Entre Muros e Memórias: O Diário de Ewa
— Você tem certeza, Ewa? — a voz do meu marido, Rafael, ecoou pela cozinha vazia, enquanto eu olhava pela janela para o quintal onde meu pai costumava plantar jabuticabas.
O cheiro do café recém-passado misturava-se ao aroma de terra molhada. Era setembro, mas o calor já fazia as paredes do velho sobrado suarem. Eu estava grávida de seis meses e sentia o peso do mundo nos ombros. Meu pai tinha partido há pouco tempo, e agora, diante da necessidade de um apartamento maior na cidade, estávamos prestes a vender a única coisa que ainda me ligava à infância.
— Não temos escolha — respondi, tentando esconder a voz embargada. — O dinheiro não vai cair do céu. E com o bebê chegando…
Rafael se aproximou e segurou minha mão. Mas eu sabia que ele não entendia o que era perder um pedaço de si mesma. Para ele, era só uma casa velha no interior de Minas Gerais. Para mim, era o último refúgio das minhas memórias.
Saí para o quintal. O mato alto escondia os brinquedos enferrujados da minha infância. O balanço que meu pai fez com as próprias mãos ainda rangia ao vento. Olhei para a cerca: agora era alta, de alumínio, diferente da cerca viva que separava nosso terreno do vizinho, seu Zé Carlos. Aliás, quase não reconhecia mais a vila. Onde antes havia ruínas e galinheiros, agora surgiam casas coloridas com portões automáticos e câmeras de segurança.
A vizinha, Dona Lourdes, apareceu na varanda ao lado.
— Vai mesmo vender, Ewa? — perguntou, com aquele sotaque mineiro arrastado.
Assenti em silêncio. Ela suspirou fundo.
— Seu pai ficaria triste…
Senti um nó na garganta. Lembrei das noites em que ele sentava comigo na varanda para contar histórias de quando era menino. Lembrei das brigas com minha mãe, dos risos com meus irmãos, das festas juninas improvisadas no quintal. Tudo isso estava impregnado nas paredes descascadas daquele lugar.
No fim da tarde, meus irmãos chegaram para assinar os papéis da venda. Mariana, sempre prática, já falava em dividir o dinheiro.
— Não adianta se apegar, Ewa — disse ela. — A vida segue.
Meu irmão mais novo, Lucas, ficou calado. Ele nunca gostou de conflitos. Mas eu via nos olhos dele a mesma dor que sentia.
— E se a gente alugasse? — sugeri, quase como um pedido de socorro.
— Quem vai querer alugar isso aqui? — rebateu Mariana. — Olha o estado da casa! E você precisa pensar no bebê.
O silêncio caiu pesado entre nós. Rafael tentou aliviar:
— Vai ser bom pra todo mundo. Podemos comprar um apartamento maior, dar conforto pro nosso filho…
Mas eu só conseguia pensar em como tudo mudara tão rápido. Em menos de um ano, a vila se transformara num bairro fechado para gente de fora. Os antigos moradores foram embora ou morreram. Só nosso sobrado resistia ao tempo — e agora nem isso mais.
Naquela noite, sentei sozinha na varanda. O céu estava limpo e as estrelas brilhavam como nunca. Peguei o diário antigo do meu pai, esquecido numa gaveta. Folheei as páginas amareladas:
“Setembro de 1998: Hoje Ewa caiu do balanço e ralou o joelho. Chorei junto com ela.”
As lágrimas vieram sem aviso. Senti uma saudade tão funda que parecia me rasgar por dentro.
No dia seguinte, acordei cedo com barulho de obra na casa vizinha. Olhei pela janela: homens descarregavam tijolos e sacos de cimento onde antes havia um pomar de laranjeiras.
Rafael entrou no quarto com uma xícara de chá.
— Você está bem?
— Não sei… — respondi baixinho. — Sinto que estou traindo meu pai.
Ele me abraçou forte.
— Você não está traindo ninguém. Está cuidando da nossa família agora.
Mas será que era isso mesmo? Ou eu estava apenas repetindo o ciclo de abandono que tanto temi?
No almoço, Mariana trouxe uma caixa com fotos antigas.
— Vamos separar o que cada um quer levar — disse ela.
Peguei uma foto minha com meu pai no quintal, sorrindo ao lado do cachorro vira-lata que tivemos por anos. Lucas pegou um carrinho de madeira feito à mão. Mariana ficou com a coleção de discos antigos.
Quando os compradores chegaram para visitar a casa, senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Eles andavam pelos cômodos como se fossem turistas num museu em ruínas.
— A estrutura parece boa — disse o homem, olhando para Rafael e ignorando minha presença.
A mulher tirou fotos do jardim com o celular.
Quis gritar: “Vocês não veem? Aqui tem história! Aqui tem vida!”
Mas fiquei calada. Só observei enquanto eles discutiam reformas e planejavam derrubar a jabuticabeira para fazer uma piscina.
Na última noite antes da assinatura do contrato, reuni coragem para me despedir do meu pai.
Fui até o fundo do quintal e sentei no chão úmido, encostada no tronco da árvore que ele plantou quando nasci.
— Me perdoa, pai… — sussurrei entre lágrimas. — Eu preciso ir… mas nunca vou te esquecer.
O vento soprou leve entre as folhas, como se ele me respondesse: “Vai, filha. A vida é feita de recomeços.”
No dia seguinte, entregamos as chaves aos novos donos. Rafael me abraçou forte enquanto eu olhava pela última vez para a casa vazia.
Voltamos para Belo Horizonte com o carro cheio de caixas e lembranças. No caminho, senti o bebê chutar forte pela primeira vez.
Talvez fosse um sinal de que a vida realmente segue — mas nunca sem carregar um pouco do passado dentro da gente.
Agora escrevo essas linhas no novo apartamento, cercada pelo cheiro fresco de tinta e móveis novos. Mas toda noite fecho os olhos e volto à varanda da casa antiga, onde meu pai ainda me espera para contar histórias sob as estrelas.
Será que algum dia a gente realmente se despede do lugar onde nasceu? Ou será que carregamos essas raízes pra sempre dentro do peito?