Janelas Abertas, Cortinas Fechadas
— Bom dia. — Minha voz saiu rouca, quase irreconhecível, ecoando pelo apartamento vazio como se fosse de outra pessoa. Não era um cumprimento, era um teste. Eu precisava saber se ainda conseguia falar, se ainda existia alguém aqui dentro de mim. O sol da manhã entrava pelas janelas abertas, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar, mas as cortinas continuavam fechadas, como se tentassem proteger o pouco de mim que restava.
Desde que o Pedro foi embora, a casa ficou grande demais. Ele não levou muita coisa, só uma mala e o violão, mas levou com ele toda a alegria que um dia morou aqui. Minha mãe dizia que eu precisava reagir, que não podia me entregar desse jeito. Mas como reagir quando tudo o que eu conhecia desmoronou de uma hora para outra? Eu me sentia como aquelas cortinas: fechada, tentando bloquear a luz, o mundo, as lembranças.
Naquela manhã, o telefone tocou. O som estridente me fez pular do sofá. Era minha irmã, Luciana. — Ágata, você precisa sair desse apartamento. Vem pra cá, pelo menos pra almoçar. — Eu hesitei. Não queria ver ninguém, não queria responder perguntas. Mas a voz dela era firme, quase uma ordem. — Não vou aceitar não como resposta. — Desligou antes que eu pudesse inventar uma desculpa.
Fui até o espelho do banheiro. O rosto que me encarava parecia mais velho, os olhos fundos, o cabelo desgrenhado. Lavei o rosto, prendi o cabelo num coque apressado e vesti a primeira roupa limpa que encontrei. No caminho até a casa da Luciana, cada passo era um desafio. O barulho da cidade, os ônibus lotados, as pessoas apressadas — tudo parecia tão distante da minha realidade.
Chegando lá, fui recebida pelo cheiro de feijão fresco e o barulho da televisão ligada no jornal. Minha sobrinha, Sofia, correu para me abraçar. — Tia, você veio! — O abraço dela foi como um fio de esperança, um lembrete de que ainda havia amor no mundo. Luciana me olhou com aquele olhar de irmã mais velha, misto de preocupação e alívio. — Senta, vai. Coma alguma coisa. —
Durante o almoço, tentei participar da conversa, mas minha mente vagava. Falavam sobre política, sobre o preço do arroz, sobre o vizinho que comprou um carro novo. Eu só pensava em como tudo parecia tão normal para eles, enquanto dentro de mim era só caos. Em determinado momento, Luciana segurou minha mão por baixo da mesa. — Você não precisa fingir, Ágata. Eu sei que dói. —
As lágrimas vieram sem aviso. Chorei ali mesmo, na mesa da cozinha, cercada pela família. Sofia me abraçou de novo, Luciana fez um carinho no meu cabelo. — Vai passar, você vai ver. — Mas eu não acreditava. Como poderia passar? Pedro era tudo pra mim. Ele era meu porto seguro, meu melhor amigo, meu amor. E agora era só ausência.
Nos dias seguintes, tentei seguir o conselho da Luciana. Saí de casa para caminhar, fui ao mercado, até tentei voltar ao trabalho. Mas tudo parecia pesado demais. No escritório, meus colegas evitavam meu olhar, como se minha tristeza fosse contagiosa. Meu chefe, Seu Antônio, me chamou na sala dele. — Ágata, sei que não está fácil, mas você precisa tentar. Se quiser uns dias a mais, pode tirar. — Agradeci, mas sabia que fugir não ia resolver.
Uma noite, deitada na cama, ouvi barulho vindo do apartamento ao lado. Era Dona Cida, a vizinha, brigando com o filho adolescente. — Você acha que a vida é fácil? Vai estudar, menino! — Sorri, pela primeira vez em semanas. Aquela rotina, aquelas pequenas tragédias cotidianas, me lembraram que todo mundo carrega suas dores. Talvez eu não fosse tão diferente assim.
No sábado, resolvi abrir as cortinas. O sol entrou com força, iluminando cada canto da sala. Olhei para as fotos na estante: eu e Pedro na praia, no aniversário da Sofia, no Natal passado. Peguei uma delas e sentei no chão. — Por que você foi embora, Pedro? — Perguntei em voz alta, como se ele pudesse responder. — O que eu fiz de errado? —
A resposta não veio, mas senti um alívio estranho. Talvez eu nunca soubesse o motivo, talvez nunca entendesse. Mas precisava seguir em frente. Liguei para Luciana. — Mana, posso passar aí hoje? — Ela sorriu do outro lado da linha. — Claro, vem sim. Traz um bolo, tá?
Na casa dela, ajudei Sofia com a lição de casa. — Tia, por que você tá triste? — Ela perguntou, com a inocência de quem ainda não conhece as dores do mundo. — Porque às vezes a gente perde pessoas que ama, Sofia. Mas a gente aprende a viver de novo. — Ela sorriu e me abraçou. — Eu te amo, tia. —
Aos poucos, fui voltando a viver. Comecei a frequentar um grupo de apoio no bairro, onde conheci outras pessoas passando por perdas. Dona Marta perdeu o marido para o câncer, Seu João foi abandonado pelos filhos. Cada história era um espelho, um lembrete de que ninguém está sozinho na dor.
Certa tarde, encontrei Pedro na rua. Ele estava diferente, mais magro, o olhar cansado. — Oi, Ágata. — Oi, Pedro. — O silêncio entre nós era pesado, cheio de tudo o que não foi dito. — Eu sinto muito. — Ele disse, finalmente. — Eu também. — Respondi. Não havia mais nada a dizer. Segui meu caminho, sentindo um peso sair dos meus ombros.
Hoje, meses depois, ainda sinto falta dele. Mas aprendi a abrir as janelas, a deixar o sol entrar. Aprendi que a dor não some, mas a gente aprende a conviver com ela. Minha família continua sendo meu porto seguro, e cada dia é uma pequena vitória.
Às vezes me pergunto: quantas pessoas vivem atrás de cortinas fechadas, com medo de encarar a vida lá fora? Será que um dia todos nós teremos coragem de abrir as janelas e deixar a luz entrar?