Meu Anjo da Guarda
— Ela, atende logo esse telefone! — gritou minha mãe, Dona Marianna, da cozinha, enquanto o cheiro de arroz queimado invadia a sala. Eu olhava para o visor piscando: Nikolas de novo. Meu coração batia forte, mas não era de saudade. Era de medo. Medo do que ele poderia dizer, medo do que eu mesma poderia responder.
Apertei o botão de desligar e joguei o celular no outro canto do sofá, como se aquilo pudesse afastar os problemas. Mas não podia. Eles estavam ali, sentados comigo, pesando no ar da nossa casa pequena em Osasco. Eu só queria uma ligação, uma única ligação de André, mas ele parecia ter sumido do mundo desde aquela noite fatídica.
Minha mãe entrou na sala, enxugando as mãos no avental encardido. — Ou você atende ou desliga de vez esse aparelho! — Ela bateu a porta com força, como se quisesse trancar meus sentimentos lá fora.
Suspirei fundo e olhei para o teto descascado. “Por que tudo tem que ser tão difícil?”, pensei. Lembrei do último domingo, quando Nikolas apareceu na porta de casa, bêbado, gritando meu nome. Meu irmão mais novo, Lucas, chorava no quarto ao lado. Minha mãe tentava acalmar a situação, mas só piorava. Nikolas dizia que me amava, que eu era tudo pra ele, mas eu sabia que amor não era aquilo.
— Elizabete, você precisa decidir o que quer da vida — disse minha mãe naquela noite. — Não dá pra ficar fugindo pra sempre.
Mas como decidir quando tudo parece errado? André era meu porto seguro, meu anjo da guarda. Ele me fazia rir das coisas mais bobas e prometeu que ia me tirar daquela casa um dia. Só que depois daquela briga com Nikolas, ele sumiu. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Só silêncio.
O telefone vibrou de novo. Mensagem de Nikolas: “Me atende, por favor. Preciso falar com você.” Senti um nó na garganta. Queria gritar, queria sumir. Mas fiquei ali, imóvel.
De repente, Lucas entrou correndo na sala, os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Mana, por que você tá triste?
— Não é nada, Luquinha. Vai brincar lá fora.
Ele me abraçou forte e sussurrou:
— Eu gosto quando você sorri.
Aquilo me desmontou por dentro. Eu precisava ser forte por ele, pelo menos.
No dia seguinte, acordei cedo pra ir trabalhar no mercadinho do Seu Jorge. O caminho era sempre o mesmo: rua esburacada, vizinhos reclamando da vida e o cheiro de pão fresco vindo da padaria da Dona Cida. Mas naquele dia tudo parecia mais pesado.
No caixa, mal conseguia sorrir pros clientes. Pensava em André o tempo todo. Será que ele tinha desistido de mim? Será que Nikolas tinha razão quando dizia que ninguém nunca ia me amar de verdade?
No fim do expediente, sentei no banco da praça e chorei baixinho. Senti alguém se aproximar e me assustei.
— Elizabete?
Era André. Magro, olheiras profundas, mas o mesmo sorriso tímido de sempre.
— Por onde você andou? — perguntei com a voz embargada.
Ele sentou ao meu lado e ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu precisei pensar… Sobre nós dois… Sobre tudo isso.
— E chegou a alguma conclusão?
Ele segurou minha mão.
— Eu te amo, mas não sei se consigo lidar com tudo isso agora. Sua família… O Nikolas…
Senti uma raiva crescer dentro de mim.
— Então é isso? Você vai me abandonar também?
Ele abaixou a cabeça.
— Não é abandono… É medo. Medo de não conseguir te proteger.
Ficamos em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade. O sol se punha atrás dos prédios feios do bairro e eu sentia que minha vida também estava escurecendo.
Quando cheguei em casa naquela noite, minha mãe estava sentada à mesa com Lucas dormindo no colo.
— Você precisa ser forte — ela disse sem olhar pra mim. — A vida não vai te dar nada de graça.
Sentei ao lado dela e chorei tudo o que tinha guardado por anos: a dor de não ser ouvida, o medo de ficar sozinha, a raiva de depender dos outros pra ser feliz.
Naquela madrugada, decidi que nada nem ninguém ia decidir meu destino por mim. Peguei o celular e escrevi uma mensagem pra Nikolas:
“Por favor, não me procure mais. Preciso cuidar de mim agora.”
E pra André:
“Se um dia você quiser tentar de novo, estarei aqui. Mas não vou mais esperar por ninguém.”
No dia seguinte, acordei diferente. O céu continuava cinza sobre Osasco, mas dentro de mim havia uma luz nova. Fui trabalhar sorrindo e até Seu Jorge percebeu:
— Que milagre é esse hoje?
Sorri e respondi:
— Resolvi cuidar de mim mesma primeiro.
A vida não ficou mais fácil depois disso. Nikolas ainda tentou me procurar algumas vezes; minha mãe continuou reclamando; Lucas ainda chorava às vezes à noite. Mas eu aprendi a ser meu próprio anjo da guarda.
Hoje olho pra trás e vejo quantas vezes esperei ser salva por alguém — por André, por minha mãe ou até por Nikolas — quando na verdade só eu podia me salvar.
Será que a gente aprende a se amar sozinho ou precisa mesmo quebrar a cara tantas vezes? Quantas Elizabetes existem por aí esperando um anjo da guarda quando talvez o anjo esteja dentro delas mesmas?