Eu Teria Escolhido Você: Entre o Amor e o Destino em São Paulo

— Você não entende, mãe! Eu não vou ficar presa aqui, igual a senhora ficou a vida inteira! — gritei, sentindo minha voz tremer, enquanto minha mãe me olhava com olhos marejados, segurando o pano de prato com força.

A cozinha da nossa casa em Sorocaba parecia menor naquele instante. O cheiro de café passado misturava-se ao peso das palavras não ditas. Meu pai, como sempre, não estava — provavelmente no bar da esquina, afogando as frustrações dele. Eu queria mais. Eu precisava de mais. E foi por isso que, aos 18 anos, fiz as malas e fui para São Paulo estudar Letras na USP.

No primeiro dia de aula, perdida entre corredores e sotaques diferentes, vi Camila. Ela tinha um sorriso largo e olhos castanhos que pareciam enxergar além da superfície. Sentei ao lado dela na aula de Literatura Brasileira. Quando o professor perguntou sobre Clarice Lispector, ela respondeu com uma paixão que me fez corar.

— Você gosta mesmo disso tudo? — perguntei no intervalo.

Ela riu. — Gosto de tudo que me faz sentir viva. E você?

— Eu só quero fugir de onde vim — confessei.

A partir daquele dia, éramos inseparáveis. Dividíamos coxinhas na lanchonete do campus, estudávamos juntas na biblioteca até tarde e confidenciávamos nossos medos nas madrugadas do alojamento estudantil. Camila era de Campinas, filha única de uma professora e um bancário. Tinha uma família estruturada, mas sentia falta de liberdade. Eu tinha liberdade demais, mas faltava estrutura.

Com o tempo, percebi que o que sentia por Camila era mais do que amizade. Era desejo, era medo, era esperança. Mas como falar disso? No interior, aprendi que meninas gostam de meninos e ponto final. Minha mãe sempre dizia: “Filha, cuidado com as más companhias”. E meu pai… bem, ele nem sabia direito quem eu era.

Uma noite, depois de uma festa universitária, voltamos andando pela Avenida Paulista. A cidade parecia nossa. Camila segurou minha mão e eu não soltei.

— Você já pensou em ir embora daqui? — ela perguntou.

— Pra onde?

— Pra qualquer lugar onde a gente possa ser quem é de verdade.

Eu sorri, mas por dentro tremia. Tinha medo do que sentia e do que poderia perder.

No semestre seguinte, Camila começou a namorar um rapaz do nosso curso, o Rafael. Eu fingia estar feliz por ela, mas cada vez que os via juntos meu peito apertava. Uma noite, ela entrou no meu quarto chorando.

— Ele não entende nada sobre mim — disse entre soluços.

— O que você quer de verdade? — perguntei.

Ela me olhou nos olhos e por um segundo achei que fosse me beijar. Mas ela desviou o olhar e saiu correndo.

Os meses passaram e nossa amizade ficou tensa. Eu tentava me concentrar nos estudos, mas tudo me lembrava dela: o cheiro do perfume no travesseiro emprestado, as anotações rabiscadas nos meus cadernos, as músicas que ouvíamos juntas no Spotify.

No Natal daquele ano, voltei para Sorocaba. Minha mãe estava mais cansada do que nunca; meu pai nem apareceu para a ceia. Senti um vazio enorme. Peguei o celular e mandei mensagem para Camila:

“Sinto sua falta.”

Ela respondeu só no dia seguinte: “Eu também.”

Quando voltei para São Paulo, decidi que não podia mais viver pela metade. Procurei Camila no campus.

— Preciso falar com você — disse, ofegante.

Ela me levou até um banco escondido no jardim da faculdade.

— Eu te amo — falei de uma vez só.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos eternos.

— Eu também te amo — sussurrou.

Nos beijamos ali mesmo, escondidas entre as árvores e os olhares apressados dos outros alunos. Pela primeira vez na vida me senti inteira.

Mas a felicidade durou pouco. O boato se espalhou rápido pelo curso. Alguns colegas começaram a nos evitar; outros faziam piadinhas baixas quando passávamos. Rafael me encarou com ódio durante semanas.

O pior foi contar para minha mãe. Liguei para ela numa tarde chuvosa:

— Mãe… eu preciso te contar uma coisa…

O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor.

— Você tá dizendo que gosta de mulher? — ela perguntou, a voz embargada.

— Sim, mãe. Eu amo a Camila.

Ela chorou muito. Disse que era culpa dela, que eu tinha me perdido na cidade grande. Meu pai nunca mais falou comigo depois disso.

Camila também sofreu com a família dela. A mãe tentou entender; o pai ficou semanas sem olhar na cara dela. Passamos a nos apoiar ainda mais uma na outra.

Mas viver esse amor em São Paulo não era fácil. O preconceito vinha de todos os lados: dos colegas de classe, dos vizinhos do prédio estudantil, até dos professores mais conservadores. Uma vez fomos expulsas de um bar porque “não era lugar pra esse tipo de coisa”.

Apesar disso tudo, resistimos. Formamo-nos juntas, de mãos dadas no palco da colação de grau. Conseguimos um apartamento pequeno na Vila Mariana e começamos a construir nossa vida do nosso jeito: cheia de livros espalhados pela sala, plantas na varanda e sonhos colados na geladeira com ímãs coloridos.

Às vezes penso em tudo que deixei para trás: minha família, minha cidadezinha, até mesmo uma parte da minha infância inocente. Mas olho para Camila e sei que faria tudo de novo.

Hoje trabalho como professora numa escola pública da periferia; Camila é editora numa pequena livraria independente. Não somos ricas nem famosas, mas somos livres — livres para amar e para escolher quem queremos ao nosso lado.

Às vezes ainda dói lembrar do passado e das feridas abertas pela rejeição da família e da sociedade. Mas aprendi que coragem não é ausência de medo; é agir apesar dele.

Se eu pudesse voltar atrás… eu teria escolhido você de novo, Camila. Mesmo sabendo de tudo que viria depois.

Será que vale a pena abrir mão de tudo por amor? Ou será que o verdadeiro erro é viver uma vida que não é nossa?