Mãe, não vou poder ir no Natal… – Uma história de solidão, esperança e desilusões familiares
— Mãe, não vou poder ir no Natal… — a voz do Caio ecoou fria pelo telefone, como se cada palavra pesasse toneladas. Eu segurei o aparelho com força, tentando não deixar transparecer o tremor na minha mão.
— Tudo bem, filho. Eu entendo — menti, sentindo o peito apertar. Do outro lado da linha, silêncio. Ele já estava distraído, talvez olhando para o relógio, esperando terminar logo aquela ligação incômoda.
Desliguei devagar, olhando para a mesa da sala. A toalha de crochê que eu mesma fiz estava esticada, esperando pelos pratos que nunca seriam usados. O cheiro do bolo de fubá recém-assado ainda pairava no ar, misturado ao perfume das flores que comprei para enfeitar a casa. Tudo tão pronto para receber meus filhos, mas tudo tão vazio.
Me chamo Lúcia, tenho 67 anos e moro sozinha em um apartamento pequeno no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte. Passei a vida inteira cuidando dos meus três filhos: Caio, Fernanda e Rafael. Fui mãe solteira desde cedo, enfrentei fila de hospital público, trabalhei como costureira até tarde da noite e nunca deixei faltar comida na mesa. Mas agora, quando mais preciso deles, o silêncio é meu único companheiro.
Lembro de quando eles eram pequenos. A Fernanda adorava me ajudar a enrolar brigadeiro na véspera do Natal. O Caio ficava responsável por montar o presépio e o Rafael, sempre arteiro, tentava roubar as balas antes da hora. Era uma bagunça gostosa, cheia de risadas e música tocando na vitrola velha do meu pai.
Mas os anos passaram. Cada um seguiu seu caminho. Caio foi trabalhar em São Paulo, virou gerente de banco e agora só fala em reuniões e metas. Fernanda casou com um médico e vive correndo entre plantões e os filhos pequenos. Rafael… ah, Rafael se perdeu pelo caminho. Depois que se envolveu com más companhias e drogas, quase não dá notícias. Quando liga, é sempre pedindo dinheiro ou ajuda.
No início eu tentava entender. “A vida é corrida mesmo”, eu dizia para mim mesma. Mas a verdade é que a solidão dói mais no Natal. Dói quando vejo as vizinhas recebendo filhos e netos, ouvindo risadas vindas dos apartamentos ao lado enquanto aqui só se ouve o tique-taque do relógio.
No ano passado ainda tentei reunir todos. Preparei a ceia sozinha: peru, farofa, salpicão… até rabanada eu fiz! Fiquei esperando até quase meia-noite. Caio mandou mensagem dizendo que estava preso no trabalho. Fernanda ligou dizendo que os meninos estavam doentes. Rafael nem apareceu.
Sentei à mesa sozinha e chorei baixinho para ninguém ouvir. No fundo, eu sabia que não era só o tempo deles que faltava — era vontade mesmo. Vontade de estar junto, de lembrar das raízes.
Outro dia encontrei Dona Cida na padaria.
— Ô Lúcia, seus meninos vêm esse ano? — perguntou ela, com aquele sorriso bondoso.
— Acho que sim… pelo menos um deles — respondi, tentando disfarçar a tristeza.
Ela me olhou com pena e mudou de assunto. Odeio esse olhar de compaixão. Não quero ser vista como coitada. Só queria ser lembrada.
Às vezes penso onde foi que errei. Será que fui dura demais? Será que cobrei demais? Ou será que simplesmente é assim mesmo? Os filhos crescem e esquecem da gente?
Outro dia tentei ligar para o Rafael:
— Mãe… tô sem tempo agora — ele disse apressado.
— Só queria saber se você tá bem…
— Tô sim. Depois te ligo — desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
Fiquei olhando para o telefone por minutos, esperando ele retornar. Não retornou.
A Fernanda também anda distante. Quando liga é só para falar dos problemas dela: o marido ausente, os meninos doentes, o trabalho puxado no hospital.
— Mãe, você não sabe como é difícil! — ela desabafa.
— Sei sim, filha… sei mais do que imagina — respondo baixinho.
Mas ela não escuta. Ninguém escuta.
Às vezes penso em sair desse apartamento e ir morar com uma amiga ou num asilo onde pelo menos teria companhia. Mas algo me prende aqui: as lembranças dos meus filhos correndo pelo corredor, das festas improvisadas com pão de queijo e guaraná, das noites em claro esperando eles voltarem da balada.
Outro dia resolvi escrever uma carta para cada um deles. Não uma carta cobrando presença ou atenção — mas uma carta contando sobre mim: sobre meus medos, minhas saudades, minhas pequenas alegrias do dia a dia.
“Querido Caio,
Hoje acordei cedo e vi o sol entrando pela janela da cozinha. Lembrei de você pequeno, sentado no chão brincando com seus carrinhos enquanto eu fazia café…”
Escrevi para cada um deles. Coloquei no correio com esperança de que talvez lendo minhas palavras eles se lembrem de quem sou — não só a mãe que resolve problemas ou empresta dinheiro — mas a mulher cheia de sonhos e saudades.
Os dias vão passando devagar. Tento ocupar a cabeça: faço crochê para vender na feira da igreja, ajudo Dona Cida com as compras pesadas, cuido das plantas na varanda. Mas à noite a solidão volta forte.
Outro dia ouvi uma discussão no apartamento ao lado:
— Você nunca liga pra sua mãe! — gritava uma moça para o marido.
— Ela só sabe reclamar! — ele respondeu irritado.
Fiquei pensando: será que meus filhos me veem assim? Como alguém chata, carente? Ou será que simplesmente não sabem lidar com a culpa de não estarem presentes?
O Natal está chegando de novo. Comprei panetone pequeno só pra mim. Decorei a casa com luzinhas coloridas porque gosto do brilho delas refletido na janela à noite.
Ontem recebi uma mensagem da Fernanda:
“Mãe, esse ano vai ser difícil ir aí… os meninos estão gripados e o Paulo vai estar de plantão. Mas te amo muito!”
Respondi com um coraçãozinho e um “Fica com Deus”. Chorei depois.
Hoje acordei cedo e fui até a feira comprar frutas frescas. No caminho vi uma senhora sentada sozinha no banco da praça olhando as crianças brincando. Sentei ao lado dela e puxei conversa.
— Natal chegando e a senhora aqui sozinha?
— Meus filhos moram longe… — ela respondeu com um sorriso triste.
— Os meus também — confessei.
Ficamos ali por horas conversando sobre receitas antigas e saudades parecidas. Descobri que não sou a única mãe esquecida nesse mundo apressado.
À noite liguei para Caio de novo:
— Filho…
— Oi mãe…
— Só queria dizer que te amo muito.
Silêncio do outro lado.
— Também te amo mãe… desculpa não poder ir esse ano…
— Tudo bem filho… só queria ouvir sua voz mesmo.
Desliguei sentindo um misto de tristeza e alívio. Pelo menos ouvi sua voz.
Agora escrevo essas palavras sentada na minha sala iluminada pelas luzinhas piscando devagarinho. O cheiro do bolo ainda está no ar e as lembranças dançam pela casa vazia.
Será que um dia meus filhos vão entender o vazio que deixaram aqui? Será que toda mãe sente essa saudade apertada ou sou só eu? Quem aí também sente falta de quem ama?