Sonhos Despedaçados: O Drama de Violeta
— Onde ele está? — sussurrei para mim mesma, andando de um lado para o outro na sala apertada do nosso apartamento no bairro de Casa Amarela, em Recife. O relógio marcava quase meia-noite e Renato, meu marido, ainda não tinha dado sinal de vida. O celular tremia na minha mão suada, mas nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Só o silêncio e o zunido do ventilador velho.
Minha filha, Luísa, dormia no quarto ao lado, alheia ao caos que era minha cabeça. Eu sentia o peito apertado, uma mistura de raiva e medo. Não era a primeira vez que Renato sumia assim, mas cada ausência dele parecia arrancar mais um pedaço do que restava do nosso casamento.
Quando finalmente ouvi a chave girando na porta, meu coração disparou. Renato entrou devagar, com o rosto cansado e um sorriso forçado.
— Oi, amor… — tentou me beijar, mas virei o rosto.
— Você sabe que horas são? — minha voz saiu baixa, mas carregada de fúria.
Ele largou a mochila no chão e suspirou.
— Tive que ficar até mais tarde no bar. O movimento tá fraco, Violeta. Precisei fazer hora extra.
— Sempre tem uma desculpa, né? — cruzei os braços. — E o dinheiro? Cadê o dinheiro do aluguel?
Renato desviou o olhar. Eu já sabia a resposta. Ele gastava tudo em apostas e cerveja com os amigos. A cada mês era uma luta para pagar as contas. Eu trabalhava como caixa em um supermercado, fazia bico de manicure nos fins de semana, mas nunca era suficiente.
Naquela noite, depois que ele foi tomar banho, sentei na beira da cama e chorei baixinho. Lembrei do tempo em que sonhávamos juntos: uma casa maior, estabilidade, talvez até uma viagem para Porto de Galinhas nas férias. Agora tudo parecia tão distante quanto a lua.
Os dias seguintes foram ainda piores. Renato começou a chegar cada vez mais tarde. Às vezes nem voltava pra casa. Eu desconfiava de outra mulher, mas não tinha provas. Até que uma tarde, enquanto dobrava as roupas dele, encontrei um batom vermelho no bolso da calça jeans. Não era meu.
Esperei ele chegar naquela noite. Quando entrou, joguei o batom em cima da mesa.
— Isso aqui é seu agora? — minha voz tremia.
Renato ficou pálido. Tentou inventar uma desculpa qualquer, mas eu já não acreditava em nada. A discussão foi feia. Luísa acordou assustada com os gritos.
— Você acha que eu sou idiota? — gritei. — Eu me mato de trabalhar pra sustentar essa casa enquanto você gasta tudo com outra!
Ele me olhou com desprezo.
— Se tá ruim assim, por que não vai embora?
Aquelas palavras me cortaram como faca. Mas eu não tinha pra onde ir. Minha mãe morava longe, no interior da Paraíba, e mal conseguia se sustentar. Meus irmãos tinham suas próprias famílias e problemas.
As semanas passaram e Renato ficou cada vez mais agressivo. Um dia chegou bêbado e quebrou a porta do armário aos socos. Luísa chorava escondida atrás da cama. Foi ali que decidi: eu precisava sair dali antes que algo pior acontecesse.
No dia seguinte, pedi ajuda à minha vizinha Dona Cida. Ela me emprestou dinheiro para pegar um ônibus até a casa da minha mãe em Campina Grande. Arrumei duas malas com as roupas minhas e de Luísa e saímos sem olhar pra trás.
A vida no interior não era fácil. Dormíamos no mesmo quarto que minha mãe e dividíamos tudo: comida, espaço, esperança. Mas pelo menos havia paz. Aos poucos fui conseguindo clientes para fazer unhas e cabelos na vizinhança. Luísa voltou a sorrir.
Renato tentou me ligar algumas vezes. Mandou mensagens dizendo que sentia falta da filha, que queria recomeçar. Mas eu já não acreditava mais nas promessas dele.
Uma noite sentei na varanda com minha mãe e desabafei:
— Mãe, será que algum dia vou conseguir ser feliz de novo?
Ela segurou minha mão com carinho:
— Felicidade não é ausência de problemas, filha. É coragem pra recomeçar mesmo quando tudo parece perdido.
Essas palavras ficaram ecoando na minha cabeça por dias. Comecei a sonhar de novo: abrir meu próprio salão de beleza, dar uma vida melhor pra Luísa, talvez até encontrar alguém que me respeitasse de verdade.
Hoje olho pra trás e vejo o quanto fui forte pra sair daquele ciclo de dor e medo. Ainda tenho noites em claro pensando no futuro, mas agora sei que sou capaz de recomeçar quantas vezes for preciso.
E você? Já teve que abrir mão de um sonho pra sobreviver? Até onde vai a coragem de uma mulher quando tudo parece desmoronar?