Não Me Deixe Cair, Pai
— Você nunca faz nada direito, Mariana! — A voz do meu pai ecoou pela cozinha, tão cortante quanto o barulho do prato que ele acabara de arremessar na pia. Minha mãe, como sempre, baixou a cabeça. Eu, com doze anos, só conseguia segurar as lágrimas e apertar o caderno contra o peito.
Na escola, meus colegas me chamavam de “a certinha”. Eu era a primeira a entregar os trabalhos, a última a sair da sala. Mas em casa, nada parecia suficiente. Meu pai, Antônio, era respeitado no bairro: sorria para os vizinhos, ajudava nas festas da igreja e até dava doces para as crianças na rua. Só dentro de casa ele se transformava. Comigo e com minha mãe, era só grito e cobrança.
Lembro de uma vez, quando tinha oito anos, que cheguei animada com um desenho que fiz na escola. Mostrei para ele, esperando um elogio. Ele olhou de relance e disse: — Você devia ter caprichado mais. Olha esse sol torto. — O papel amassou na minha mão junto com minha vontade de tentar de novo.
Minha mãe, Vera, era uma sombra da mulher que já foi. Antes de casar, ela sonhava em ser professora. Depois que eu nasci, largou tudo para cuidar da casa e tentar agradar meu pai. Às vezes eu a ouvia chorando baixinho no banheiro. Nunca tive coragem de perguntar por quê.
Os domingos eram os piores. Meu pai fazia questão de almoçarmos juntos — mesa posta, silêncio absoluto. Se eu derrubasse um garfo ou demorasse para passar o arroz, vinha o sermão: — Presta atenção! Não quero filha relapsa nessa casa.
Com os outros, ele era outro homem. Lembro da festa junina do bairro: vi meu pai brincando com a filha da vizinha, rindo alto enquanto ajudava a menina a pescar um brinquedo na barraca. Meu coração apertou. Por que comigo era diferente?
No ensino médio, comecei a entender melhor as coisas. Uma tarde, cheguei mais cedo em casa e ouvi meus pais discutindo:
— Antônio, ela é só uma menina! — minha mãe implorava.
— Não quero que ela cresça mole igual você! — ele respondeu seco.
Naquele dia, algo mudou em mim. Passei a observar mais. Notei como minha mãe se encolhia perto dele, como evitava contrariá-lo até nas pequenas coisas. Notei também como ele nunca me olhava nos olhos quando falava comigo.
A pressão aumentou quando comecei a pensar no vestibular. Eu queria fazer Letras, mas meu pai dizia que isso não dava futuro:
— Vai ser professora igual sua mãe? Pra ganhar uma mixaria? Você vai fazer Direito ou Medicina!
Tentei argumentar:
— Pai, eu gosto de escrever…
— Gosta? Gosta? Gostar não paga conta! — ele cortou.
Minha mãe tentou me consolar depois:
— Filha, às vezes é melhor não contrariar seu pai…
— Mas mãe, por quê? Ele nunca está satisfeito comigo!
Ela suspirou fundo:
— Ele foi criado assim… O pai dele era pior ainda.
Naquele momento percebi que havia um ciclo ali — um ciclo de dor que vinha de gerações. Mas isso não diminuía minha mágoa.
No último ano do ensino médio, comecei a sair mais tarde da escola só para não voltar pra casa tão cedo. Foi quando conheci Lucas, um colega da turma de literatura. Ele era leve, ria fácil e me fazia sentir vista.
Um dia, Lucas me convidou para ir ao sarau do bairro. Cheguei tarde em casa e meu pai estava me esperando na sala:
— Onde você estava?
— Fui ao sarau com uns amigos…
— Amigos? Ou namorado? — ele cuspiu a palavra como se fosse veneno.
— Pai, eu só quero viver um pouco…
Ele se levantou tão rápido que derrubou a cadeira:
— Enquanto você morar aqui vai seguir minhas regras!
Naquela noite chorei até dormir. Senti raiva dele, mas também de mim mesma por não conseguir enfrentá-lo.
No dia do vestibular, sentei na mesa da cozinha com o formulário na mão. Meu pai entrou e perguntou:
— Já decidiu?
Olhei nos olhos dele pela primeira vez em anos:
— Vou fazer Letras.
O silêncio foi ensurdecedor. Ele saiu batendo a porta.
Passei no vestibular e comecei a trabalhar numa biblioteca para ajudar nas despesas. Meu pai parou de falar comigo por meses. Minha mãe tentava fazer a ponte entre nós:
— Ele vai entender uma hora…
Mas eu já não tinha tanta esperança.
No segundo ano da faculdade, minha mãe adoeceu. Câncer de mama. Passei a dividir meu tempo entre os estudos e o hospital. Meu pai parecia perdido — sem saber como cuidar dela ou de mim.
Uma noite, já no hospital, minha mãe me chamou:
— Filha… não guarda mágoa do seu pai. Ele não sabe amar diferente.
Eu chorei baixinho:
— Mas eu só queria que ele tivesse orgulho de mim…
Ela sorriu fraco:
— Eu tenho.
Depois que minha mãe se foi, meu pai ficou ainda mais fechado. Um dia encontrei uma caixa com cartas antigas dela — cartas que ela nunca enviou para ninguém. Em uma delas ela escrevia: “Queria que Antônio visse Mariana como ela realmente é: forte, sensível e cheia de sonhos”.
Li aquilo em voz alta para ele numa tarde silenciosa:
— Pai… a mãe queria que o senhor me visse de verdade.
Ele chorou pela primeira vez na minha frente.
Hoje moro sozinha num apartamento pequeno em Belo Horizonte. Dou aulas numa escola pública e escrevo nas horas vagas. Meu pai ainda é distante, mas às vezes me liga para perguntar como estou.
Às vezes me pergunto: será que algum dia vou conseguir perdoar tudo? Ou será que carregar essa dor faz parte de quem eu sou agora?
E você? Já sentiu que precisava ser perfeito só pra merecer amor?