A Sobrevivência de Dona Cida: Entre o Silêncio e a Resistência

— Dona Cida, a senhora vai sair hoje de novo? — gritou Dona Marlene, minha vizinha de porta, enquanto eu tentava fechar a porta do meu apartamento sem fazer barulho. O trinco sempre emperra, parece que até a porta sente o peso dos anos.

— Vou sim, Marlene. Preciso ir na feira antes que o preço do tomate suba mais — respondi, forçando um sorriso que não alcançava meus olhos. O elevador do prédio nunca funciona, então desço os quatro andares pelas escadas, sentindo cada degrau como se fosse uma lembrança pesada.

A cada passo, penso em tudo que ficou para trás. Meu marido, Zé Carlos, se foi há dez anos. Meus filhos, André e Luciana, moram longe — um em São Paulo, outra em Fortaleza. Dizem que a vida é corrida, que não têm tempo nem dinheiro para visitar. Eu entendo, mas dói. Dói como o reumatismo nas mãos quando tento abrir o portão enferrujado do prédio.

A rua está cheia de vida: crianças brincando com bola furada, vendedores ambulantes gritando promoções de frutas, o cheiro de café passado na hora vindo da padaria da esquina. Mas dentro de mim, tudo parece silencioso demais. Sigo para a feira com minha sacola de pano, desviando dos buracos na calçada e dos olhares apressados.

Na banca do Seu Raimundo, peço meio quilo de tomate.

— Só isso hoje, Dona Cida? — ele pergunta, com aquele olhar de quem sabe das coisas.

— Só isso mesmo. A aposentadoria mal dá pra semana — respondo, tentando não transparecer vergonha.

Ele me oferece um punhado de cheiro-verde de graça. Agradeço com um aceno tímido. A solidariedade aqui é moeda rara, mas quando aparece aquece o peito.

Volto pra casa devagar. No caminho, passo pelo bar do Seu Nivaldo. Lá dentro, homens jogam dominó e falam alto sobre política e futebol. Sinto falta do tempo em que Zé Carlos estava ali no meio deles, rindo alto e me chamando pra sentar ao lado dele. Agora só resta o eco das risadas antigas.

Quando entro em casa, o silêncio me engole. O rádio velho toca uma música de Alceu Valença, mas nem isso preenche o vazio. Sento na cadeira da cozinha e olho para as fotos dos meus filhos na parede. Eles eram pequenos quando tiramos aquela foto na praia de Boa Viagem. Agora são adultos ocupados demais para lembrar da mãe.

À noite, ligo para Luciana.

— Oi mãe! Tá tudo bem? — ela atende com pressa.

— Tá sim, filha. Só liguei pra ouvir sua voz — digo, tentando não parecer carente.

— Mãe, tô no meio de uma reunião aqui… depois te ligo com calma, tá? Beijo! — e desliga antes que eu possa dizer qualquer coisa.

Fico olhando para o telefone mudo. Sinto uma raiva surda misturada com tristeza. Será que criei meus filhos para serem tão distantes? Será que fiz algo errado?

No outro dia, André manda mensagem no WhatsApp: “Oi mãe! Tudo certo por aí? Tô sem tempo esses dias… depois te ligo.”

Respondo com um coraçãozinho e um “Saudades”. Ele visualiza mas não responde.

A solidão pesa mais à noite. O barulho da televisão dos vizinhos atravessa as paredes finas do prédio antigo. Às vezes escuto brigas, às vezes risadas. Aqui dentro só tem silêncio e o tique-taque do relógio.

No domingo, Dona Marlene bate à porta:

— Cida, vamos tomar um café lá em casa? Fiz bolo de milho!

Aceito o convite porque sei que recusar é pior. Sentamos na cozinha dela e conversamos sobre tudo: preço do gás, saúde ruim, saudade dos filhos que nunca vêm.

— Sabe o que eu acho? — diz Marlene — A gente passa a vida inteira cuidando dos outros e quando precisa… fica sozinha.

Concordo com a cabeça baixa. Não quero chorar na frente dela.

Na volta pro meu apartamento, encontro Seu Raimundo subindo as escadas com as compras da semana.

— Dona Cida, precisa de ajuda aí?

— Não se preocupe não, Raimundo. Já tô acostumada a carregar peso sozinha — respondo com um sorriso triste.

Às vezes penso em vender tudo e ir morar com Luciana ou André. Mas sei que não seria bem-vinda por muito tempo. Eles têm suas vidas, suas famílias… Eu seria só mais um problema.

Outro dia recebo uma carta da prefeitura avisando sobre aumento do condomínio. Não sei como vou pagar. Penso em pedir ajuda aos filhos, mas o orgulho fala mais alto. Passei a vida inteira me virando sozinha; agora não vou começar a pedir esmola.

No grupo de senhoras da igreja, ouço histórias parecidas: mães esquecidas pelos filhos, aposentadorias insuficientes, medo de adoecer sozinha em casa. Uma delas chora contando que passou o aniversário sem receber nem uma ligação dos filhos.

— A gente sobrevive porque não tem escolha — diz Dona Lourdes — Se depender dos outros…

Volto pra casa pensando nisso. Sobreviver virou rotina: acordar cedo pra aproveitar o pouco sol na janela, economizar até no café, contar moedas pra comprar remédio. Mas resistir é mais do que isso. É não deixar que a tristeza mate a esperança.

Uma tarde Luciana liga chorando:

— Mãe… terminei com o Pedro. Tô tão perdida…

Ouço sua dor com paciência. Digo palavras de consolo mesmo sentindo vontade de dizer: “Agora você lembra de mim?” Mas não falo nada disso. Mãe é mãe até quando dói.

Depois dessa ligação ela passa a ligar mais vezes. André também aparece num domingo qualquer dizendo que sentiu saudade da comida da infância. Faço feijão tropeiro e bolo de fubá como antigamente. Por algumas horas minha casa volta a ter risadas e cheiro de comida boa.

Mas logo eles vão embora outra vez e tudo volta ao silêncio habitual.

Às vezes me pergunto se sobreviver é só isso: esperar pelos pequenos momentos de alegria entre longos períodos de solidão. Ou será que ainda posso encontrar um novo sentido pra minha vida?

Será que resistir é suficiente? Ou merecemos mais do que apenas sobreviver?