasileiras vivem sufocadas dentro da própria casa? Quantas Ednas existem por aí esperando coragem pra pedir socorro?