A Fome de Zuleika: Memórias de um Prédio em Recife
— Mãe, por que a Zuleika sempre pede pão pra gente? — perguntei baixinho, enquanto via minha vizinha de porta encostada, olhos grandes e fundos, esperando que alguém notasse sua presença.
Minha mãe suspirou, cortando o pão francês ao meio, espalhando margarina com cuidado. — Porque às vezes, filha, tem gente que não tem o que comer em casa. — Ela olhou pra mim com aquele olhar que misturava tristeza e raiva do mundo. — Vai lá, leva pra ela.
Eu tinha oito anos e morava com meus pais num prédio antigo no bairro de Santo Amaro, Recife. O aluguel era barato, mas as paredes eram finas como papel. Dava pra ouvir tudo: as brigas, os risos, os choros abafados. E o que mais se ouvia do apartamento ao lado era o silêncio pesado de quem não tinha forças nem pra reclamar.
Zuleika era magrinha, cabelo sempre preso num rabo de cavalo torto, roupa surrada. Ela tinha sete anos, mas parecia menor. Quando abria a porta, o cheiro forte de álcool vinha junto com ela. O pai dela, seu Adalberto, era conhecido no prédio inteiro: vivia caído na calçada ou gritando com a filha por qualquer motivo. A mãe tinha ido embora quando Zuleika era bebê. Diziam que não aguentou a vida dura nem o marido bêbado.
Naquela manhã, entreguei o pão pra Zuleika. Ela sorriu tímida e mordeu com pressa, como se alguém pudesse tomar dela a qualquer momento.
— Obrigada, Ana. — A voz dela era fina, quase um sussurro.
— Você já tomou café hoje? — perguntei.
Ela balançou a cabeça. — Papai tá dormindo ainda.
Eu queria perguntar mais, mas minha mãe me chamou de volta. Fiquei olhando Zuleika sentada no degrau da porta, comendo devagar o resto do pão, como se quisesse fazer durar.
Os dias passavam e a rotina se repetia: Zuleika batia na nossa porta quase toda manhã. Às vezes pedia pão, às vezes só queria conversar. Minha mãe sempre dava um jeito de arrumar alguma coisa pra ela comer: um pedaço de bolo amanhecido, um copo de leite em pó dissolvido na água. Meu pai não gostava muito disso.
— Não podemos resolver o problema do mundo todo — ele resmungava, lendo o jornal velho na mesa da cozinha.
— Mas podemos ajudar quem tá do nosso lado — minha mãe retrucava.
Eu via nos olhos dela uma mistura de compaixão e impotência. Porque não era só fome de comida que Zuleika sentia. Era fome de colo, de segurança, de alguém que perguntasse como foi o dia dela na escola.
Um dia ouvi gritos vindos do apartamento ao lado. Era seu Adalberto berrando:
— Cadê o dinheiro que tava aqui? Sua peste! Vai me roubar agora?
Zuleika chorava baixinho. Minha mãe largou tudo e correu pra porta. Eu fiquei atrás dela, coração disparado.
— Adalberto! — ela gritou. — Deixa a menina em paz!
Ele abriu a porta com força, olhos vermelhos e hálito forte de cachaça.
— Cuida da sua vida, dona Marta! — ele cuspiu as palavras. — Minha filha é problema meu!
Minha mãe não recuou.
— Se você encostar um dedo nela eu chamo a polícia!
Ele riu debochado e bateu a porta na nossa cara. Ficamos ali paradas no corredor, ouvindo Zuleika soluçar do outro lado da parede.
Naquela noite não dormi direito. Fiquei pensando se Zuleika estava bem, se tinha conseguido jantar alguma coisa ou se tinha apanhado do pai. No dia seguinte ela apareceu com um roxo no braço e um sorriso forçado.
— Foi só uma queda — disse baixinho quando perguntei.
Eu sabia que era mentira. Mas o que eu podia fazer? Eu era só uma criança.
O tempo foi passando e as coisas só pioravam. Seu Adalberto perdeu o emprego de porteiro porque chegou bêbado demais pro serviço. Começou a vender as poucas coisas que tinha em casa: primeiro foi a televisão velha, depois o ventilador quebrado. Quando não tinha mais nada pra vender, sumia por dias e deixava Zuleika sozinha no apartamento escuro.
Minha mãe tentava ajudar como podia: levava comida escondida pra ela, dava banho quando o cheiro ficava forte demais. Mas também tinha medo do pai dela descobrir e fazer alguma besteira.
Um dia Zuleika apareceu na escola com os cabelos cortados tortos e uma blusa muito grande pra ela. A professora chamou minha mãe pra conversar.
— Dona Marta, a situação dessa menina é grave — disse a professora Luciana. — Já fiz denúncia pro Conselho Tutelar, mas eles demoram pra agir… E enquanto isso?
Minha mãe chorou naquela noite. Disse que queria pegar Zuleika pra criar como filha, mas sabia que não era tão simples assim.
No Natal daquele ano fizemos uma ceia simples: arroz com passas, frango assado e farofa. Minha mãe chamou Zuleika pra comer com a gente. Ela chegou tímida, olhando pro chão.
— Pode comer à vontade, filha — disse minha mãe.
Zuleika comeu três pratos cheios e ainda pediu mais farofa. Depois ficou sentada olhando as luzinhas piscando na janela.
— Você acredita em Papai Noel? — perguntei.
Ela sorriu triste.
— Acho que ele esqueceu onde eu moro…
Naquela noite desejei com força que alguém viesse salvar Zuleika daquele sofrimento todo. Mas ninguém veio.
Alguns meses depois, seu Adalberto foi preso depois de uma briga feia num bar da esquina. O Conselho Tutelar finalmente apareceu e levou Zuleika pra um abrigo. Nunca mais vi ela depois disso.
Por muito tempo fiquei me perguntando se ela estava bem, se tinha encontrado uma família melhor ou se continuava sentindo fome — de comida e de amor.
Hoje sou adulta e ainda carrego essa sensação amarga de impotência diante da dor dos outros. Às vezes ajudo como posso: faço doações, participo de campanhas solidárias… Mas sempre lembro dos olhos tristes da minha vizinha de infância e me pergunto:
Será que existe mesmo limite para nossa responsabilidade pelo sofrimento alheio? Até onde vai o nosso dever de ajudar quem vive à sombra dos erros dos outros?