Bolo e Outras Desilusões
— Helena, você não vai esquecer de colocar as velas, né? — gritou minha mãe da sala, enquanto eu batia o chantilly com força, tentando não deixar transparecer o tremor nas mãos. O relógio da parede marcava quase onze da manhã e o cheiro doce do bolo de baunilha já tomava conta do pequeno apartamento em São Gonçalo. Hoje era o aniversário de dezoito anos da minha filha, a minha menina, a minha Kasia. Ou melhor, a minha Catarina — mas só eu a chamava assim, desde que ela decidiu que “Kasia” era mais moderno.
O bolo era meu presente. Três andares, recheio de mousse de baunilha, framboesas frescas (que custaram uma fortuna na feira) e arabescos de chocolate amargo. Eu queria que fosse perfeito, como se cada camada pudesse apagar os anos de distância entre nós. Como se o açúcar pudesse adoçar as palavras duras que trocamos nos últimos meses.
Enquanto espalhava o creme com a espátula, ouvi a porta do quarto bater. Kasia saiu apressada, já maquiada, vestida com aquela saia curta que eu detestava. Ela nem olhou pra mim.
— Catarina, vem cá um minuto! — chamei, tentando soar casual.
Ela parou na porta da cozinha, braços cruzados.
— O que foi?
— Só queria saber se você vai querer ajudar a decorar o bolo. Era tradição, lembra?
Ela bufou.
— Mãe, eu tenho mais o que fazer. Meus amigos vão chegar daqui a pouco. E você sabe que eu não como doce.
Senti um aperto no peito. Como assim não come doce? Desde quando? Lembrei dos aniversários passados, dela lambuzada de brigadeiro, rindo alto. Agora ela parecia outra pessoa — ou talvez eu é que não tivesse percebido a mudança.
Minha mãe apareceu atrás dela, com aquele olhar de quem quer evitar briga.
— Deixa a menina, Helena. Adolescente é assim mesmo.
Mas não era só isso. Eu sabia. Desde que o pai dela foi embora — ou melhor, desde que eu mandei ele embora — tudo ficou mais difícil entre nós. Kasia nunca me perdoou por isso. Ela dizia que eu destruí nossa família. Eu dizia que fiz o melhor pra nós duas.
Enquanto montava o último andar do bolo, ouvi risadas vindas da sala. Os amigos dela chegaram cedo, trazendo caixas de cerveja e uma caixa de som enorme. A música alta fazia tremer as paredes finas do apartamento. Minha mãe tentava organizar os salgadinhos na mesa, mas logo desistiu diante da bagunça.
Fiquei na cozinha, invisível. Era como se eu fosse só a cozinheira da festa — não a mãe da aniversariante.
Quando terminei o bolo, respirei fundo e fui até a sala. Kasia estava cercada pelos amigos, rindo alto de alguma piada interna. Vi quando ela pegou uma lata de cerveja e virou quase toda de uma vez só.
— Catarina! — chamei, mais alto do que pretendia. Todos olharam pra mim.
— O quê? — ela respondeu, impaciente.
— Vem ver o bolo. Fiz do jeito que você gosta.
Ela revirou os olhos.
— Mãe, depois eu vejo. Agora tô ocupada.
Senti meu rosto queimar. Um dos amigos dela cochichou algo e todos riram ainda mais alto. Voltei pra cozinha com lágrimas nos olhos.
Minha mãe veio atrás de mim.
— Helena, não leva pro lado pessoal. Ela vai entender um dia.
— Vai? — perguntei, enxugando as lágrimas com as costas da mão cheia de glacê. — E se não entender? E se eu perdi minha filha pra sempre?
O tempo passou devagar até o fim da tarde. Os jovens dançavam e cantavam músicas que eu nem conhecia. Eu me sentia uma estranha na própria casa.
Quando chegou a hora do parabéns, apaguei as luzes e levei o bolo até a sala. As velas acesas iluminavam o rosto da minha filha — tão linda e tão distante.
Todos cantaram alto, mas Kasia parecia desconfortável. Quando terminei de cantar e fui abraçá-la, ela se esquivou.
— Mãe, para! Tá todo mundo olhando!
O silêncio foi imediato. Senti todos os olhares em mim — alguns com pena, outros com julgamento.
Minha mãe tentou salvar a situação:
— Vamos cortar o bolo!
Kasia pegou a faca e cortou um pedaço minúsculo para si mesma. Nem provou.
Depois disso, os amigos começaram a ir embora aos poucos. A sala ficou vazia e silenciosa. Minha mãe recolhia os copos plásticos enquanto eu guardava os restos do bolo na geladeira.
Kasia entrou na cozinha sem fazer barulho.
— Mãe…
Olhei pra ela sem dizer nada.
— Desculpa por antes. Eu… Eu só queria que hoje fosse diferente.
Sentei à mesa e ela sentou ao meu lado.
— Diferente como?
Ela suspirou.
— Eu queria que o pai estivesse aqui. Queria sentir aquela família de antes… Mas sei que não dá mais pra voltar atrás.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Depois ela pegou um garfo e provou um pedaço do bolo.
— Tá bom — disse baixinho, com um sorriso tímido.
Eu sorri também, mas por dentro sentia um vazio enorme. Será que algum dia ela entenderia minhas escolhas? Será que algum dia seríamos próximas de novo?
No fim daquela noite, sozinha na cozinha escura, olhei para o resto do bolo e pensei: quantas camadas de açúcar são necessárias para cobrir as feridas do passado? Será que existe receita para consertar um coração partido?