Entre o Silêncio e o Grito: A Vida de Kasia
— O que você está fazendo no meu computador? — a voz do meu pai ecoou atrás de mim, rouca, pesada, carregada de raiva e álcool. Eu me virei devagar na cadeira, sentindo o coração disparar. Ele estava parado na porta do meu quarto, os olhos vermelhos, a camisa manchada de pinga.
— Só tô terminando um trabalho da escola, pai — respondi baixo, tentando não provocar mais nenhum monstro dentro dele.
Ele se aproximou cambaleando, apoiando-se na parede. O cheiro forte de álcool invadiu o quarto, misturado ao suor e ao cigarro. Meu estômago revirou. Eu sabia o que podia acontecer se ele não gostasse da minha resposta. Desde pequena aprendi a medir cada palavra, cada gesto, como se minha vida dependesse disso. E dependia.
Na sala, o som da televisão abafava os ruídos da casa. Minha mãe estava na cozinha, descascando batatas em silêncio. Era sempre assim: ela se calava para não piorar as coisas. Eu odiava aquele silêncio. Era como se cada batida da faca no fundo da pia dissesse: “Aguenta mais um pouco, filha. Só mais um pouco”.
Meu pai se sentou na beirada da minha cama, me encarando. — Você pensa que é melhor do que eu? Fica aí nesse computador, escrevendo essas besteiras… — Ele balançou a cabeça, riu sozinho, um riso amargo. — Quando eu tinha sua idade já trabalhava pra ajudar em casa.
Eu queria gritar que não era culpa minha, que eu só queria estudar, ter uma vida diferente. Mas engoli as palavras. Aprendi cedo que discutir com ele só trazia mais dor. Olhei para baixo, para o teclado, esperando que ele fosse embora.
— Vai ajudar sua mãe na cozinha — ordenou, levantando-se com dificuldade.
Saí do quarto sem olhar pra trás. No corredor, ouvi o choro abafado da minha mãe. Ela enxugava as lágrimas com o dorso da mão enquanto cortava as batatas.
— Mãe… — sussurrei.
Ela me olhou rápido, os olhos vermelhos. — Vai lavar as mãos e me ajuda aqui, filha.
Ficamos ali em silêncio por alguns minutos. O barulho da faca cortando as batatas era quase hipnótico. Eu queria perguntar por que ela não fazia nada, por que não íamos embora dali. Mas sabia que ela tinha medo. Medo de ficar sozinha com dois filhos pequenos — meu irmãozinho Lucas dormia no quarto ao lado — medo de não conseguir pagar o aluguel, medo do que os vizinhos iam dizer.
Naquela noite, durante o jantar, meu pai reclamou da comida, jogou o prato na pia e saiu batendo a porta. O barulho fez Lucas acordar chorando. Minha mãe correu para acalmá-lo enquanto eu recolhia os cacos do prato quebrado.
Depois do jantar, voltei para o meu quarto e liguei o computador. Era ali que eu me sentia livre. Escrevia textos sobre tudo o que sentia: raiva, tristeza, esperança. Às vezes postava em fóruns anônimos na internet, buscando alguém que entendesse minha dor.
Uma noite, recebi uma mensagem de uma garota chamada Mariana num desses fóruns:
“Oi Kasia, li seu texto e queria te dizer que você não está sozinha. Meu pai também bebe e sei como é difícil. Se quiser conversar…”
Aquelas palavras foram como um abraço apertado depois de um dia ruim. Começamos a conversar todos os dias. Mariana morava em Belo Horizonte e também vivia com medo do pai chegar bêbado em casa.
— Você já pensou em pedir ajuda? — ela perguntou uma vez.
— Já… mas tenho medo do que pode acontecer com a gente se alguém descobrir — respondi.
Ela me contou sobre um projeto social na cidade dela que ajudava famílias como a nossa. Fiquei pensando se existia algo assim em Curitiba.
Na escola, meus professores notavam meu cansaço, minhas notas caindo. Dona Sônia, de português, me chamou depois da aula:
— Kasia, você quer conversar? Tenho notado que você anda diferente…
Olhei para ela e quase chorei. Mas menti:
— É só cansaço mesmo, professora.
Ela segurou minha mão e disse baixinho:
— Se precisar de ajuda, estou aqui.
Naquela noite, meu pai chegou mais bêbado do que nunca. Gritou com minha mãe por causa de dinheiro, jogou a panela no chão e bateu a porta do quarto tão forte que pensei que ia quebrar tudo. Lucas acordou chorando de novo.
Eu não aguentei mais. Peguei Lucas no colo e fui para a varanda respirar ar puro. Minha mãe veio atrás de mim.
— Filha… desculpa por tudo isso — ela sussurrou.
— Por que a gente não vai embora daqui? — perguntei chorando.
Ela me abraçou forte.
— Eu tenho medo… mas talvez seja hora de tentar.
No dia seguinte, procurei Dona Sônia na escola e contei tudo. Ela me levou até a orientadora pedagógica, que nos encaminhou para o Conselho Tutelar.
Foi um processo difícil. Meu pai ficou furioso quando soube. Disse que eu era ingrata, que estava destruindo a família. Minha mãe chorava todos os dias. Mas aos poucos fomos recebendo apoio: cesta básica do CRAS, acompanhamento psicológico para mim e para Lucas.
Mudamos para uma casa pequena no bairro Boqueirão. Não era fácil: minha mãe arrumou emprego de diarista e eu cuidava de Lucas depois da escola. Senti falta dos meus amigos antigos e até do silêncio pesado da nossa casa antiga.
Mas pela primeira vez em anos consegui dormir sem medo dos gritos no meio da noite.
Mariana continuou sendo minha amiga virtual. Ela também conseguiu sair de casa com a mãe dela depois de muita luta.
Hoje escrevo esta história porque sei que muitas meninas vivem o mesmo pesadelo em silêncio. Sei como é difícil pedir ajuda quando tudo parece impossível.
Às vezes ainda me pergunto: será que fizemos certo? Será que algum dia vou conseguir perdoar meu pai? Ou será que algumas feridas nunca cicatrizam?
E você? Já teve medo de pedir ajuda? O que faria no meu lugar?