Segunda Chance
— Ewka, você vai ficar aí até quando? — Monika perguntou, já com a bolsa pendurada no ombro, batendo as unhas vermelhas na mesa ao meu lado.
Olhei para ela, forçando um sorriso. — Só mais um pouco. O Ricardo vai passar aqui pra me buscar — menti, sem hesitar.
Ela revirou os olhos, como se já soubesse da verdade. — Tá bom então. Até amanhã.
O escritório foi esvaziando aos poucos, o barulho das teclas e das conversas sumindo até restar só o som da chuva batendo forte na janela. Fiquei ali, olhando para a tela do computador, fingindo revisar um relatório que já estava pronto há horas. Meu chefe, o senhor Álvaro, passou por mim e acenou com a cabeça antes de apagar as luzes do corredor.
Sozinha, respirei fundo. O cheiro de café velho e papel molhado parecia mais forte à noite. Peguei o celular e encarei a tela: nenhuma mensagem do Ricardo. Nenhuma ligação perdida. Nenhum sinal de vida.
A verdade é que eu não sabia onde ele estava. Desde que descobri as mensagens no celular dele — “Saudade de você”, “Quando vamos nos ver de novo?” — minha vida virou um teatro de mentiras. Ele jurou que era só uma colega do trabalho, que eu estava exagerando, mas eu sabia. Toda mulher sabe.
A chuva engrossava lá fora, e eu sentia o peso do silêncio me esmagando. Pensei em ligar para minha mãe, mas ela sempre dizia: “Casamento é assim mesmo, filha. Aguenta firme. Homem é tudo igual.” Mas será que era mesmo? Será que eu precisava aceitar aquilo?
Levantei devagar, peguei minha bolsa e caminhei até o elevador. No reflexo do espelho, vi uma mulher cansada, com olheiras profundas e o batom desbotado. Lembrei de quando eu e Ricardo éramos felizes — ou pelo menos eu achava que éramos. Os domingos na casa da sogra, as viagens para Ubatuba, os planos de ter filhos que nunca saíram do papel.
O elevador parou no térreo e o porteiro, seu Zé, me cumprimentou com aquele sorriso triste de quem já viu muita coisa.
— Dona Eveline, vai sozinha hoje?
Assenti, tentando parecer forte. — Vou sim, seu Zé. Boa noite.
— Se cuida, viu? Essa cidade tá perigosa demais.
Agradeci e saí para a rua. O guarda-chuva quase virou com o vento. Caminhei até o ponto de ônibus sentindo a água gelada escorrer pelas costas. Enquanto esperava, vi casais dividindo guarda-chuvas, rindo juntos. Senti inveja daquela cumplicidade simples.
O ônibus chegou lotado. Entrei espremida entre desconhecidos, tentando não pensar em Ricardo nem na solidão que me acompanhava como uma sombra. Quando desci perto de casa, já passava das dez da noite.
O prédio estava escuro. Subi as escadas devagar, cada passo ecoando no corredor vazio. Abri a porta do apartamento e fui recebida pelo silêncio absoluto. Ricardo não estava lá.
Deixei a bolsa no sofá e fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro quente e deixei a água cair sobre mim como se pudesse lavar tudo: a tristeza, a raiva, a sensação de abandono.
Quando saí do banho, vesti o pijama velho e fui até a cozinha preparar um chá. Sentei à mesa e encarei a parede branca por longos minutos. Meu celular vibrou: mensagem da Monika.
“Chegou bem?”
Respondi rápido: “Sim, obrigada por perguntar”.
Pensei em contar tudo para ela — sobre as brigas com Ricardo, sobre as noites em claro esperando ele voltar — mas não consegui. Sempre fui aquela que dava conselhos para as amigas, nunca a que precisava deles.
O relógio marcava meia-noite quando ouvi a chave girar na porta. O coração disparou.
Ricardo entrou devagar, tentando não fazer barulho. Fingiu surpresa ao me ver acordada.
— Ainda tá acordada?
— Tava esperando você — respondi seca.
Ele largou as chaves na mesa e foi direto para o quarto sem olhar nos meus olhos. Senti vontade de gritar, de perguntar onde ele esteve, mas só consegui sussurrar:
— Você ainda me ama?
Ele parou na porta do quarto e me olhou como se eu fosse uma estranha.
— Eveline… Não começa com isso agora. Tô cansado.
— Eu também tô cansada — respondi baixinho.
Ele fechou a porta do quarto com força. Fiquei ali na cozinha, abraçada à caneca de chá frio.
Naquela noite não dormi. Fiquei ouvindo os sons da cidade pela janela: sirenes ao longe, cachorros latindo, um casal brigando no apartamento vizinho. Pensei em tudo que perdi tentando salvar um casamento que talvez já tivesse acabado há muito tempo.
No dia seguinte acordei cedo e fui trabalhar como se nada tivesse acontecido. Monika percebeu meu humor estranho e tentou puxar assunto:
— Tá tudo bem mesmo?
Quase chorei ali mesmo na copa do escritório, mas segurei firme.
— Só tô cansada — repeti a mentira de sempre.
Os dias seguintes foram iguais: trabalho, silêncio em casa, jantares frios e olhares vazios entre mim e Ricardo. Até que numa sexta-feira à noite ele chegou mais cedo do trabalho e sentou na minha frente na sala.
— A gente precisa conversar — disse ele com a voz baixa.
Meu coração gelou. Esperei pelo pior.
— Eu… Eu acho que não dá mais pra gente continuar assim — ele começou, evitando meu olhar. — Eu tentei, Eveline. Mas acho que nós dois estamos infelizes há muito tempo.
Senti uma mistura de alívio e desespero. Quis gritar que era culpa dele, das mentiras dele, mas no fundo sabia que eu também tinha deixado de lutar há muito tempo.
— E aquela mulher? — perguntei com a voz trêmula.
Ele hesitou antes de responder:
— Não é sobre ela. É sobre nós dois.
Chorei baixinho enquanto ele arrumava algumas roupas numa mala pequena e saía pela porta sem olhar pra trás.
Naquela noite liguei para minha mãe pela primeira vez em meses. Ela ouviu meu choro em silêncio antes de dizer:
— Filha… Às vezes perder é ganhar liberdade pra recomeçar.
Passei semanas tentando entender quem eu era sem Ricardo. Redescobri prazeres simples: caminhar no parque aos domingos, cozinhar só pra mim mesma, rir das piadas da Monika no trabalho sem sentir culpa por chegar tarde em casa.
Um dia encontrei Ricardo por acaso na padaria do bairro. Ele parecia mais leve; eu também estava diferente. Nos cumprimentamos como velhos conhecidos e seguimos caminhos opostos sem mágoa nem rancor.
Hoje olho para trás e vejo quanto medo tive de ficar sozinha — medo maior até do que o de ser infeliz ao lado de alguém que não me amava mais.
Às vezes me pergunto: quantas mulheres ainda vivem presas ao medo de recomeçar? Quantas mentem todos os dias para si mesmas só pra não encarar o vazio? Será que vale mesmo a pena sacrificar nossa felicidade por uma promessa antiga?