O Mesmo Dia, Todos os Dias
— Camila! Você não vai trabalhar hoje, não? — O grito da minha mãe atravessou a porta do quarto como uma faca. Abri os olhos num susto, o coração disparado. O relógio piscava 9h32. Meu corpo congelou. Eu nunca acordo depois das sete. Nunca.
Saltei da cama tropeçando nos próprios pés. O celular estava morto, preto como a noite. O carregador desconectado da tomada — provavelmente meu irmão, Lucas, tinha usado de novo pra jogar no celular dele durante a madrugada. Senti uma raiva quente subir pelo peito.
— Mãe, o Lucas pegou meu carregador de novo! — gritei, já procurando uma roupa limpa no armário bagunçado.
— Não começa, Camila! Todo dia essa briga! — respondeu ela da cozinha, o barulho da panela de pressão abafando metade das palavras.
Vesti a primeira calça jeans que encontrei e uma camiseta amassada. Nem tive tempo de olhar no espelho. Corri para o banheiro, mas a porta estava trancada.
— Lucas! Sai daí! — bati forte.
— Calma, Camila! Tô terminando! — ele respondeu, voz arrastada, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Senti vontade de chorar. Era sempre assim. Eu me matava pra manter tudo em ordem: faculdade de manhã, estágio à tarde, ajudava em casa à noite. Mas ninguém parecia notar. Ninguém parecia se importar.
Quando finalmente consegui entrar no banheiro, lavei o rosto com pressa. Olhei para mim mesma no espelho: olheiras profundas, cabelo desgrenhado, olhos vermelhos de raiva e cansaço. Respirei fundo. “Você consegue, Camila. Só mais um dia”, pensei.
Na cozinha, minha mãe já estava reclamando:
— Você vai perder o estágio se continuar assim! Não pense que vai ficar aqui em casa à toa!
— Mãe, foi só hoje… O Lucas pegou meu carregador de novo! — tentei argumentar.
Ela me olhou com aquele olhar cansado de quem já ouviu todas as desculpas do mundo.
— Todo mundo tem problema, Camila. A vida não espera ninguém.
Engoli seco. Peguei um pão amanhecido e saí correndo para o ponto de ônibus. O sol já estava alto e o calor começava a castigar. No caminho, trombei com Dona Sônia, a vizinha fofoqueira.
— Dormiu demais hoje, hein, menina? — ela disse com aquele sorriso venenoso.
Sorri amarelo e continuei andando. O ônibus demorou quase vinte minutos para passar. Quando finalmente entrei, estava lotado. Fiquei espremida entre um senhor ranzinza e uma moça com fone de ouvido que mastigava chiclete como se fosse um protesto contra o mundo.
No estágio, cheguei atrasada quase uma hora. Meu chefe, Seu Antônio, me olhou por cima dos óculos:
— Camila, pontualidade é fundamental aqui. Se não consegue chegar no horário, talvez precise repensar suas prioridades.
Senti o rosto queimar de vergonha e raiva. Queria gritar que não era culpa minha, que eu fazia o possível e o impossível todos os dias. Mas só consegui balbuciar um pedido de desculpas e me enfiar atrás do computador.
As horas passaram arrastadas. Cada tarefa parecia mais difícil que a anterior. Meus colegas cochichavam pelos cantos; sentia os olhares de julgamento pesando sobre mim.
No fim do expediente, recebi uma mensagem da minha melhor amiga, Mariana:
“Vamos tomar um açaí? Você tá sumida!”
Pensei em recusar — estava exausta — mas aceitei. Precisava de alguém que me entendesse.
No açaí da esquina, Mariana me olhou preocupada:
— O que tá acontecendo com você? Você parece tão distante…
Desabei ali mesmo. Contei tudo: o cansaço, as brigas em casa, a pressão no estágio, a sensação de estar sempre correndo atrás do próprio rabo e nunca chegar a lugar nenhum.
Mariana segurou minha mão:
— Amiga, você precisa cuidar de você também. Não adianta tentar agradar todo mundo e esquecer de si mesma.
As palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça enquanto voltava pra casa. No portão, ouvi meus pais discutindo sobre dinheiro — contas atrasadas, supermercado caro demais, salário que não dá pra nada.
Entrei devagar, tentando não chamar atenção. Mas Lucas veio logo atrás:
— Mãe tá brava com você porque não ajudou a lavar a louça ontem.
— Eu tava estudando pra prova! — rebati.
Ele deu de ombros e foi pro quarto jogar videogame.
Jantei em silêncio. Minha mãe mal olhou pra mim. Meu pai ficou calado o tempo todo.
Naquela noite, deitada na cama escura, chorei baixinho para ninguém ouvir. Senti um peso enorme no peito — como se estivesse afundando num mar sem fundo.
Pensei em tudo que queria dizer: que eu também estava cansada, que precisava de ajuda, que não era só responsabilidade minha manter tudo funcionando. Mas as palavras nunca saíam.
No dia seguinte acordei antes do despertador tocar. Olhei para o teto e pensei: será que algum dia as coisas vão mudar? Será que alguém vai perceber que eu também preciso ser cuidada?
E você aí do outro lado: já sentiu que carrega o mundo nas costas e ninguém percebe? Até quando vamos fingir que está tudo bem?