Entre Silêncios e Segredos: O Rosto no Terceiro Andar

— Ewa, quem é seu pai? — A pergunta de Kuba ecoou como um trovão no corredor do prédio, abafando até o barulho da televisão do vizinho. Eu parei, sentindo o coração disparar. Não era a primeira vez que alguém perguntava, mas vindo dele, do meu melhor amigo, do menino que me fazia rir nos dias mais cinzentos, doía diferente.

Olhei para cima, para as janelas do terceiro andar. Por um instante, juro que vi um rosto conhecido se esconder atrás da cortina. Meu peito apertou. Será que era ele? Ou era só minha imaginação querendo preencher o vazio?

— Não sei, Kuba — respondi baixinho, tentando controlar a voz trêmula. — Minha mãe nunca fala sobre isso.

Ele se aproximou, tocando de leve meu braço. — Você nunca perguntou?

Suspirei. — Já tentei. Ela sempre muda de assunto ou diz que não importa. Mas importa pra mim.

Kuba assentiu, compreensivo. — Se quiser, eu te ajudo a descobrir.

Sorri de leve, mas por dentro sentia um medo enorme. Descobrir a verdade podia ser pior do que viver com a dúvida.

Naquela noite, sentei à mesa da cozinha com minha mãe, Dona Lúcia. O cheiro de café fresco se misturava ao silêncio pesado entre nós. Ela mexia o açúcar na xícara com tanta força que parecia querer afogar alguma mágoa ali.

— Mãe… — comecei, hesitante. — Por que você nunca fala do meu pai?

Ela parou de mexer o café e me olhou com olhos cansados. — Porque não tem nada pra falar, Ewa. Ele foi embora antes de você nascer. Não faz diferença.

— Faz sim! Pra mim faz! — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Eu tenho direito de saber quem ele é!

Ela se levantou bruscamente, quase derrubando a cadeira. — Você só tem a mim! Isso não basta?

Corri pro quarto chorando. O som da porta batendo ecoou pelo apartamento pequeno. Senti raiva, tristeza e uma solidão imensa.

No dia seguinte, Kuba apareceu cedo na portaria.

— Vamos ao cinema hoje? — perguntou, tentando animar o clima.

— Não sei… Minha mãe não deixa eu sair à noite.

— Então vamos de dia! Eu compro os ingressos.

Olhei de novo para o terceiro andar. A cortina se mexeu. Senti um arrepio.

No cinema, tentei me distrair com o filme, mas minha cabeça estava longe. No caminho de volta, passamos pela praça onde os velhos do bairro jogavam dominó e as crianças corriam atrás de pipa.

— Ewa, você já pensou que talvez seu pai more perto? — Kuba arriscou.

— Já… Às vezes acho que ele pode ser alguém daqui mesmo. Tem um homem que sempre me olha estranho quando passo pela padaria.

Kuba ficou pensativo. — Quer investigar?

Dei de ombros. — Não sei se tenho coragem.

Naquela semana, comecei a reparar mais nas pessoas ao meu redor. O padeiro Seu Antônio sempre sorria pra mim, mas tinha um olhar triste. O síndico do prédio, Seu Jorge, era calado demais. Dona Marlene do 302 vivia cochichando com as vizinhas quando eu passava.

Numa tarde chuvosa, ouvi minha mãe discutindo com alguém no corredor. Abri a porta devagar e vi Dona Marlene falando baixo:

— Lúcia, ela já tá grande demais pra não saber…

Minha mãe respondeu entre dentes:

— Não se mete! Isso é problema meu!

Fechei a porta antes que me vissem e sentei no chão, abraçando os joelhos. Por que todo mundo parecia saber menos eu?

Na escola, as perguntas continuavam:

— Ewa, seu sobrenome é diferente do da sua mãe? — perguntou Camila.

— É sim… — respondi sem graça.

— Estranho…

Fui pra casa sentindo o peso dos olhares curiosos.

Numa noite insone, decidi vasculhar as gavetas da minha mãe enquanto ela dormia. No fundo de uma caixa velha encontrei uma foto amarelada: ela jovem ao lado de um homem alto, moreno, com olhos parecidos com os meus. Atrás da foto estava escrito: “Para sempre nós dois – 2007”.

Meu coração disparou. Era ele! Meu pai!

No dia seguinte, mostrei a foto para Kuba.

— Você já viu esse homem por aqui?

Ele olhou atentamente e balançou a cabeça.

— Não lembro… Mas podemos perguntar discretamente pros vizinhos.

Começamos nossa investigação pelo bairro. Perguntamos para Seu Antônio:

— Seu Antônio, o senhor conhece esse homem?

Ele olhou a foto e ficou pálido.

— Melhor esquecer esse assunto, menina…

Na padaria, Dona Cida cochichou com outra funcionária quando viu a foto.

No elevador, encontrei Dona Marlene:

— Dona Marlene… quem é esse homem?

Ela hesitou antes de responder:

— Ele era muito amigo da sua mãe… mas foi embora há muitos anos. Melhor perguntar pra ela.

Voltei pra casa decidida a enfrentar minha mãe.

— Mãe! Eu achei essa foto! Quem é ele? Por que você nunca falou dele?

Ela sentou na cama e chorou baixinho antes de responder:

— Ele se chama Ricardo. Foi meu grande amor… Mas quando descobriu que eu estava grávida de você, ficou com medo e sumiu. Eu tentei seguir em frente sozinha… Achei que te protegeria escondendo isso.

Senti um misto de raiva e compaixão. — Mas eu precisava saber! Sempre senti esse vazio…

Ela me abraçou forte. — Me perdoa, filha… Eu só queria te poupar da dor que eu senti.

Nos dias seguintes, tentei encontrar Ricardo pelas redes sociais e registros antigos do bairro. Descobri que ele tinha mudado para outra cidade no interior de Minas Gerais.

Kuba ficou ao meu lado em cada passo dessa busca.

— Você vai atrás dele? — perguntou ele numa tarde em que assistíamos ao pôr do sol na laje do prédio.

Fiquei em silêncio por um tempo antes de responder:

— Não sei… Tenho medo do que vou encontrar. E se ele não quiser me ver?

Kuba segurou minha mão. — Você já foi muito corajosa até aqui. O resto é só mais um passo.

Naquela noite sonhei com Ricardo batendo à nossa porta e minha mãe sorrindo aliviada. Acordei chorando e percebi que talvez nunca tivesse todas as respostas ou o final feliz dos filmes. Mas pelo menos agora sabia quem eu era e de onde vinha.

Hoje olho para o terceiro andar e vejo apenas uma janela comum. O rosto misterioso sumiu junto com meus medos mais antigos. Ainda tenho dúvidas e dores, mas também tenho coragem para enfrentá-las.

Será que algum dia vou conseguir perdoar minha mãe completamente? Ou será que certos segredos são mesmo necessários para nos proteger?