Entre Muros e Memórias: O Diário de Jandira
— Você tem certeza disso, Jandira? — a voz do meu marido, Paulo, ecoou pela cozinha vazia, enquanto eu olhava pela janela para o quintal onde meu pai plantava jabuticabas. O cheiro do café recém-passado misturava-se ao aroma da terra molhada, mas nada conseguia acalmar o nó na minha garganta.
— Não temos escolha, Paulo. O dinheiro do seguro mal cobre as contas do mês. E agora com o bebê vindo… — minha voz falhou. Passei a mão pela barriga ainda discreta, sentindo uma pontada de culpa. Era como se cada decisão que eu tomasse arrancasse um pedaço das minhas raízes.
A morte do meu pai foi como um raio em céu azul. Ele era forte, teimoso, parecia eterno. Mas bastou uma gripe mal curada e, em poucas semanas, ele se foi. Minha mãe já tinha partido há anos. Agora, só restava eu, a filha única, para decidir o destino daquela casa de tijolos vermelhos que abrigou gerações de Silvas.
Naquela manhã de setembro, a vila parecia outra. Onde antes havia cercas baixas e galinhas ciscando livres, agora erguiam-se muros altos e portões automáticos. Os vizinhos antigos tinham ido embora; no lugar das ruínas, surgiram casas modernas com telhados coloridos. Senti-me uma estranha na minha própria história.
— A gente podia tentar alugar primeiro — sugeriu Paulo, sempre tentando aliviar o peso das decisões.
— E se ninguém quiser? Quem vai querer morar aqui agora? — respondi, um pouco mais ríspida do que pretendia. Ele suspirou e saiu para o quintal, deixando-me sozinha com meus pensamentos.
Peguei o velho diário do meu pai na gaveta da sala. As páginas amareladas guardavam relatos de colheitas, festas juninas e até brigas com vizinhos por causa de cerca torta. Folheei até encontrar um trecho: “A terra é teimosa como gente. Se não cuidar, ela vira mato. Mas se amar, ela devolve em dobro.”
Chorei baixinho. O que eu estava fazendo? Vendendo tudo por um apartamento apertado na cidade grande? Mas como criar uma criança aqui, sem escola decente, sem hospital por perto?
No dia seguinte, minha tia Lourdes apareceu sem avisar. Ela entrou bufando, já reclamando:
— Vocês vão mesmo vender a casa? Seu pai se revira no túmulo! Isso aqui é história da família!
— Tia, eu não tenho escolha… — tentei explicar.
— Escolha sempre tem! Você podia ficar aqui, plantar umas coisas, criar galinha… — ela gesticulava como se fosse fácil largar tudo e voltar ao passado.
— E o Paulo? O emprego dele é em Belo Horizonte! E eu grávida… — minha voz embargou.
Ela me olhou com pena misturada a raiva. — Pois saiba que se vender essa casa pra qualquer um desses forasteiros aí, nunca mais boto os pés aqui!
As palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça durante dias. Paulo tentava me consolar:
— Não liga pra sua tia. Ela fala demais. A vida dela é outra.
Mas era impossível não sentir o peso da culpa. Cada canto da casa tinha uma lembrança: o fogão à lenha onde minha mãe fazia pão de queijo; o quarto onde aprendi a ler; o pomar onde meu pai me ensinou a podar as árvores.
Começamos a receber propostas de compra. Um corretor chamado Sérgio apareceu com um sorriso largo e promessas de facilidades:
— Dona Jandira, hoje em dia ninguém quer saber de roça não! Aqui vai virar condomínio fechado rapidinho. Vocês vão sair no lucro!
Paulo ficou animado com os números. Eu só via as árvores sendo arrancadas, as paredes derrubadas.
Numa noite quente, sentei no alpendre com minha vizinha mais antiga, Dona Cida.
— Sabe, Jandira — ela disse baixinho — quando meu marido morreu, também pensei em ir embora. Mas fiquei. A saudade dói menos quando a gente tem onde lembrar.
Fiquei em silêncio. Será que eu estava fugindo da dor?
No fim do mês, fechamos negócio com uma família de São Paulo. Eles queriam construir uma pousada rural ali. Assinei os papéis com as mãos trêmulas.
No último dia na casa, andei por cada cômodo como quem se despede de um velho amigo. No quintal, enterrei uma carta para meu filho ainda não nascido:
“Que você saiba de onde veio, mesmo que nunca veja este lugar.”
Na cidade grande, tudo era barulho e pressa. O apartamento novo era pequeno demais para tantas lembranças. Paulo trabalhava dobrado; eu sentia falta do cheiro da terra e do silêncio das noites estreladas.
A gravidez avançava e com ela vinham os medos: será que fizemos a escolha certa? Será que meu filho vai crescer sem saber o que é correr descalço no mato?
Um dia, recebi uma ligação inesperada: Dona Cida tinha falecido. Senti um vazio enorme. Peguei o ônibus e voltei para a vila para o enterro. Lá, reencontrei minha tia Lourdes.
— Volta pra casa, Jandira — ela sussurrou entre lágrimas — ainda dá tempo de recomeçar.
Mas já não havia casa para voltar. Só restavam memórias e saudade.
Hoje escrevo este diário para não esquecer quem sou e de onde vim. Meu filho nasceu forte e saudável; dei-lhe o nome de João, como meu pai.
Às vezes me pergunto: será que fizemos certo ao trocar nossas raízes por um futuro incerto? Ou será que a verdadeira casa é aquela que carregamos dentro da gente?
E você? Já precisou escolher entre o passado e o futuro? O que faria no meu lugar?