A Canção Debaixo da Estação: Um Encontro com o Passado
— Não acredito que é você, Rafael! — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto a multidão me empurrava de um lado para o outro no túnel da estação Sé. O cheiro de café barato misturado ao mofo das paredes descascadas me fazia lembrar dos dias em que eu sonhava em fugir dali, mas nunca imaginei que seria ele quem encontraria no meio desse caos.
Rafael ergueu os olhos, surpreso, e por um instante, o tempo parou. Ele ainda segurava a velha guitarra, os dedos calejados dedilhando uma melodia triste. O boné surrado escondia parte do rosto, mas não os olhos castanhos que um dia me prometeram o mundo. — Catarina? — ele murmurou, como se dissesse o nome de alguém que já não existe.
Eu quis correr, fugir daquele passado que me assombrava, mas minhas pernas não obedeceram. Fiquei ali, parada, sentindo o coração bater tão forte que temi que todos ao redor pudessem ouvir. Lembrei do dia em que nos separamos, há quase dez anos, quando minha mãe me proibiu de vê-lo porque “ele não era de família boa”. Eu obedeci, como sempre fiz, mas nunca esqueci.
— Você ainda toca aquela música? — perguntei, tentando soar casual, mas minha voz falhou. Ele sorriu de lado, um sorriso triste, e começou a tocar os primeiros acordes de “O Mundo é um Moinho”, do Cartola. A melodia ecoou pelo túnel, abafando o barulho dos trens e das pessoas apressadas. Senti as lágrimas ameaçando cair, mas me segurei. Não queria parecer fraca, não diante dele.
— Por que você sumiu, Catarina? — ele perguntou, sem me olhar nos olhos. — Eu procurei por você. Fui até sua casa, mas sua mãe disse que você tinha ido estudar fora.
Engoli em seco. Minha mãe sempre foi boa em mentir para proteger a família, ou pelo menos era o que ela dizia. — Eu… Eu não tive escolha, Rafa. Minha mãe achou que você não era bom pra mim. Disse que eu tinha que pensar no meu futuro, na faculdade, no trabalho… — minha voz se perdeu no meio da frase. Eu queria dizer que ela estava errada, que eu sentia falta dele todos os dias, mas não consegui.
Ele balançou a cabeça, os olhos marejados. — Eu tentei, Cat. Tentei ser alguém melhor, mas a vida não facilitou. Meu pai morreu, minha mãe ficou doente, e eu tive que largar tudo pra cuidar dela. A música foi o que me restou.
O silêncio entre nós era pesado, quase insuportável. As pessoas passavam, algumas jogavam moedas no estojo da guitarra, outras nem olhavam. Eu queria abraçá-lo, dizer que sentia muito, mas não sabia se tinha esse direito.
— Você está bem? — perguntei, finalmente. Ele deu de ombros.
— Sobrevivendo. E você? — o olhar dele era duro, mas havia um brilho de esperança ali, como se ainda esperasse ouvir que eu também não tinha seguido em frente.
— Trabalho num escritório de advocacia, moro sozinha, mas… — hesitei. — Sinto que falta alguma coisa. Às vezes acho que deixei minha vida naquele portão, no dia em que fui embora.
Ele sorriu, dessa vez com mais ternura. — Eu também. Acho que a gente nunca se despede de verdade do que ama.
O barulho do trem chegando me fez lembrar que eu tinha uma reunião importante. Olhei para o relógio, mas não consegui me mover. — Você ainda mora aqui perto?
— Moro, sim. No mesmo bairro, mas agora é só eu e minha mãe. Ela tá piorando, Cat. O hospital público não dá conta, e eu faço o que posso com a música. Às vezes, penso em desistir, mas aí lembro de você dizendo que eu era forte.
Meu peito apertou. Eu queria ajudá-lo, queria voltar no tempo e fazer tudo diferente. Mas o passado não volta, e o presente é cruel.
— Me deixa te ajudar, Rafa. Eu posso ver se consigo um advogado pra sua mãe, ou talvez um médico… — comecei a falar, mas ele me interrompeu.
— Não quero sua pena, Cat. Só queria entender por que você não lutou por nós. Por que você deixou sua mãe decidir tudo?
As palavras dele me cortaram como faca. Eu sempre fui a filha obediente, a que fazia tudo certo, mas nunca fui feliz. Minha mãe dizia que era para o meu bem, mas será que era mesmo?
— Eu era jovem, Rafa. Tinha medo de decepcionar minha família, de errar. Mas hoje eu vejo que o maior erro foi não lutar por você, por nós.
Ele abaixou a cabeça, os ombros caídos. — A vida é assim, né? A gente faz escolhas e depois tem que viver com elas.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. O túnel parecia mais escuro, mais frio. Eu queria dizer tanta coisa, mas as palavras não saíam.
— Você ainda me ama? — ele perguntou, de repente, a voz baixa, quase um sussurro.
Meu coração disparou. Eu queria mentir, dizer que não, que já tinha superado, mas não consegui. — Sim, Rafa. Sempre amei.
Ele sorriu, e por um instante, vi o garoto que conheci na escola, cheio de sonhos e esperança. — Então por que não tenta de novo? — ele perguntou, os olhos brilhando.
Eu olhei para ele, para a guitarra, para o túnel cheio de gente apressada. Pensei em tudo que tinha perdido, em tudo que ainda podia ganhar. — Eu tenho medo, Rafa. Medo de errar de novo, de magoar minha mãe, de não dar conta.
Ele segurou minha mão, os dedos quentes apesar do frio. — A vida é feita de riscos, Cat. Se a gente não arrisca, nunca vai saber o que poderia ter sido.
O trem chegou, as portas se abriram. Eu tinha que ir, mas não queria soltar a mão dele. — Me espera aqui amanhã? — perguntei, a voz embargada.
— Sempre esperei, Cat. Sempre.
Entrei no trem, o coração apertado, as lágrimas finalmente caindo. Olhei para trás e vi Rafael acenando, a guitarra pendurada no ombro, o sorriso triste nos lábios. Sentei no banco, olhando o reflexo no vidro, e me perguntei quantas vezes deixamos a felicidade escapar por medo, por orgulho, por obediência cega.
Naquela noite, liguei para minha mãe. — Mãe, preciso conversar. Sobre o passado, sobre o Rafael, sobre tudo que deixei pra trás. — Ela ficou em silêncio, mas eu sabia que era hora de enfrentar meus fantasmas.
No dia seguinte, voltei ao túnel. Rafael estava lá, tocando a mesma música. Sentei ao lado dele, sem dizer nada, apenas ouvindo. Pela primeira vez em anos, senti que estava exatamente onde deveria estar.
Será que a gente consegue recomeçar, mesmo depois de tanta dor? Ou será que algumas feridas nunca cicatrizam? O que vocês acham: vale a pena arriscar tudo por um amor antigo?