Uma Noite de Ano Novo Sem Você

— Mãe, não me espera acordada, tá? Vou passar o Ano Novo no sítio com a Júlia e o pessoal. — A voz da Mariana ecoou pelo corredor, misturada ao som apressado dos passos dela pegando a mala. Eu sorri, tentando esconder a pontada de vazio que já se anunciava no peito.

— Claro, filha. Aproveita. Só não esquece o casaco, vai esfriar à noite. — Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.

A porta bateu. O silêncio caiu pesado na casa. Fiquei parada na cozinha, olhando para a tigela de salada de maionese e para os pierogi que eu tinha acabado de preparar. Era tradição: desde que me casei com Arkadiusz, todo Ano Novo tinha pierogi e salada de maionese. Ele dizia que dava sorte. Agora, só restava eu — e Mariana, quando estava por aqui.

Sentei à mesa, olhando para os pratos arrumados para dois. Um deles ficaria intocado. Peguei o controle remoto e liguei a televisão, tentando abafar o silêncio com o barulho dos fogos antecipados e das risadas falsas dos apresentadores. Mas nada preenchia o vazio.

Lembrei do primeiro Ano Novo sem Arkadiusz. Mariana ainda era pequena, não entendia direito por que o pai não voltava mais pra casa. Eu também não entendia. Só sabia que o peito doía tanto que parecia impossível respirar. Mas a vida seguiu — como sempre segue — e eu fui aprendendo a viver com a ausência dele.

Naquela noite, enquanto mexia distraída na comida, ouvi um barulho vindo do quintal. O coração disparou — medo bobo de quem mora sozinha há pouco tempo. Fui até a janela: era só um gato revirando o lixo. Suspirei aliviada e voltei para dentro.

Peguei uma taça de vinho, sentei no sofá e tentei me convencer de que estava tudo bem. Mas não estava. A cada gole, as lembranças vinham mais fortes: Arkadiusz rindo alto, contando piadas sem graça; Mariana correndo pela sala com uma tiara brilhante na cabeça; minha sogra reclamando do barulho dos fogos. Tudo tão distante agora.

O telefone tocou. Era minha irmã, Lúcia.

— Irena, feliz Ano Novo adiantado! Tá tudo bem aí?

— Tá sim, Lúcia. Mariana foi viajar com os amigos. Tô aqui vendo TV.

— Sozinha? Por que não veio pra cá?

— Não quis incomodar vocês… E também queria um pouco de silêncio.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você sente falta dele, né?

A pergunta me pegou desprevenida. Engoli em seco.

— Sinto. Todo dia.

Conversamos mais um pouco sobre banalidades: o calor insuportável do verão carioca, as promoções do supermercado, a novela das nove. Desliguei sentindo um misto de alívio e tristeza.

Voltei para a cozinha e abri a geladeira. Peguei um punhado de jabuticabas — as preferidas do Arkadiusz — e fiquei olhando para elas na palma da mão. Lembrei de quando ele plantou aquela árvore no quintal dizendo que um dia faríamos geleia juntos para vender na feira. Nunca fizemos.

O relógio marcava quase meia-noite quando ouvi os fogos começarem lá fora. Fui até a varanda e vi as luzes coloridas explodindo no céu escuro. Senti vontade de chorar, mas segurei as lágrimas. Não queria começar o ano assim.

De repente, ouvi passos atrás de mim. Virei assustada — era só Mariana no telefone.

— Mãe! Feliz Ano Novo! Tá tudo bem aí?

— Tá sim, filha. E aí?

— Tô com saudade… Queria estar aí agora.

Sorri, sentindo o peito apertar.

— Eu também queria você aqui.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, ouvindo os fogos ao fundo.

— Mãe… Você acha que um dia vai passar? Essa saudade?

Demorei para responder.

— Não sei, filha. Acho que a gente aprende a viver com ela. Como quem aprende a andar com uma pedra no sapato: nunca deixa de incomodar, mas você segue andando.

Ela riu baixinho do outro lado da linha.

— Te amo, mãe.

— Também te amo, Mariana.

Desliguei e fiquei olhando para o céu iluminado pelos fogos. Pensei em tudo que tinha mudado desde que Arkadiusz se foi: as festas menores, os silêncios maiores, as conversas interrompidas pelo choro contido. Pensei em Mariana crescendo rápido demais, querendo voar alto enquanto eu ainda tentava juntar os pedaços do chão.

No fundo da casa, ouvi o miado do gato novamente. Peguei um pedaço de pierogi e fui até lá fora deixar para ele. Pelo menos alguém ia aproveitar minha comida esse ano.

Voltei para dentro e sentei à mesa vazia. Olhei para as fotos antigas na parede: Arkadiusz sorrindo ao meu lado, Mariana pequena no colo dele. Senti uma mistura de gratidão e tristeza — gratidão por ter vivido tudo aquilo; tristeza por saber que nunca mais seria igual.

A madrugada avançou devagar. Fui dormir tarde, com o cheiro da comida ainda pairando no ar e o som distante dos fogos ecoando pela janela aberta.

Antes de fechar os olhos, me perguntei: será que algum dia vou aprender a celebrar sozinha? Ou será que a saudade sempre vai ser minha única companhia nessas noites especiais?

E você aí do outro lado: como lida com a ausência de quem ama? Será que algum dia a gente aprende mesmo a seguir em frente?