Não Há Nada a Lamentar
— Você vai mesmo desistir da faculdade, Mariana? — A voz do meu pai ecoou mais alto do que o barulho das ondas batendo no cais. Eu não conseguia olhar nos olhos dele. O cheiro de maresia misturado ao suor das minhas mãos me fazia querer desaparecer.
Era fim de tarde em Salvador. O sol se punha atrás do Mercado Modelo, tingindo o céu de laranja e rosa. Eu e meu pai estávamos sentados no velho banco de madeira, o mesmo onde ele me levava para comer acarajé quando eu era criança. Agora, o silêncio entre nós era tão pesado quanto a decisão que eu precisava tomar.
— Pai, eu não sei se é isso que eu quero pra minha vida… — minha voz saiu baixa, quase sumindo no vento.
Ele suspirou fundo, passando a mão pelos cabelos já grisalhos. — Mariana, você sabe o quanto eu e sua mãe lutamos pra você chegar até aqui. Medicina não é pra qualquer um. Você tem talento, tem cabeça boa. Vai jogar tudo fora?
As palavras dele cortavam como faca. Eu sabia do sacrifício dos meus pais. Meu pai, motorista de ônibus; minha mãe, costureira. Sempre fizeram de tudo pra me dar o melhor. Mas cada vez que eu entrava naquela sala fria da faculdade, sentia que estava vivendo a vida de outra pessoa.
Naquela noite, voltei pra casa com o peito apertado. Minha mãe me esperava na cozinha, mexendo o feijão no fogão. — Filha, seu pai tá nervoso, mas ele só quer o seu bem. — Ela tentou sorrir, mas os olhos denunciavam a preocupação.
— Mãe, eu não quero decepcionar vocês… mas eu não sou feliz lá. Eu queria fazer Letras, escrever, dar aula… — confessei, sentindo as lágrimas ameaçando cair.
Ela largou a colher e veio até mim, me abraçando forte. — A gente só quer te ver feliz, Mariana. Mas pensa bem. No Brasil, professora sofre tanto… Você vai aguentar?
Fiquei em silêncio. Não sabia responder.
No dia seguinte, fui encontrar Lucas no Farol da Barra. Ele era meu melhor amigo desde o ensino médio — e também meu segredo mais bem guardado. Ninguém sabia que eu era apaixonada por ele desde sempre.
— E aí, Mari? Como foi com seus pais? — ele perguntou, jogando um pedaço de pão para as gaivotas que voavam baixo.
— Um desastre. Meu pai quase teve um troço quando falei em largar Medicina.
Lucas riu de leve. — Coragem você tem de sobra. Queria ter metade dessa ousadia pra contar pra minha mãe que sou gay.
Olhei pra ele surpresa. Ele nunca tinha falado disso abertamente comigo.
— Você nunca contou pra ela?
— Não… Ela acha que vou casar com uma menina da igreja e dar netos pra ela. — Ele deu de ombros, mas vi a tristeza nos olhos dele.
Ficamos em silêncio por um tempo, ouvindo só o barulho do mar e das crianças brincando na areia.
— Sabe, Mari… Às vezes acho que a gente passa a vida tentando agradar todo mundo menos a gente mesmo — ele disse.
Aquelas palavras ficaram martelando na minha cabeça durante dias.
As semanas passaram devagar. Em casa, o clima era tenso. Meu pai mal falava comigo; minha mãe tentava disfarçar a preocupação com sorrisos forçados e panelas cheias de comida que eu mal conseguia engolir.
Uma noite, ouvi meus pais discutindo baixinho no quarto:
— E se ela largar tudo? Vai ser mais uma frustrada nesse país… — reclamou meu pai.
— Mas se ela ficar infeliz? Vai adoecer… — respondeu minha mãe.
Chorei baixinho no meu quarto, abraçada ao travesseiro.
No meio desse caos todo, recebi uma mensagem inesperada: “Oi Mariana, tudo bem? Aqui é a professora Lúcia do cursinho. Vi seu texto publicado no jornal da escola e queria conversar sobre uma bolsa para Letras na UFBA.” Meu coração disparou. Era como se uma janela tivesse se aberto num quarto escuro.
No dia seguinte, fui até a universidade encontrar a professora Lúcia. Ela me recebeu com um sorriso caloroso:
— Mariana, seu texto me emocionou muito. Você tem talento raro. Já pensou em transformar isso numa carreira?
Fiquei sem palavras por alguns segundos. Senti vontade de chorar de alívio e medo ao mesmo tempo.
— Eu quero muito… mas tenho medo de decepcionar meus pais — confessei.
Ela segurou minha mão com firmeza:
— Filha, viver é correr riscos. Se você não tentar ser feliz agora, quando vai tentar?
Saí dali com uma mistura de esperança e culpa. Caminhei até o Elevador Lacerda olhando a cidade lá embaixo: tanta gente correndo atrás dos próprios sonhos ou fugindo deles…
Naquela noite, juntei coragem e sentei com meus pais na sala.
— Pai, mãe… Eu consegui uma bolsa pra Letras na UFBA. Sei que vocês sonharam com uma filha médica, mas eu preciso tentar ser feliz do meu jeito.
Meu pai ficou em silêncio por longos minutos. O relógio da parede parecia bater mais alto a cada segundo.
— Se é isso que você quer… então vai — ele disse finalmente, com os olhos marejados. — Só promete que vai dar o seu melhor.
Corri pra abraçá-lo chorando.
Os meses seguintes foram difíceis: adaptação à nova rotina, insegurança financeira (a bolsa mal dava pro transporte), olhares tortos dos parentes nas festas de família (“Largou Medicina pra virar professora?!”), mas pela primeira vez na vida eu sentia que estava no caminho certo.
Lucas também criou coragem e contou pra mãe sobre sua sexualidade. Não foi fácil; ela chorou muito no começo, mas aos poucos foi aceitando e entendendo que o amor do filho era maior do que qualquer preconceito.
Hoje, sentada novamente no cais de Salvador vendo as gaivotas brigando por migalhas de pão jogadas pelas crianças, penso em tudo que vivi nesses meses: as dores, os medos, as pequenas vitórias diárias.
Será que algum dia nossos pais vão entender que felicidade não cabe nos sonhos deles? Ou será que viver é sempre esse equilíbrio frágil entre o amor dos outros e o nosso próprio?