O Espelho do Tempo: Um Encontro no Ponto de Ônibus

— Moça, vai subir ou vai ficar aí parada? — a voz do motorista me arrancou do transe. O barulho do ônibus lotado, o cheiro de chuva misturado com perfume barato, tudo parecia distante enquanto eu encarava aquele homem atrás do volante. Ele usava óculos de grau, tinha algumas rugas ao redor dos olhos e um crachá pendurado no peito: “Carlos Henrique da Silva, 39 anos”.

Meu coração disparou. Trinta e nove anos. A mesma idade que eu. Entrei apressada, tropeçando na catraca, sentindo o olhar impaciente das pessoas atrás de mim. Sentei na janela e fiquei observando meu reflexo no vidro sujo. Será que eu também parecia tão… adulta? Tão cansada?

Lembrei da minha mãe dizendo: “Filha, você precisa se cuidar mais. Passa um creme, faz uma escova nesse cabelo!” Sempre achei exagero. Mas ali, naquele instante, vi as linhas finas ao redor dos meus olhos, o cabelo preso às pressas, a blusa amassada. Será que era assim que os outros me viam?

O ônibus seguiu seu caminho pela Avenida Brasil, desviando dos buracos e dos ambulantes que vendiam balas no sinal. Meu celular vibrou: mensagem da minha irmã, Juliana. “Mãe tá perguntando se você vai passar lá hoje.” Suspirei. Desde que meu pai morreu, minha mãe se tornou ainda mais dependente de nós duas. Eu tentava ajudar como podia, mas às vezes sentia que estava envelhecendo antes da hora.

— Você viu quem é o motorista? — ouvi uma voz atrás de mim. Era uma senhora conversando com outra passageira.
— É o Carlos Henrique! Ele estudou comigo no colégio estadual ali do bairro.

Meu peito apertou. Eu também estudei naquele colégio. Será que ele me reconheceu? Olhei de novo para o retrovisor interno e vi os olhos dele me encarando por um segundo antes de voltar a atenção para o trânsito.

As lembranças vieram como uma enxurrada: as festas juninas na quadra, as provas de matemática, os bilhetes trocados na sala de aula. Carlos era um dos meninos mais populares. Sempre sorrindo, sempre rodeado de amigos. Eu era tímida, vivia com a cara enfiada nos livros.

O ônibus parou bruscamente e uma senhora quase caiu no meu colo.
— Desculpa, filha! Esses motoristas não têm mais paciência…
Sorri sem graça e ajudei-a a se equilibrar.

Meu celular tocou de novo. Era minha chefe.
— Amanda, você vai conseguir entregar o relatório hoje? Preciso dele antes das 17h.
— Sim, claro! Estou indo para o escritório agora.

Desliguei sentindo um nó na garganta. Trabalho, família, contas para pagar… Quando foi que a vida ficou tão pesada? Olhei para as mãos: unhas roídas, pele ressecada. Lembrei da época em que sonhava em ser escritora, viajar pelo mundo, viver grandes amores. Agora mal tinha tempo para tomar um café em paz.

O ônibus parou no sinal e um menino subiu vendendo paçoca.
— Ajuda aí, tia! Só dois reais…
Comprei uma e sorri para ele. “Tia”. Quando foi que passei a ser chamada assim?

De repente, ouvi meu nome:
— Amanda?
Olhei para frente e vi Carlos me olhando pelo espelho.
— Você é a Amanda do 3º B?
Senti meu rosto corar.
— Sou eu mesma…
Ele sorriu largo.
— Caramba! Quanto tempo! Você não mudou nada!
Ri sem graça. “Não mudou nada” era só uma gentileza ou ele realmente achava isso?

Alguns passageiros começaram a prestar atenção na nossa conversa.
— Lembra daquela vez que a professora Marlene pegou a gente colando na prova de história?
Eu ri alto dessa vez.
— Lembro sim! Você tentou esconder a cola dentro do estojo…

Por alguns minutos, esqueci das preocupações. Era como se tivéssemos voltado no tempo. Mas logo o clima mudou quando uma passageira reclamou:
— Ô motorista, vamos andar! Tem gente com pressa!
Carlos pediu desculpas e seguiu viagem.

Quando desci do ônibus, ele acenou para mim:
— Se cuida, Amanda! Quem sabe a gente se encontra de novo…
Fiquei parada na calçada por alguns segundos, sentindo uma mistura de nostalgia e tristeza. O tempo tinha passado para todos nós. Não éramos mais aqueles adolescentes cheios de sonhos e energia.

No escritório, mal consegui me concentrar no trabalho. Fiquei pensando em como nos vemos e como somos vistos pelos outros. Será que estou mesmo tão diferente? Ou será que só não aceito as marcas do tempo?

À noite, fui visitar minha mãe. Ela estava sentada na varanda, olhando as fotos antigas.
— Olha aqui você com 15 anos… — disse ela, mostrando uma foto minha com uniforme escolar.
Sentei ao lado dela e fiquei olhando aquela menina sorridente.
— Mãe… você acha que eu mudei muito?
Ela sorriu e passou a mão no meu cabelo.
— Mudou sim, filha. Mas só por fora. Por dentro você continua sendo aquela menina sonhadora.

Chorei baixinho no ombro dela. Às vezes tudo o que a gente precisa é ouvir isso de alguém que ama.

Antes de dormir, fiquei olhando meu reflexo no espelho do banheiro. Toquei as linhas ao redor dos olhos e sorri para mim mesma. Talvez envelhecer não seja tão ruim assim. Talvez seja só mais uma etapa da vida — cheia de desafios, mas também de reencontros e descobertas.

E você? Já se olhou no espelho e se perguntou quem realmente é hoje? Será que estamos prontos para aceitar as mudanças do tempo ou ainda tentamos nos agarrar ao passado?