Entre Silêncios e Esperanças: O Diário de Dona Lourdes

“Vocês não vão me deixar aqui sozinha de novo, vão?” Minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto olhava para o portão se fechando atrás de André. Ele nem virou o rosto. Só ouvi o barulho seco da tranca e, depois, o silêncio. O mesmo silêncio que me acompanha há anos, desde que o Paulo partiu e os meninos cresceram e foram embora para suas vidas agitadas em São Paulo e Campinas.

Hoje é 15 de outubro. Escrevo neste caderno velho porque, se não colocar para fora, acho que vou sufocar. Tenho 67 anos e moro sozinha nesta casa grande demais para mim, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O relógio da sala marca 18h20, mas aqui dentro parece sempre madrugada: escuro, frio, vazio.

Quando o Paulo morreu de repente, há dez anos, achei que meus filhos iam se unir ainda mais a mim. Mas foi o contrário. André arrumou emprego em Campinas e só aparece quando precisa de algum documento ou para buscar alguma coisa que ficou aqui. Mariana casou com um advogado metido a besta e agora vive postando fotos de viagens no Instagram — sempre sorrindo, sempre rodeada de amigos. Eu? Nem nas legendas das fotos entro mais.

Outro dia liguei para Mariana: “Filha, você não quer que eu fique uns dias aí com vocês? Sinto tanta falta de conversar…”

Ela suspirou alto do outro lado da linha. “Mãe, agora não dá. O apartamento é pequeno, o Pedro tá trabalhando em casa, as crianças têm aula online… Fica difícil.”

Difícil. Sempre difícil.

Fui criada no interior de Minas Gerais, numa família onde ninguém deixava ninguém sozinho. Quando minha mãe ficou doente, todos se revezaram para cuidar dela. Aqui na cidade grande é diferente. Cada um por si. Cada um com sua pressa.

Às vezes penso se fui uma mãe ruim. Será que cobrei demais? Será que amei pouco? Lembro das noites em claro costurando fardas escolares, dos bolos de fubá no aniversário, dos conselhos dados na mesa da cozinha… Mas parece que nada disso ficou.

Hoje cedo tentei ligar para André de novo. “Filho, você pode vir jantar comigo no domingo?”

Ele respondeu seco: “Mãe, já falei que domingo é dia de resolver minhas coisas. Não posso ficar indo aí toda hora.”

Toda hora? Faz três meses que não vejo meu filho.

A vizinha Dona Cida diz que é assim mesmo, que filho cresce e esquece da gente. Mas eu não consigo aceitar. Não depois de tudo que fiz por eles.

Outro dia fui ao posto de saúde buscar meus remédios de pressão. Na fila, uma senhora chamada Aparecida puxou conversa:

— A senhora mora sozinha?
— Moro sim…
— É difícil, né? Meus filhos também não querem saber de mim.

Nos olhamos como quem compartilha uma dor secreta. Ela me convidou para tomar café na casa dela qualquer dia desses. Talvez eu vá. Talvez não.

À noite, a solidão pesa mais. O portão range com o vento e eu me assusto fácil. Fico pensando: e se eu cair? E se passar mal? Quem vai saber? Quem vai sentir falta?

Já pensei em vender a casa e ir para um asilo, mas só de imaginar me dá um aperto no peito. Cresci ouvindo que asilo era lugar de gente abandonada. Mas será que não é isso que sou agora?

Semana passada tentei conversar com Mariana sobre isso:

— Filha, você acha que eu devia vender a casa?
— Mãe, faz o que achar melhor… Só não quero responsabilidade.

Responsabilidade.

Parece que virei um peso para eles. Um incômodo. Quando foi que deixei de ser mãe para virar obrigação?

No domingo passado fiz feijoada só para mim. Sentei à mesa posta para quatro pessoas e comi em silêncio. Chorei baixinho para não assustar os vizinhos.

Às vezes penso em sair andando pela rua até cansar as pernas e esquecer da cabeça. Mas tenho medo de cair e ninguém me ajudar.

Outro dia ouvi na televisão uma reportagem sobre abandono de idosos. Mostraram uma senhora chorando num banco de praça porque os filhos nunca mais apareceram. Senti vergonha de mim mesma por me identificar tanto com ela.

Hoje escrevo porque preciso gritar sem fazer barulho. Preciso entender onde foi que tudo se perdeu entre mim e meus filhos.

Será que eles vão sentir minha falta quando eu não estiver mais aqui? Será que vão lembrar do cheiro do meu café ou do colo quando tinham medo do escuro?

Às vezes penso em ligar para eles só para ouvir a voz, mas desisto antes do primeiro toque. Não quero ser chata. Não quero ser lembrada como peso.

A vizinha Dona Cida bateu aqui hoje à tarde:

— Lourdes, vamos tomar um café lá em casa? Fiz bolo de milho.

Fui. Conversamos sobre novelas antigas, sobre saudade dos tempos em que a rua era cheia de crianças brincando até tarde. Rimos um pouco — coisa rara ultimamente.

Na volta pra casa, olhei pro céu escurecendo e pensei: será que ainda tem jeito pra mim? Será que ainda posso ser feliz?

Hoje escrevo tudo isso porque preciso acreditar que alguém vai ler, vai entender essa dor silenciosa que é ser esquecida pelos próprios filhos.

Se você chegou até aqui, me diga: onde foi que a gente errou como família? Será mesmo que amar demais pode afastar quem a gente mais quer por perto?