O Peso das Lembranças: Entre o Calor e o Frio da Saudade
— Mãe, você vai mesmo? — perguntou minha filha, Mariana, com aquele olhar de quem já sabe a resposta, mas ainda assim espera que eu desista.
— Vou sim, filha. Faz tempo que não visito o túmulo da vovó. Preciso ir — respondi, tentando esconder o nó na garganta. O outono tinha chegado quente em Belo Horizonte, mas, de repente, maio trouxe um frio cortante e até uns pingos de chuva fina que pareciam neve para quem nunca viu neve de verdade.
Arrumei minha mala pequena, coloquei uma blusa de lã e parti para o interior de Minas, para a pequena cidade de São João do Paraíso. O ônibus balançava nas curvas da estrada enquanto eu olhava pela janela, vendo as montanhas cobertas por uma névoa triste. Cada quilômetro me levava mais fundo nas lembranças que eu tanto tentava evitar.
Cheguei à rodoviária já à noite. Meu irmão mais novo, Rafael, me esperava encostado no carro velho do meu pai. Ele sorriu ao me ver, mas percebi que seus olhos estavam cansados.
— E aí, Katia? — disse ele, me abraçando forte. — Achei que você não vinha mais pra cá.
— Também achei — respondi, sentindo o cheiro do interior misturado ao perfume barato dele. — Mas tem coisa que a gente não consegue fugir pra sempre.
No caminho até a casa da família, passamos pela pracinha onde eu brincava quando era criança. Tudo parecia igual e ao mesmo tempo tão diferente. As luzes amarelas dos postes iluminavam as ruas vazias e silenciosas.
Quando entrei em casa, senti o cheiro do feijão no fogão a lenha. Minha irmã Luciana estava na cozinha, mexendo uma panela. Ela mal olhou pra mim.
— Oi — disse ela, seca.
— Oi, Lu — respondi, tentando sorrir.
O clima ficou pesado. Desde a morte da mamãe, a gente quase não se falava. Brigamos feio no velório por causa de uma bobagem: ela queria vender a casa da mãe pra pagar dívidas, eu queria manter tudo como estava. Nunca mais nos entendemos direito depois disso.
Naquela noite, quase não dormi. O vento frio batia na janela e eu ouvia os passos de Luciana pela casa. De manhã cedo, fui ao cemitério sozinha. Levei flores do quintal: rosas vermelhas e margaridas brancas.
Fiquei ali parada diante do túmulo simples da minha mãe. Li o nome dela em voz alta: “Maria das Dores Silva”. Quase ri com ironia — ela realmente carregou muitas dores na vida.
— Mãe, desculpa ter demorado tanto pra vir — sussurrei. — Eu tentei seguir em frente, mas tem coisa que não passa nunca.
As lágrimas vieram sem pedir licença. Lembrei dos domingos de bolo de fubá, das brigas por causa do meu namoro com o João Paulo, das noites em que ela sentava na beira da minha cama pra conversar baixinho quando eu tinha medo do escuro.
De repente ouvi passos atrás de mim. Era Luciana.
— Você sempre gostou de drama, né? — disse ela, cruzando os braços.
— Não vim aqui pra brigar, Lu — respondi, enxugando as lágrimas.
Ela ficou em silêncio por um tempo. Depois se sentou ao meu lado no chão de terra batida.
— Eu também sinto falta dela — confessou baixinho. — Mas não sei lidar com isso. Parece que quanto mais eu tento esquecer, mais dói.
Ficamos ali juntas por alguns minutos, sem dizer nada. Pela primeira vez em anos, senti que talvez ainda houvesse esperança pra nossa relação.
Voltamos pra casa e Rafael já estava preparando café. Sentamos à mesa como nos velhos tempos. Ele tentou quebrar o gelo:
— Vocês lembram daquele Natal que a mãe queimou o peru e a gente acabou comendo pão com mortadela?
Rimos juntos, mas logo o clima pesou de novo quando Luciana falou:
— Katia, você vai ficar até quando?
— Só até depois do feriado — respondi. — Preciso voltar pra Mariana.
Ela suspirou fundo:
— Você sempre vai embora antes das coisas se resolverem.
Aquilo me atingiu como um soco no estômago. Era verdade: eu fugia dos problemas. Preferia a distância ao confronto.
Naquela tarde saí pra caminhar pela cidade. Passei pela escola onde estudei, pela igreja onde fiz primeira comunhão. Cada lugar tinha uma lembrança grudada em mim como uma cicatriz.
No fim do dia sentei na varanda com meu pai. Ele estava mais calado do que nunca desde que mamãe se foi.
— Pai… você sente falta dela? — perguntei baixinho.
Ele olhou pro horizonte e respondeu:
— Todo dia. Mas a vida segue, filha. A gente aprende a conviver com a saudade.
Na última noite antes de ir embora, Luciana entrou no meu quarto sem bater na porta.
— Katia… desculpa por tudo que falei naquele dia — disse ela, com os olhos marejados. — Eu tava perdida sem a mãe. Achei que brigar era mais fácil do que sentir saudade junto.
Me levantei e abracei minha irmã como há anos não fazia.
— Eu também errei muito, Lu. Mas não quero perder você também.
Choramos juntas até dormir abraçadas como duas crianças assustadas pelo frio da noite e pelo peso das lembranças.
No dia seguinte me despedi da família com o coração apertado. Rafael me levou até a rodoviária e prometeu visitar Mariana em Belo Horizonte qualquer dia desses.
No ônibus de volta pra casa, olhei pela janela enquanto as montanhas iam ficando pra trás. Pensei em tudo que vivi nesses dias: as dores antigas, os conflitos nunca resolvidos e a esperança de recomeçar.
Será que algum dia a saudade deixa de doer? Ou será que ela é só uma parte da gente que aprende a viver junto com as lembranças?