Onde se Escondeu o Amor?
— Você acha mesmo que alguém vai te aguentar desse jeito, Iara? — O tom da minha mãe cortou o silêncio da cozinha, enquanto ela mexia o feijão na panela. O cheiro de alho queimando se misturava ao gosto amargo das palavras dela. Eu tinha acabado de chegar do trabalho, cansada, e tudo que queria era um pouco de paz. Mas paz nunca foi algo comum na nossa casa.
— Mãe, por favor… — tentei responder, mas ela já continuava, sem me olhar nos olhos.
— Você fica aí, esperando um príncipe encantado, mas a vida não é novela das seis! Olha pra mim! — Ela largou a colher de pau na pia e virou-se, os olhos brilhando de lágrimas e raiva. — Eu fiquei esperando seu pai voltar. E olha onde isso me trouxe!
Eu sabia que ela tinha razão. Cresci ouvindo histórias sobre meu pai, o homem que prometeu mundos e fundos e sumiu quando eu ainda era bebê. Minha mãe, Dona Lourdes, sempre foi dura comigo, mas nunca deixou faltar comida na mesa — mesmo que fosse só arroz com ovo. Aprendi cedo a não pedir brinquedos caros, a usar roupas doadas pelas vizinhas e a sorrir mesmo quando doía.
Na escola, eu era aquela menina que tirava boas notas e ajudava os professores. Os meninos sempre me rodeavam, faziam piadas, tentavam me conquistar. Mas eu nunca cedia. No fundo, eu queria alguém diferente. Alguém que não fosse como meu pai.
O tempo passou e as amigas começaram a namorar, casar, ter filhos. Eu fui ficando pra trás. Cada vez que alguém perguntava “E aí, Iara? Quando vai ser sua vez?”, eu sorria amarelo e mudava de assunto. Mas à noite, deitada na cama do meu quartinho apertado, eu chorava baixinho para não acordar minha mãe.
Aos 28 anos, consegui um emprego melhor como assistente administrativa numa pequena empresa no centro de Belo Horizonte. O salário não era grande coisa, mas dava pra ajudar em casa e guardar um pouquinho todo mês. Foi lá que conheci o Rafael.
Rafael era diferente dos outros caras. Tímido, educado, sempre disposto a ajudar. Ele me oferecia carona quando chovia forte e trazia café quando via que eu estava cansada. Começamos a conversar sobre tudo: música, política, sonhos frustrados. Um dia ele me convidou para sair depois do expediente.
— Iara, você já foi naquele barzinho novo na Savassi? — perguntou ele, meio sem jeito.
— Nunca fui em barzinho nenhum — respondi rindo. — Minha mãe acha que esses lugares são só pra gente perder tempo e dinheiro.
Ele sorriu e insistiu:
— Então vamos juntos. Só dessa vez. Prometo te trazer em casa cedo.
Naquela noite, vesti minha melhor blusa — uma herança da minha prima — e passei um batom vermelho emprestado da vizinha. Senti um frio na barriga ao entrar no carro dele. No barzinho, rimos tanto que até esqueci dos problemas em casa.
Depois daquele dia, começamos a sair com mais frequência. Rafael era paciente com meus medos e inseguranças. Mas minha mãe não gostava dele.
— Esse rapaz não tem futuro! — ela dizia toda vez que ele me deixava em casa. — Vai acabar te largando igual seu pai fez comigo.
Eu tentava ignorar, mas as palavras dela grudavam na minha pele como poeira de construção. Comecei a cobrar demais do Rafael: queria provas de amor o tempo todo, ficava com ciúmes das colegas de trabalho dele e brigava por qualquer coisa.
Uma noite, depois de uma discussão boba sobre uma mensagem no celular dele, Rafael suspirou fundo e disse:
— Iara, eu gosto muito de você… Mas parece que nada do que eu faço é suficiente. Você não confia em mim.
Fiquei em silêncio. Ele tinha razão. Eu estava destruindo tudo por medo de sofrer como minha mãe sofreu.
Os dias passaram arrastados. No trabalho, evitávamos nos olhar. Em casa, minha mãe percebeu meu abatimento e tentou conversar.
— Filha… Eu só quero te proteger — disse ela baixinho enquanto lavava a louça.
— Eu sei, mãe… Mas às vezes parece que você quer me ver sozinha pra sempre.
Ela largou o prato na pia e me abraçou forte.
— Eu tenho medo de te perder pra dor que eu senti um dia.
Naquele momento percebi: minha vida inteira foi guiada pelo medo — o dela e o meu. Medo de amar errado, medo de sofrer, medo de repetir a história.
Decidi procurar Rafael para conversar. Esperei ele sair do trabalho e fui atrás dele no ponto de ônibus.
— Rafael… Me desculpa por tudo — falei com a voz trêmula. — Eu tenho tanto medo de ser abandonada que acabo afastando quem mais gosto.
Ele sorriu triste:
— Iara, todo mundo tem medo. Mas a gente precisa arriscar se quiser ser feliz.
Nos abraçamos ali mesmo, no meio da rua movimentada de BH. Não prometemos nada além de tentar mais uma vez — juntos.
Hoje olho para trás e vejo quantas vezes deixei o medo decidir por mim. Quantas oportunidades deixei passar esperando algo perfeito que nunca existiu. O amor não é conto de fadas; é escolha diária, é coragem de se mostrar vulnerável.
Às vezes ainda escuto minha mãe resmungando na cozinha ou sinto aquele aperto no peito quando penso no futuro incerto. Mas agora sei: o amor não se escondeu de mim — fui eu quem me escondi dele por tanto tempo.
Será que vale a pena viver se protegendo tanto? Ou será que amar é justamente aceitar o risco de se machucar? O que vocês acham?