Entre Frutas e Rações: O Peso das Escolhas de uma Avó
— Dona Célia, a senhora viu quanto custa esse sachê de salmão pra gato? — A voz da Luciana ecoou pela cozinha, carregada de reprovação. Eu estava lavando a louça do almoço de domingo, tentando ignorar o burburinho das crianças na sala e o miado insistente da minha gata, Filó, aos meus pés.
Respirei fundo antes de responder. — Vi sim, Luciana. Mas é o que eles gostam. E eles só têm a mim pra cuidar deles.
Ela bufou, cruzando os braços. — Sorte dos seus gatos. Porque meus filhos, se dependessem só da senhora, nem fruta viam em casa.
A frase dela me cortou como faca. Senti o rosto esquentar. Olhei para o chão, tentando engolir o nó na garganta. Meus netos — Pedro, Ana e Caio — estavam ali, rindo com o avô na sala, sem saber do peso dessas palavras.
— Luciana, eu faço o que posso — murmurei, mas ela já tinha virado as costas.
Fiquei ali parada, mãos molhadas, lembrando de quando meu filho Rodrigo era pequeno. Eu fazia questão de comprar banana, maçã, mamão… Mesmo quando o dinheiro era curto. Agora, aposentada e viúva há três anos, minha companhia diária são Filó e Chico, meus dois gatos. Eles me dão alegria num apartamento silencioso demais.
Rodrigo trabalha muito. Luciana também. Os dois chegam cansados, reclamam do preço das coisas no mercado, das contas atrasadas. Eu entendo. Mas toda vez que trago uma sacola de frutas pra cá, some em dois dias. As crianças comem como se fosse doce raro. E Luciana sempre comenta: — Fruta tá cara demais, mãe.
No último mês, resolvi comprar menos fruta e investir numa ração melhor pros gatos. Eles estavam ficando enjoados da ração comum. Quando Filó ficou doente e o veterinário recomendou comida úmida especial, não hesitei. Gastei quase cem reais em sachês e patês.
No domingo seguinte, Luciana chegou com as crianças e viu a prateleira cheia de latinhas coloridas. — Nossa, mãe! Isso tudo é pra Filó e Chico? — perguntou alto, olhando pros meninos.
Pedro olhou pra mim com aqueles olhos grandes: — Vovó, tem uva?
— Uva não pode, filho — respondi rápido. — Mas tem banana.
Ele pegou a banana e saiu correndo. Luciana me lançou um olhar duro.
— Mãe, desculpa falar assim… Mas às vezes parece que a senhora se importa mais com os gatos do que com seus netos.
Senti um aperto no peito. Não era verdade. Eu amava meus netos mais do que tudo. Mas também amava meus gatos. Eles eram minha companhia quando a casa ficava vazia.
Naquela noite, Rodrigo me ligou:
— Mãe, a Lu tá chateada… Ela acha que você podia ajudar mais com as crianças. Sei que a senhora gosta dos gatos, mas fruta faz falta lá em casa.
Fiquei em silêncio. Ele continuou:
— A senhora podia comprar menos dessas comidas caras pros bichos e trazer mais fruta pras crianças…
— Filho — interrompi — você sabe quanto custa uma caixa de banana hoje? E maçã? Eu ajudo no que posso… Mas também preciso cuidar dos meus bichos.
Ele suspirou do outro lado da linha:
— Eu sei… Só queria que a gente fosse mais prioridade pra senhora.
Desliguei com o coração apertado. Fui até a sala e sentei no sofá, Filó pulou no meu colo ronronando. Passei a mão nela distraída.
Lembrei do tempo em que Rodrigo era pequeno e eu fazia malabarismo pra dar conta de tudo: comida na mesa, roupa lavada, carinho na hora certa. Agora ele tinha sua família e eu… Bem, eu tinha meus gatos.
No dia seguinte fui ao mercado. Passei pela seção de frutas: maçã R$ 9 o quilo, mamão R$ 12 cada um. Peguei algumas bananas e uma dúzia de mexericas pequenas. No caixa olhei pro carrinho: metade frutas pras crianças, metade sachês pros gatos.
Quando cheguei na casa do Rodrigo pra deixar as frutas, Ana veio correndo me abraçar:
— Vovó! Trouxe maçã?
— Trouxe sim, minha flor.
Luciana apareceu na porta da cozinha:
— Obrigada, mãe… Desculpa se fui grossa ontem.
Assenti em silêncio. Não queria brigar mais.
Na volta pra casa fiquei pensando: será que estou errada? Será que amar meus gatos desse jeito é egoísmo? Ou será que é só solidão?
Na semana seguinte Rodrigo apareceu sozinho no meu apartamento:
— Mãe… A Lu tá pensando em arrumar um emprego extra à noite. Vai ficar ainda mais puxado pras crianças.
Olhei pra ele preocupada:
— E quem vai cuidar deles?
— A gente vai se virar… Mas talvez a senhora pudesse ficar com eles umas tardes por semana?
Meu coração disparou. Eu queria ajudar, mas também tinha medo de não dar conta.
— Posso tentar… Mas preciso ver como faço com Filó e Chico.
Ele sorriu aliviado:
— Obrigado, mãe.
Naquela tarde sentei na varanda com Filó no colo e Chico aos meus pés. Olhei pro céu cinza de São Paulo e pensei em tudo que já vivi: as dificuldades do passado, a solidão do presente, o medo do futuro.
No dia seguinte fui buscar as crianças na escola. Pedro entrou no carro animado:
— Vovó! Hoje tem fruta?
Sorri:
— Tem sim! E depois a gente pode brincar com a Filó e o Chico lá em casa.
Eles gritaram de alegria.
Quando chegamos em casa os gatos se esconderam no quarto — não estavam acostumados com tanta bagunça. Ana tentou pegar Filó no colo e ela arranhou sua mão sem querer.
Ana chorou alto:
— Vovó! Ela não gosta de mim!
Abracei minha neta:
— Ela só ficou assustada… Precisa ir devagarinho com ela.
Pedro ficou emburrado porque Chico não quis brincar também. Senti um peso enorme: queria agradar todo mundo e parecia falhar com todos.
No fim da tarde preparei um lanche: pão com queijo pras crianças e um pratinho de ração úmida pros gatos. Sentei à mesa olhando aquela cena: meus netos felizes comendo fruta e pão; meus gatos desconfiados olhando de longe.
Quando Rodrigo veio buscá-los à noite me abraçou forte:
— Obrigado por hoje, mãe.
Depois que todos foram embora sentei sozinha na sala escura. Filó pulou no meu colo ronronando baixinho. Passei a mão nela sentindo uma lágrima escorrer pelo rosto.
Será que existe jeito certo de amar? Será que sou menos mãe ou menos avó porque também amo meus bichos? Ou será que só estou tentando preencher os vazios da vida?