Eu Sei Que Não Sou Perfeita, Mas Você Também Nunca Foi Meu Sonho: A História do Fim do Meu Casamento com Damião
— Você nunca escuta o que eu digo, Damião! — gritei, sentindo minha voz tremer, não só de raiva, mas de cansaço. Ele estava sentado no sofá, olhos fixos na televisão, como se eu fosse só mais um ruído qualquer naquela casa. Era uma terça-feira à noite, mas poderia ser qualquer dia da semana. As discussões já tinham virado rotina.
Eu me chamo Mariana, tenho 36 anos e moro em Belo Horizonte. Quando conheci Damião, há dez anos, ele parecia tudo o que eu queria: divertido, trabalhador, alguém que sonhava junto comigo. Mas os sonhos mudam. Ou talvez nunca tenham sido os mesmos.
No começo, a gente ria de tudo. Lembro das noites em que ficávamos na varanda do nosso pequeno apartamento, tomando cerveja barata e falando sobre o futuro. “Um dia a gente vai ter nossa casa com quintal”, ele dizia. Eu acreditava. Mas o tempo foi passando e o quintal virou só mais uma promessa não cumprida.
A rotina foi nos engolindo. Eu trabalhava como professora numa escola pública e ele era motorista de aplicativo. O dinheiro era sempre contado, as contas sempre atrasadas. Mas não era só isso. O que mais doía era o silêncio entre nós. O silêncio depois das brigas, o silêncio no café da manhã, o silêncio quando eu chorava no banheiro para ele não ver.
Minha mãe sempre dizia: “Mariana, casamento é luta diária.” Mas ninguém me avisou que às vezes a luta é para não perder a si mesma.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre dinheiro — ou melhor, sobre a falta dele — Damião saiu batendo a porta. Fiquei sentada no chão da cozinha, abraçando meus joelhos. Senti vergonha de mim mesma por ainda esperar que ele voltasse diferente, mais carinhoso, mais presente. Mas ele voltou igual. E eu também.
A gota d’água veio num domingo de manhã. Estávamos na casa da mãe dele em Contagem, aquele almoço de família que eu sempre detestava porque parecia que todo mundo ali fingia felicidade. A irmã dele, Luciana, comentou alto:
— Mariana vive reclamando do Damião, mas também não faz nada pra mudar!
Senti meu rosto queimar. Olhei para Damião esperando que ele me defendesse. Ele só abaixou a cabeça e ficou mexendo no celular.
Na volta pra casa, o silêncio era tão pesado que parecia ocupar todo o carro. Eu olhava pela janela e pensava: “É isso? É essa vida que eu quero?”
Naquela noite, sentei na cama e falei:
— Damião, a gente não tá feliz. Nem você nem eu. Por que a gente insiste?
Ele demorou pra responder. Quando falou, foi quase um sussurro:
— Porque é mais fácil do que recomeçar.
Chorei baixinho até dormir.
Os dias seguintes foram um arrastar de pés pela casa. Eu evitava chegar cedo do trabalho. Ele saía cada vez mais para fazer corridas à noite. Comecei a conversar com minha amiga Paula pelo WhatsApp:
— Mari, você precisa pensar em você — ela escreveu.
— E se eu nunca conseguir ser feliz sozinha? — respondi.
— Pior é ser infeliz acompanhada.
Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça.
Uma tarde, cheguei em casa e encontrei Damião dormindo no sofá, camisa suja de suor e cheiro forte de cigarro. Olhei para ele e senti pena — dele e de mim mesma. Sentei ao lado dele e falei:
— Eu vou embora, Damião.
Ele abriu os olhos devagar, como se não entendesse.
— Como assim?
— Eu vou pra casa da minha mãe até conseguir um lugar pra mim. Não dá mais.
Ele não chorou, não implorou. Só ficou olhando pro teto.
Arrumei minhas coisas em duas malas velhas e fui embora naquela mesma noite. Minha mãe me recebeu com aquele abraço apertado de quem sabe o quanto dói desistir de um sonho.
Os primeiros dias foram horríveis. Me sentia fracassada toda vez que alguém perguntava por Damião na rua ou quando via casais andando de mãos dadas na praça do bairro. Tive crises de choro escondida no quarto da infância, olhando as fotos antigas na parede.
Mas aos poucos fui percebendo que eu ainda existia além do casamento. Voltei a sair com amigas, comecei a fazer terapia pelo SUS e até me inscrevi num curso online de literatura brasileira — sempre sonhei em escrever um livro.
Damião me mandava mensagens de vez em quando:
— Você tá bem?
Eu respondia só o necessário.
Um dia ele apareceu na porta da minha mãe:
— Mariana, desculpa por tudo…
Eu olhei pra ele e vi um homem cansado, mas não era mais o meu homem. Não era mais meu sonho — nem meu pesadelo.
— Tá tudo bem, Damião. Só segue sua vida.
Ele foi embora devagarinho, como quem sabe que perdeu algo importante mas não sabe bem o quê.
Hoje faz seis meses que saí daquela casa. Ainda sinto falta de algumas coisas — do cheiro do café dele pela manhã, das piadas ruins no fim do dia — mas não sinto falta do peso no peito nem do medo de ser invisível dentro do próprio lar.
Às vezes me pergunto: será que algum dia vou acreditar no amor de novo? Ou será que amar a si mesma já é suficiente?
E você? Já sentiu que precisou se perder para se reencontrar?