Só Ele Me Entende: Entre Cães, Silêncios e Segredos
— O que vai ter de janta hoje? — perguntou Cristiano, entrando na cozinha com aquele olhar desconfiado, farejando o ar como se esperasse sentir cheiro de feijão queimado ou arroz grudado no fundo da panela.
— Tô fazendo biscoitos pro Rei — respondi, tentando esconder o cansaço na voz enquanto tirava a assadeira do forno. — Com peito de frango e aveia. Ele anda meio jururu, sabe? Tá trocando de pelo, foi no pet shop hoje… Achei que merecia um agrado.
Cristiano bufou, jogando as chaves em cima da mesa. — Biscoito pro cachorro? E a gente? Você esqueceu que eu chego morto do trabalho?
O cheiro quente dos biscoitos se misturava ao incômodo que crescia dentro de mim. Olhei para Rei, deitado no tapete, os olhos atentos só pra mim. Só ele parecia entender o que eu sentia: aquela solidão que ninguém vê, aquela vontade de sumir quando tudo pesa demais.
— Tem arroz e feijão na panela. Se quiser, esquenta — murmurei, tentando não chorar. — Hoje eu só queria fazer algo diferente… pra alguém que realmente me faz companhia.
Cristiano ficou em silêncio. O barulho do micro-ondas preenchia o espaço entre nós. Eu sabia que ele não entendia. Ninguém entendia. Desde que perdi meu emprego na loja de roupas do centro, minha vida virou um ciclo de dias iguais: casa, supermercado, veterinário, cuidar do Rei. Meus amigos sumiram aos poucos, minha mãe só ligava pra reclamar das contas ou do meu irmão mais novo. E Cristiano… Cristiano só reclamava do trânsito, do chefe, da vida.
Rei era meu refúgio. Quando tudo parecia desmoronar, ele vinha e encostava a cabeça no meu colo. Não precisava dizer nada. Bastava aquele olhar castanho, cheio de carinho e aceitação.
Naquela noite, sentei no chão da cozinha com Rei. Ofereci um biscoito ainda morno e ele abanou o rabo devagar. Senti uma lágrima escorrer pelo rosto.
— Você é o único que me entende, sabia? — sussurrei.
Cristiano apareceu na porta, prato na mão. — Você tá chorando por causa do cachorro?
— Não é só por causa dele — respondi baixinho.
Ele revirou os olhos e voltou pra sala. O som da TV abafou qualquer chance de conversa.
Na semana seguinte, as coisas pioraram. Cristiano começou a chegar cada vez mais tarde. Quando estava em casa, ficava grudado no celular ou reclamando do barulho do Rei. Uma noite, depois de uma discussão sobre dinheiro — sempre sobre dinheiro — ele gritou:
— Você só pensa nesse cachorro! Parece que nem sou importante pra você!
Fiquei em silêncio. Porque era verdade: ultimamente, ele não era mesmo.
No domingo seguinte, minha mãe apareceu sem avisar. Trouxe um bolo de fubá e uma lista de problemas: o encanamento da casa dela, a escola do meu irmão, a vizinha fofoqueira. Enquanto ela falava sem parar, percebi como minha família sempre foi assim: cada um por si, ninguém escuta ninguém.
Depois que ela foi embora, sentei no quintal com Rei no colo. O sol batia fraquinho e o cheiro das flores misturava com o aroma dos biscoitos que eu tinha acabado de assar pra ele.
— Será que algum dia alguém vai me ouvir de verdade? — perguntei pro vento.
Naquela noite, Cristiano não voltou pra casa. Mandei mensagem, liguei. Nada. Só respondeu no dia seguinte: “Fiquei na casa do Rafael. Precisava pensar.”
Pensei em tudo que tinha perdido nos últimos anos: o emprego, os amigos, a leveza dos dias bons. Pensei em tudo que ainda tinha: Rei e aquele amor silencioso e incondicional.
Na segunda-feira cedo, levei Rei pra passear na praça. Encontrei Dona Cida com seu poodle velho e cansado. Ela sorriu pra mim:
— Seu cachorro é sua alegria, né? Dá pra ver nos seus olhos.
Quase chorei ali mesmo. Pela primeira vez em meses alguém percebeu algo sobre mim sem julgar ou cobrar.
Voltei pra casa decidida a mudar alguma coisa. Liguei pra uma amiga antiga, Camila. Contei tudo: sobre o emprego perdido, a solidão, Cristiano ausente.
— Amiga, você precisa se cuidar — ela disse firme. — Vem aqui em casa qualquer dia desses. Traz o Rei também!
Naquela noite, quando Cristiano chegou em casa, tentei conversar:
— A gente precisa falar sobre nós dois.
Ele suspirou fundo:
— Eu tô cansado disso tudo. Da rotina, das cobranças… Até parece que você só vive pro cachorro agora.
— E você só vive pro trabalho e pro celular! — rebati pela primeira vez em meses.
O silêncio foi pesado. Ele saiu batendo a porta do quarto.
Passei a noite acordada pensando em tudo que deixei de ser pra agradar os outros: esposa dedicada, filha presente, amiga disponível… E percebi que só com Rei eu podia ser eu mesma: frágil, triste ou feliz sem precisar fingir nada.
No dia seguinte tomei coragem e marquei uma consulta com uma psicóloga do SUS. Contei tudo pra ela: a solidão, o medo de não ser suficiente pra ninguém além do meu cachorro.
Ela me olhou com gentileza:
— Você precisa se priorizar um pouco mais. O amor dos animais é lindo e verdadeiro, mas você também merece ser amada por si mesma.
Saí dali mais leve. Decidi procurar um curso online pra tentar voltar ao mercado de trabalho. Comecei a sair mais com Camila e outras amigas antigas. Cristiano continuou distante; às vezes dormia fora sem avisar.
Um dia ele chegou em casa e disse:
— Acho melhor a gente dar um tempo.
Doeu ouvir aquilo. Mas lá no fundo eu já sabia: nosso casamento tinha acabado muito antes daquela frase ser dita.
Chorei muito naquela noite. Rei ficou ao meu lado o tempo todo. No dia seguinte acordei decidida a recomeçar.
Hoje olho pra trás e vejo quanto tempo perdi tentando agradar quem nunca quis me ouvir de verdade. Aprendi a valorizar quem me aceita como sou — mesmo que seja um cachorro peludo e bagunceiro como o Rei.
Às vezes me pergunto: quantas mulheres como eu existem por aí? Quantas vivem cercadas de gente mas continuam sozinhas? Será que algum dia vamos aprender a nos ouvir antes de esperar ser ouvidas pelos outros?