Entre o Amor e a Culpa: O Peso de Ser Mãe

— Por que você nunca me olha do jeito que olha pro Lucas? — Camila me perguntou certa noite, a voz embargada, os olhos brilhando de lágrimas que ela tentava esconder. Eu estava sentada à mesa da cozinha, revisando contas atrasadas, quando ela entrou, com o uniforme da escola amarrotado e a mochila pendendo de um ombro só. Meu coração parou por um segundo. Não era a primeira vez que eu ouvia essa pergunta, mas era a primeira vez que ela dizia em voz alta.

Meu nome é Marta, tenho 43 anos, moro em Osasco, na periferia de São Paulo. Sou mãe solo desde que o pai das crianças, o Rogério, sumiu no mundo quando Camila tinha só dois anos e Lucas, quatro. Desde então, minha vida virou uma batalha diária: acordar cedo, pegar dois ônibus até o hospital onde trabalho como auxiliar de enfermagem, voltar tarde, fazer comida, ajudar nas tarefas — ou pelo menos tentar.

Lucas sempre foi meu menino de ouro. Calmo, estudioso, carinhoso. Desde pequeno me abraçava forte quando eu chegava cansada do plantão e dizia: “Mãe, você é minha heroína.” Camila era diferente. Desde bebê chorava muito, tinha crises de birra, não aceitava um não. Cresceu rebelde, respondona. Eu tentava entender, mas confesso: muitas vezes perdi a paciência.

A verdade é que eu nunca consegui amar Camila com a mesma facilidade que amava Lucas. E isso me dói mais do que qualquer coisa. Eu me esforço todos os dias para ser justa, para dar carinho igual, mas sempre sinto que falho. E ela sente também.

Naquela noite, depois da pergunta dela, fiquei muda. O silêncio pesou entre nós como uma parede invisível. Ela esperou uma resposta que não veio e saiu batendo a porta do quarto. Fiquei ali, olhando para as contas espalhadas na mesa, sentindo uma dor funda no peito.

Lembro de quando Camila tinha oito anos e foi chamada na escola porque bateu em uma colega. A diretora me olhou com aquele olhar de julgamento e disse: “A senhora precisa dar mais atenção pra sua filha.” Eu queria gritar: “Eu tento! Mas não sei como!” Em casa, Lucas veio me abraçar e disse: “Mãe, não fica triste.” Camila ficou trancada no quarto o resto do dia.

Os anos passaram e a distância entre nós só aumentou. Lucas virou meu confidente. Contava tudo: as notas boas, as dúvidas sobre o futuro, os sonhos de fazer faculdade de engenharia. Camila se fechou cada vez mais. Começou a sair com umas companhias estranhas, chegou tarde algumas noites. Eu brigava, ela gritava de volta. Um ciclo sem fim.

Uma vez ouvi minha mãe dizer pra minha tia: “A Marta só tem olhos pro Lucas. A Camila puxou o pai.” Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Será que era isso? Será que eu via nela o Rogério — aquele homem que me deixou sozinha com duas crianças pequenas? Será que minha raiva dele se misturava com meu jeito de tratar minha filha?

No Natal passado, tentei fazer diferente. Preparei a comida preferida da Camila — lasanha — e comprei um presente especial: um livro de poesias da Conceição Evaristo. Ela abriu o pacote sem sorrir e disse: “Obrigada.” Lucas ganhou um tênis novo e pulou no meu pescoço de alegria. Depois do jantar, Camila saiu sem avisar pra onde ia. Fiquei esperando até tarde, roendo as unhas de preocupação.

Outro dia, ouvi uma conversa dela no telefone:
— Minha mãe nem liga pra mim… Só pro Lucas…

Meu coração se partiu em mil pedaços. Queria correr até ela e dizer que não era verdade, mas as palavras travaram na garganta.

No começo deste ano, Camila foi suspensa da escola por causa de uma briga feia. Fui chamada lá de novo. No caminho de volta pra casa, dentro do ônibus lotado, tentei puxar assunto:
— Filha… O que tá acontecendo com você?
Ela olhou pela janela e respondeu:
— Você nunca vai entender.

Chegando em casa, Lucas veio nos receber com um sorriso. Ele percebeu o clima pesado e se afastou em silêncio.

Às vezes penso em pedir ajuda profissional, mas não tenho dinheiro pra psicólogo. Já pensei em conversar com a pastora da igreja do bairro, mas tenho vergonha de expor meus sentimentos mais feios.

Outro dia sonhei com Camila pequena, correndo atrás de mim no parque e gritando: “Mãe! Olha pra mim!” Acordei chorando.

Hoje ela tem 16 anos e quase não fala comigo. Passa horas trancada no quarto ouvindo música alta ou mexendo no celular. Quando tento conversar, ela responde com monossílabos ou ironias afiadas.

Lucas vai bem na escola e já conseguiu um estágio num escritório perto de casa. Ele sempre me ajuda nas tarefas e até faz comida quando chego exausta do plantão. Às vezes sinto orgulho dele misturado com culpa por não sentir o mesmo por Camila.

Outro dia minha vizinha Sandra comentou:
— Marta, você precisa dar mais atenção pra menina… Senão ela vai se perder nesse mundão.
Eu sorri amarelo e mudei de assunto.

À noite fiquei pensando: será que ainda dá tempo? Será que consigo reconstruir essa ponte quebrada entre mim e minha filha? Ou já é tarde demais?

Hoje escrevo essa história porque preciso desabafar. Preciso ouvir outras mães, outros pais… Alguém já sentiu isso? Essa culpa esmagadora por não conseguir amar igual? Como lidar com esse sentimento sem destruir ainda mais quem a gente ama?

Às vezes olho pra Camila dormindo — sim, ainda passo no quarto dela antes de dormir — e penso: “Filha, me perdoa por não saber ser melhor.”

Será que algum dia ela vai entender? Será que algum dia eu vou conseguir amar sem reservas? Ou será que certas feridas nunca cicatrizam?

E você aí… já sentiu algo parecido? Como fez pra lidar? Me conta…