Entre Flores e Espinhos: O Silêncio de Mariana

— Mariana, atende logo esse telefone! — Ana grita do outro lado do quarto, a voz embargada de preocupação. Eu finjo que não ouço, os olhos fechados, tentando me agarrar ao último fio de paz que restou da noite. Mas o toque do celular é insistente, quase cruel, como se soubesse que eu não posso mais fugir da realidade.

Quando finalmente atendo, a voz da minha tia Vera vem trêmula do outro lado da linha:

— Mari… seu pai sumiu de novo. Já faz três dias. A polícia não faz nada. Você precisa vir aqui.

Sento na cama num pulo, o coração batendo tão forte que parece querer sair pela boca. Ana me encara, esperando uma explicação. Não consigo falar nada. Jogo o telefone na cama e começo a andar de um lado para o outro, sentindo o peso do mundo nas costas.

— O que foi agora? — Ana pergunta, já cansada de tantas notícias ruins.

— É o pai… sumiu de novo.

Ela suspira fundo, os olhos marejados. Desde que nossa mãe morreu, há dois anos, tudo desandou. Meu pai se perdeu no álcool e nas dívidas. Eu e Ana tentamos segurar as pontas, mas cada dia é uma batalha diferente.

No caminho para a casa da tia Vera, as ruas da Vila Brasilândia parecem ainda mais cinzentas. O ônibus lotado, o cheiro de suor e fritura misturado com o medo constante de ser assaltada. Olho pela janela e vejo crianças brincando na rua, como se nada pudesse tocá-las. Sinto inveja dessa inocência perdida.

Quando chego, tia Vera está sentada na varanda, cigarro entre os dedos e olhar perdido no horizonte.

— Ele saiu dizendo que ia resolver umas coisas… — ela começa, a voz rouca — Mas ninguém mais viu. Nem no bar do Zé ele apareceu.

— E a polícia?

— Disseram que ele é adulto, que pode ir onde quiser. Só vão investigar se aparecer morto.

Sinto um nó na garganta. Não posso aceitar isso. Meu pai pode ter muitos defeitos, mas é meu pai. Não vou deixá-lo sumir assim.

Passo os dias seguintes batendo de porta em porta: bar do Zé, padaria do Seu Jorge, até na igreja da Dona Lourdes eu vou. Todo mundo tem uma teoria: “Deve ter fugido das dívidas”, “Apostou tudo no jogo”, “Foi atrás daquela mulher do centro”. Cada frase é uma facada.

Em casa, Ana explode:

— Você vai ficar correndo atrás dele até quando? Ele nunca pensou na gente!

— Ele é nosso pai! — grito de volta, a voz falhando — Se fosse você sumida, eu não ia desistir!

Ela chora em silêncio. Eu também. O silêncio entre nós é pesado, cheio de tudo o que nunca conseguimos dizer.

Numa dessas noites sem sono, encontro uma carta escondida entre as roupas velhas do meu pai. A letra trêmula revela um segredo: ele estava sendo ameaçado por um agiota da região. Devia dinheiro demais e não sabia mais como sair dessa.

O medo me paralisa por um instante, mas logo vira raiva. Como ele pôde esconder isso da gente? Como pôde nos deixar assim?

Procuro ajuda com o pastor Elias, que sempre foi amigo da família. Ele me aconselha a não mexer com gente perigosa, mas eu não consigo ficar parada.

— Mariana, você tem que pensar em você e na Ana agora — ele diz, colocando a mão no meu ombro — Seu pai fez as escolhas dele.

Mas como pensar só em mim? Cresci ouvindo minha mãe dizer que família é tudo o que temos.

Na semana seguinte, recebo uma ligação anônima:

— Se quiser ver seu pai vivo, paga o que ele deve até sexta-feira.

O desespero toma conta. Não temos dinheiro nem pra pagar o aluguel direito. Vendo o pouco que temos: celular velho, televisão quebrada, até as roupas boas da Ana vão pro brechó.

Ana me olha com ódio:

— Você vai acabar morta igual ele! Por que você não desiste?

— Porque eu não sei desistir!

No último dia do prazo, vou até o endereço indicado pelos bandidos. O coração quase para quando vejo meu pai amarrado numa cadeira, machucado mas vivo.

— Mariana… minha filha… me perdoa…

Choro tudo o que guardei por anos. Pago parte da dívida com o pouco que consegui juntar e imploro por mais tempo. Os homens riem da minha cara, mas aceitam.

Levo meu pai pra casa da tia Vera. Ele mal consegue olhar nos meus olhos.

— Eu só queria dar um jeito na nossa vida… — ele sussurra — Mas só piorei tudo.

Aos poucos, ele começa a se tratar. Vai nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos com o pastor Elias. Eu e Ana tentamos reconstruir nossa relação aos poucos. Não é fácil perdoar, mas é ainda mais difícil viver sem esperança.

Hoje olho pra trás e vejo quantas vezes pensei em desistir. Mas também vejo quantas vezes fui mais forte do que imaginava.

Será que vale a pena lutar tanto por quem parece não merecer? Ou é justamente aí que mora o verdadeiro amor? O que vocês fariam no meu lugar?