Por Que Ninguém Me Vê?
— Como ele pode não me notar? — Camila quase gritou, batendo a mão na pia do banheiro do escritório. O batom vermelho escorria um pouco no canto da boca, mas ela nem percebeu. Eu estava ali, encostada na porta, segurando o riso nervoso e tentando não me envolver demais. Mas era impossível. Camila era minha melhor amiga desde a faculdade, e eu sabia que quando ela colocava uma coisa na cabeça, ninguém tirava.
— Calma, Cami. O Rafael é distraído mesmo — tentei amenizar, mas ela me lançou um olhar fulminante pelo espelho.
— Distraído nada! Ele só tem olhos pra aquela Letícia. Você viu como ela se insinua? — Ela ajeitou o decote da blusa, respirou fundo e sorriu para si mesma. — Mas não tem problema. Semana que vem tem a festa da firma. Ele vai me notar. Vai ser impossível não me notar.
Eu queria acreditar nisso por ela. Mas conhecendo o Rafael, tão fechado no mundinho dele, tão alheio aos dramas do escritório, duvidava que uma festa mudasse alguma coisa. Mesmo assim, ajudei Camila a escolher o vestido perfeito, ensaiei com ela as conversas mais improváveis e até inventei desculpas para Letícia não ir à festa — confesso que me senti mal depois.
No grande dia, Camila estava deslumbrante. Vestido azul royal, salto alto, cabelo impecável. Chegamos juntas ao salão alugado pela empresa, e logo ela sumiu no meio da multidão, caçando Rafael com os olhos. Eu fiquei num canto, conversando com o pessoal do RH e fingindo que não estava preocupada.
A noite foi passando e nada de Camila conseguir se aproximar dele. Rafael parecia sempre ocupado: ora conversando com o chefe, ora rindo com os amigos do setor financeiro. Vi Camila tentando se aproximar várias vezes, mas sempre era interrompida por alguém ou simplesmente ignorada.
No auge da festa, quando a banda começou a tocar um pagode animado, Camila finalmente conseguiu puxar Rafael para dançar. Eu vi de longe quando ela se aproximou dele com aquele sorriso confiante. Eles dançaram uma música inteira. Depois outra. Meu coração se apertou — por ela e por mim mesma, porque eu sabia o quanto aquilo significava.
Quando a música acabou, Camila voltou até mim com os olhos brilhando.
— Ele me elogiou! Disse que eu estava linda! — Ela me abraçou forte. — Amanda, você viu? Ele finalmente me notou!
Eu sorri, mas algo no olhar de Rafael enquanto ele se afastava me deixou inquieta. Não era admiração ou interesse — era mais um sorriso educado, daqueles que damos para não sermos rudes.
Os dias seguintes foram uma tortura para Camila. Ela mandou mensagem para Rafael agradecendo pela dança; ele respondeu com um emoji de joinha. Tentou puxar assunto na copa do escritório; ele respondeu monossilábico e logo saiu. Vi minha amiga murchando aos poucos, a confiança escorrendo como aquele batom vermelho no canto da boca.
Uma tarde, depois do expediente, encontrei Camila chorando no estacionamento.
— O que eu tenho de errado? — ela soluçava. — Eu tentei de tudo! Mudei meu cabelo, comprei roupa nova… Até tentei ser engraçada igual à Letícia! Por que ninguém me vê?
Sentei ao lado dela no banco do carro e segurei sua mão.
— Você não precisa mudar pra ser vista, Cami. Quem gosta de você de verdade vai enxergar quem você é de verdade.
Ela me olhou com raiva.
— Fácil pra você falar! Você nunca quis ser o centro das atenções! Eu só queria… sei lá… sentir que sou importante pra alguém.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. O barulho dos carros passando na avenida parecia ecoar a solidão dela.
Na semana seguinte, Camila começou a faltar ao trabalho. Mandava atestados médicos, dizia que estava gripada. Eu sabia que era mais do que isso: era tristeza mesmo. Liguei várias vezes; ela não atendia. Mandei mensagem; ela visualizava e não respondia.
Até que um dia resolvi ir até a casa dela sem avisar. Bati na porta e esperei. Quando ela abriu, levei um susto: olheiras profundas, cabelo preso de qualquer jeito, pijama velho.
— Amanda… — ela murmurou.
— Entra logo antes que algum vizinho ache que você tá sequestrando alguém — tentou brincar, mas a voz falhou.
Sentei no sofá bagunçado e olhei bem nos olhos dela.
— Cami… você precisa de ajuda. Não é só por causa do Rafael ou da Letícia ou de qualquer outra pessoa do trabalho. Você tá se perdendo tentando ser alguém que não é.
Ela chorou de novo. E dessa vez deixou eu abraçá-la até o choro passar.
Nos meses seguintes, Camila começou terapia. Aos poucos foi voltando ao trabalho — mais quieta, mais reservada, mas também mais verdadeira consigo mesma. Parou de tentar agradar todo mundo o tempo todo. E eu fiquei ali do lado dela, como sempre estive.
Um dia, já quase no fim do ano, estávamos tomando café na padaria perto do escritório quando ela olhou pra mim e disse:
— Sabe o que é pior? Não é não ser vista pelos outros… É não conseguir se enxergar no espelho.
Eu sorri e segurei sua mão sobre a mesa.
— Mas agora você tá começando a se ver de novo.
Ela assentiu devagar e sorriu de volta.
Hoje penso em tudo isso e me pergunto: quantas Camilas existem por aí? Quantas pessoas estão tentando desesperadamente serem vistas pelos outros sem perceberem que já valem muito só por serem quem são?
Será que a gente precisa mesmo da aprovação dos outros pra se sentir importante? Ou será que basta aprender a se enxergar de verdade?