Cicatrizes e Amizade: A História de Uma Alma Inquebrável
— Você já pensou em como seria se ninguém reparasse nas suas cicatrizes? — Camila pergunta, olhando para mim com aquele jeito dela, meio sério, meio brincalhão. O sol do fim da tarde bate no nosso rosto, e eu sinto o calor misturado com o frio na barriga que sempre me dá quando alguém fala das minhas marcas.
Respiro fundo. Olho para meus braços, para as linhas tortas e avermelhadas que cortam minha pele desde o acidente de moto que mudou tudo há três anos. Eu tinha só quinze anos, voltando da escola com meu tio Mauro, quando um carro avançou o sinal na Avenida dos Autonomistas. Lembro do barulho, do cheiro de gasolina, do grito da minha avó no hospital. Desde então, carrego essas cicatrizes como se fossem um uniforme que nunca posso tirar.
— Acho que seria mais fácil — respondo, tentando sorrir. — Mas talvez eu não seria eu, né?
Camila sorri de volta, mas logo o sorriso dela some quando escutamos minha avó gritando lá de dentro:
— Mariana! Vem ajudar a pôr a mesa!
Levanto devagar. Sinto o olhar de Camila me seguindo, como se ela quisesse me proteger do mundo inteiro. Entro em casa e vejo minha avó, Dona Lourdes, mexendo no arroz com feijão. Ela é dessas mulheres que nunca param, mesmo com as dores nas costas e a saudade do meu avô apertando o peito.
— Você precisa comer direito, menina — ela diz, colocando mais comida no meu prato do que eu consigo comer.
— Tô sem fome, vó.
— Tem que comer pra sarar essas feridas aí — ela insiste, apontando para meu braço.
Eu queria dizer pra ela que não é só comida que sara ferida. Tem coisa que nem tempo cura.
Depois do jantar, volto pro quintal. Camila ainda está lá, mexendo no celular. Ela me mostra uma mensagem do grupo da escola:
— Olha isso aqui…
É uma foto minha, tirada escondida na aula de educação física. Alguém escreveu embaixo: “Freddy Krueger versão Osasco”. Sinto o rosto esquentar de vergonha e raiva.
— Quem fez isso? — pergunto, mas já sei quem foi. Rafael e os amigos dele nunca perdem uma chance de me zoar.
Camila aperta minha mão.
— Não liga pra eles. Você é muito mais forte do que eles imaginam.
Mas não é fácil não ligar. No dia seguinte na escola, sinto todos os olhares em mim. Ouço risadinhas quando passo pelo corredor. Na aula de biologia, Rafael faz questão de sentar atrás de mim e sussurrar:
— E aí, cicatriz? Vai assustar alguém hoje?
Finjo que não escuto. Mas por dentro, cada palavra é como uma faca nova abrindo outra ferida.
No recreio, Camila me arrasta pra quadra. Ela tem esse jeito de me obrigar a sair do buraco quando tudo o que eu queria era sumir.
— Vamos jogar vôlei com as meninas — ela diz.
— Não quero…
— Mariana, olha pra mim — ela segura meu rosto com as duas mãos. — Você não é só suas cicatrizes. Você é inteligente, engraçada… E joga vôlei melhor que todo mundo aqui!
Respiro fundo e aceito. No começo, sinto todos olhando pra mim. Mas quando começo a jogar, esqueço um pouco das marcas. Faço um ponto bonito e as meninas gritam meu nome. Pela primeira vez em muito tempo, sinto orgulho de mim mesma.
Quando volto pra casa naquele dia, encontro minha mãe sentada na sala. Ela aparece de vez em quando, sempre dizendo que vai ficar mais tempo dessa vez. Mas nunca fica.
— Oi filha… — ela diz, sem jeito.
— Oi mãe.
Ela tenta me abraçar, mas eu fico dura. Sinto raiva dela por ter ido embora depois do acidente. Por ter deixado eu e a vó sozinhas quando mais precisei.
— Eu sei que errei… — ela começa.
— Não fala nada — corto ela. — Se veio só pra pedir desculpa de novo, nem precisa.
Ela abaixa a cabeça e chora baixinho. Minha avó aparece na porta da cozinha e suspira fundo.
— Vocês duas precisam conversar — diz ela.
Mas eu não quero conversar. Não quero ouvir desculpas nem promessas vazias.
Naquela noite, fico rolando na cama sem conseguir dormir. Penso em tudo: nas cicatrizes, nos apelidos cruéis, na ausência da minha mãe, no esforço da minha avó para segurar tudo sozinha…
No dia seguinte, Camila chega cedo em casa com uma ideia maluca:
— Vamos pintar suas cicatrizes! Fazer delas arte!
No começo acho ridículo. Mas ela insiste tanto que acabo cedendo. Pegamos tinta guache e começamos a desenhar flores coloridas sobre as marcas dos meus braços. Rimos tanto que até esqueço da dor por alguns minutos.
Quando posto uma foto no Instagram, recebo mensagens inesperadas:
“Que lindo!”
“Você é inspiração!”
“Queria ter sua coragem!”
Pela primeira vez percebo que talvez minhas cicatrizes possam ser mais do que motivo de vergonha. Talvez possam ser símbolo de força.
Na semana seguinte tem apresentação na escola sobre superação pessoal. Camila me convence a contar minha história na frente de todo mundo. Subo no palco tremendo por dentro, mas olho pra Camila na plateia e sinto coragem.
— Meu nome é Mariana — começo — e essas são minhas cicatrizes. Durante muito tempo achei que elas eram motivo pra me esconder… Mas hoje vejo que são prova de tudo o que sobrevivi.
Falo sobre o acidente, sobre a dor física e emocional, sobre o bullying… Sobre como a amizade da Camila me salvou tantas vezes quanto os médicos no hospital.
Quando termino, a sala está em silêncio. Depois começam os aplausos. Até Rafael parece sem graça.
Na saída da escola ele me para:
— Desculpa aí… Eu não sabia que era tão difícil pra você.
Não sei se acredito nele ou se só quer aliviar a própria culpa. Mas decido aceitar o pedido de desculpas.
Em casa conto tudo pra minha avó e até pra minha mãe, que ainda está lá tentando consertar as coisas entre nós. Pela primeira vez em muito tempo jantamos juntas sem brigar.
Antes de dormir olho pras minhas cicatrizes já sem tinta colorida… E penso: será que um dia vou conseguir olhar pra elas sem sentir dor? Ou será que toda dor pode virar força se a gente tiver alguém ao lado?
E você? Já transformou alguma dor em força? Como lidou com as suas próprias cicatrizes?